Hoje começa o advento. Oficialmente e sem sofismas. Advento é tempo de espera para os cristãos; e, como em tanto que existe, a espera talvez seja melhor que o acontecimento. Temporalmente, será. São vinte e quatro dias de esperança para um de acontecimento. É grande discrepância.
Dezembro obriga-nos a sair da concha e admirar o mundo. Há luzes acesas nas ruas, as montras exibem-se em brilho e cor, a intensa alegria de verdes e vermelhos a insistir. Paira muita cintilação de prata, muito azul firmamento, muito dourado chamativo. E os olhos agradecem, por eles entra uma parcela de boa vontade novinha em folha, como se renascêssemos com o espectáculo ano a ano repetido. Chamo aqui apenas os ínfimos nadas do natal, os que são grátis e as almas pequenas e simples agradecem; os pequenos encantos de alma. Encantam-me os enfeites dos centro comerciais da cidade grande e vou quase sempre espreitá-los. Mesmo em pleno dia, sem a cintilação das luzes, dou graças por esses decoradores inventivos que criam beleza em lugares tão desprovidos. O hábito não faz o monge, mas vesti-lo é outra coisa.
Neste dia lembro os meus alunos mais antigos - aqueles que hoje terão meio século - e penso na história que lhes lia para lembrar o histórico 1º de Dezembro – sempre o recordei, qualquer que fosse a idade dos ouvintes. Será que inda a lembram e algum a conta ou contou aos filhos?! E porque hoje as horas correm mais devagar e me permitem ser eu com mais força, fui visitar um ou outro álbum de fotos, rever aquelas carinhas infantis, sorrisos de orelha a orelha. Encontrei-o num virar de página, adulto entre crianças. Inesperado e tão ele. Será recorte de jornal ou revista, não sei; nem sequer me lembro de ali o ter guardado, embora haja, álbuns fora, por este ou aquele motivo, recortes de gente que não esqueço. Fiquei a olhá-lo embevecida. Perfilado em blusa vermelha e uma nesga de camisa branca talvez quadriculada, parece a um tempo nostálgico e futurista – olha a direito para o infinito (quem sabe um infinito próprio, tão finito quanto é o humano conceber), mãos postas, dedo contra dedo, mistério ponderado amparando o queixo, quiçá os cotovelos nos joelhos, interrogador crítico do futuro. Um pensador moderno e muito a gosto.
Surpresa no primeiro dia do calendário. Auspiciosa.
Chega a saudade quando nos lembramos deles e se os encontramos ... brilha o nosso olhar! Todos diferentes e há nomes que não esquecemos pois fizeram a diferença no nosso caminho ao seu lado! Que seja "um belo de um Dezembro"... e aquela queda de água em forma de véu encontra-se em S. Miguel! 😘 Bea
ResponderEliminarBem haja, Gracinha. Pode ser que um dia vá a S. Miguel. Se não for, já vi as suas fotos.
ResponderEliminarTalvez a vida tenha apagado os sorrisos; ou - acontece muito -, lhes tenha dado outra tonalidade. Mas eu lembro-os assim, incólumes e infantis, tão lindos todos.
Que seja um belo Dezembro, Gracinha. E não um dia apenas.
Por aqui ainda não defenestrámos a Primavera.
ResponderEliminarBoa semana
E por que razão haverá a Primavera de ser atirada janela fora, Pedro?! Se está, deixá-la estar. Cultivar um natal primaveril é outra coisa.
ResponderEliminarBoa semana
Por acaso também gosto de ver as decorações nos centros comerciais. Há uns que ficam mesmo lindos.
ResponderEliminarE da praxe, ver as luzes na Capital, claro.
Boa semana
As da Baixa pouco as vejo, mas este ano acho que vou ter essa oportunidade:). Pois somos as duas a gostar da decoração dos grandes centros comerciais:).
Eliminarbeijinho, Cláudia
Tal como a Bea, também gosto de ir a centros comerciais, especialmente nesta altura, embora à medida que o Natal e as últimas compras se aproximam, seja de todo desaconselhável.
ResponderEliminarNuma dessas idas a acompanhar as senhoras cá de casa, estava distraidamente a passear por uma livraria quando a minha atenção foi prendida pela capa de um livro de Javier Marias.
Tratava-se de "Os Enamoramentos" e é uma reflexão sobre o esquecimento dos defuntos de cada um e a evolução das novas relações amorosas que o tempo traz aos vivos.
Sobre este assunto veio-me à lembrança um caso ocorrido há uns anos atrás no meu prédio, quando morreu de cancro da mama uma senhora de meia idade, muito simpática casada com um senhor um pouco mais velho, pais de um rapaz no fim da juventude. Passado um ano, o senhor voltou a casar.
A partir daí, os vizinhos começaram a uma só voz a dizer mal do homem, que não havia direito, que não respeitou a alma da mulher nem no período de nojo. A partir daí o homem passou a ser mal visto e malquisto por todos os vizinhos, excepto por mim. Eu compreendi a situação dele e mais do que isso, pus-me na sua posição e a cru e a frio cheguei à conclusão que eu, nas suas condições, poderia ter feito o mesmo.
Com a idade aprendi que a melhor maneira que tenho de julgar alguém é pôr-me nas suas tamanquinhas, a que acresce a sabedoria popular do velho provérbio "quem vive no convento é que sabe o que se passa lá dentro".
E assim começamos o advento e o senhor já não mora aqui.
Desculpe fugir do tema Bea.