segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Dia Nove - Onde se Conta uma História

 

        As mulheres foram pelos xailes e eles pelas peliças e nada de candeias como se vê nos presépios de brincar, que a estrela incandescia. E quem é que fica a guardar o gado, quem não fica, que todos queriam ir. E portanto jogaram ao ita não ita, ita não há, quem está livre livre está. Perdeu o zarolho. Primeiro amuou por via da pouca sorte, mas logo se sujeitou a ficar e foi ajeitando as palhas; a afofar o lugar da cabeça ainda deu sinal, está certo, eu perdi e fico a tomar conta do gado, mas se esse menino for um Deus de verdade avisem os pais que o visito amanhã e lhe levo coalhada que a mãe há-de precisar, diz que ajuda o leite a tomar força, salvo seja. Mas já os outros punham pés ao caminho, bordões a ajudar nos desníveis.

        Ia o grupo encarreirado quando uma mulher lembrou os presentes, que não se visita um bebé sem uma prendinha; e logo as outras acudiram, que pois claro, tinha de se respeitar a tradição, e que parir num curral trazia muita necessidade, elas bem sabiam. E patati e patatá. E os homens, mau, mau, não querem lá ver que nasce o sol e a gente ainda no caminho. Olhem que as ovelhas entram num cagaçal que até o patrão vai saber lá na aldeia que ainda não saíram por aí a tosar. Mas já elas iam por um frasquinho de mel, um queijo de meia cura, uma latinha de leite (era gente que não usava garrafas), algumas pêras selvagens, amoras apanhadas à tarde, um vime de arandos, se é que por lá os havia. E uma trouxe um cordeirinho debaixo do braço. E o seu homem logo fazendo menção de o levar ao redil, que é lá isso mulher, pois já tu ordenas no que é meu? E ela de faca na liga, pois experimenta vir cá tirá-lo que não te ordenho nem mais uma ovelha, não faço um queijo sequer e vou-me a casa que estou farta desta vida de cigana monte abaixo e monte acima. Este cordeiro faz falta aos pés do menino. Parece que não sabes que vacas e burros são de fraco aquecimento. Deito-lhe o cordeiro aos pés e vais ver que quentinho fica, os pezinhos na lã. E o homem para si, esta mulher pensa em tudo, até num deus com os pés frios. E deu o cordeiro como perdido que, por tudo o que fora nomeado e mais alguma coisa que aqui não se conta por ser história de inocência, não podia ver-se sem ela.

        E lá ao longe a estrela de cinco pontas em chamamento de luz, mais cansada de piscar que as árvores de natal, cujas acendem e apagam e têm motor, mas ela tinha de brilhar ininterrupta a custas próprias e cumpria-lhe fazer da noite dia. Já suava a pobre. E Maria, aquela menina que a gente sabe, estava extenuada e com motivo, mas só o José-parteira a amparava, enquanto o Menino-Deus abria e fechava os dedinhos sobre as palhas. José tirava-lhe uma e logo ele agarrava outra e fazia menção de levá-la à boca. E daí a nada, Deus ou não Deus, já vagia com fome. Apiedada da situação a estrela enchia-se de brios e criava brilho mais forte, piscava, incidia directamente no grupo dos pastores. Era assim que dizia, “despachem-se”. Parecia uma ambulância, mas sem apito sonoro, facto que decerto lamentava, mesmo não havendo, à época, ideia vaga de tinónis.

        Não sei se já deu para entender, mas os caminhos da santidade são ainda mais difíceis que os outros. Pode ser falta de hábito, afinal, estrelas e anjos são corpos das alturas sem adaptação a caminhos humanos. Sempre Deus-Pai faz cada uma aos seus... a começar pelo filho.

        Mudando de assunto, os três Meninos cá de casa já estão no poiso. Ainda não dei com as velas vermelhas, mas na janela da copa já é natal. E a da cozinha vai a caminho. Tenho uns quarenta panos da loiça a dizer Feliz Natal e não sei quantos aventais natalícios de gosto duvidoso. Este ano dou sumiço às aberrações. Eu terei assim tanta tia? Quem é que me dá tanto pano da loiça e aventais, senhores. São é muitos anos a panos da loiça e aventais. Essa é que é essa. Pergunto-me como é que alguém pode dar de presente uma coisa que só nos serve para trabalhar. É maldade, só pode.

8 comentários:

  1. Ainda não temos planos para fazer as decorações natalícias.
    Só quando chegar a Catarina.
    Boa semana

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    1. Os meus planos não diferem de um ano a outro. Sou pouco criativa e gosto de me rodear de enfeites que me deram ou fizeram para mim. E dos que saíram de minhas mãos, claro. Escolho o lugar uma vez e é sempre aquele.
      Boa semana, Pedro

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  2. Pois só lhe digo uma coisa, parecia que estava a ler uma página do Evangelho de Saramago.
    O que foi dito, o que foi pensado e o que se subentendeu na história do cordeirinho está de truz.
    Bom dia Bea.

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    1. Bom dia, Joaquim:).
      Não acredito nessa de ter alguma semelhança com Saramago que não sendo dos meus escritores preferidos tem óptima escrita. Eu só vou navegando ao sabor dos apetites.
      E cuidado com o friozinho

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  3. Prosa encantatória Bea! Para mim, como um banho num lugar (aben)sonhado. Tipo "vou às termas" aliviar maleitas. Abç Bettips

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  4. Não imaginava que a Bettips gostasse de termas:))). Fui alguns anos. Não aliviei nada do que pretendia tratar. Mas gostei muito, tratavam-me bem.
    As termas são luxo a que nos propomos. Um mimo pessoal.

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  5. Mais um texto daqueles... de se tirar o chapéu :)

    A descrição do presépio, deliciosa :)

    Bom dia

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