Deixemos pois os pastores a caminho do ofício que já berrava por eles com quanta força tinha e às marradinhas à porta do curral, enquanto as mulheres quase corriam por covas e cabeços com a garotada na lembrança, que isto de não haver TV nem mundo digital, já se sabe, dá muito filho e muita apoquentação, ai se caíram ao poço, ai se algum lobo ou raposa os levou, ai se pegaram fogo à cabana, ai.
Bom, sabemos também que, mal os primeiros raios de sol puseram antenas de fora, a estrela de cinco pontas adormeceu no posto toda encarquilhadinha e involutiva, sem ponta por onde se lhe pegasse, que é assim o sono das estrelas, só perdidas de si mesmas conseguem repousar. Os humanos são bastante parecidos, mas sonham, não perdem completamente o hábito de serem homens, o que algumas vezes é uma pena e um desperdício. À estrela fechavam-se-lhe os olhos sem querer, ninguém percebia a razão de piscar como as ambulâncias, mas agora sabemos que piscava de sono e esforço por se manter acordada. É que assistir a um parto divino sem poder fazer mais que iluminar, deve ser cansativo e frustrante, estrela que se preze quer fazer mais. A pobre estrelinha só não ganhou ali mesmo um complexo qualquer porque suponho que ainda não tinham sido inventados. Quer dizer, haver havia, mas não eram nomeados. E há quem diga que o que não tem nome, não existe, que não se pode falar ou pensar no que não tem nome, etc. Mas este assunto não vem à liça senão com a estrelinha de Natal e ela, garanto eu, estava pelos cabelos de tanto nervoso miudinho. E depois, Deus-Pai já lhe tinha feito saber o que estava por vir. Portanto, era dormir o quanto pudesse, disfarçada de não presta; acordar fresca a meio da tarde e tratar dos brilhos estelares, que isso, meus amigos, compete a cada estrela. Primeiro havia que lavar os longos cabelos loiros com gema de ovo e depois espalhá-los e deixá-los secar à luz do sol para aloirarem mais e carregarem baterias. Para quem não sabe, os cabelos das estrelas são o brilho que vemos. E carregam a luz solar, estilo painéis. Ficam eléctricas as estrelinhas. E o que fazem essas meninas durante as horas de carregamento? Ora, lêem livros, cortam a franja e as pontas espigadas, tagarelam umas com as outras e só não pintam as unhas por não terem mãos - com meia carga ouvem-se de um fim de mundo ao outro.
Entreguemos a estrelinha a seus afazeres e vamos espreitar a sagrada família. A Maria já subiu o leite e o Menino mama regalado sob o olhar desvanecido dos pais. Sim, dos pais. Pai é quem gosta dia a dia sem quebra, quem cria e cuida, quem ensina uma profissão, quem ensina a falar e a andar, quem educa, quem se preocupa a vida toda com o filho; quem, por amor, mesmo que ele vá à sua vida e o esqueça, jamais olvida a função. E José era assim. Vejam bem, Há um Deus-Pai verdadeiro; de sangue, quero dizer (duvido que Deus-Pai tenha sangue, mas isto sou eu), e um filho que é dele. Certo. Também é verdade que são três em um, e onde está um estão os três. Mas este Deus-Pai, só se lembra que é pai quando o filho - já homem – é baptizado. Ah, aí diz lá do alto da sua imponência, “Este é o meu filho muito amado no qual pus todo o meu enlevo”. Pôs?! Pôs mas não disse a ninguém. E José disse a toda a gente que Jesus era filho dele, não que eu o saiba de fonte certa, mas era um viúvo de meia idade e boa índole que não percebo bem para que escolheu uma menina de doze anos (quando a escolheu devia ter dez ou onze) e nem quero pensar muito nisso para não ficar com ideias (mais) parvas. Bom, talvez Deus-Pai tenha tido as suas intenções na escolha de um homem de meia idade (meia idade é favor, há quem diga que tinha quase oitenta anos), não duraria muito, desaparecia quando já não fizesse falta. Quanto materialismo ó Deus-Pai! E nem vou falar do Espírito Santo porque sou contra essa pomba ininteligível.
Do meu natal: vai andando. Hoje pintei alguns cartões de boas festas e enviei os meus embrulhos de sempre. Como as tintas secaram quase todas foi chapa cinco. Logo eu que gosto de variar nas cores e ficar a pensar a quem envio qual. O meu caixote do lixo está solado de tubos de acrílico inúteis e mais secos que eu.
Ainda não comprámos nenhuma prenda natalícia.
ResponderEliminarE a mim já só me falta uma garrafa; não passa de amanhã.
EliminarÀs vezes imagino quanto aborrecido se deve sentir o Deus-Pai lá no sítio onde mora. Primeiro porque não deve ter com quem falar, como é único não tem pares, depois, como tudo conhece, não deve ler um livro para se distrair, portanto a única distração que lhe conheço é espreitar-nos lá de cima e ver o que andamos a fazer.
ResponderEliminarMas se houverem outros universos e outros Deus-Pai onde cada um reine, a coisa já pode mudar de figura, se eles se derem bem entre si, se conversarem e dialogarem já terão muito para comparar e se entreterem. Claro que também se podem zangar, serem egoístas, vaidosos, dizerem mal e troçarem uns dos outros, mas sempre seria um mal menor para combater a grande solidão.
Mau, mau, Joaquim. Sendo um ou vários, não vivem num mundo perfeito e que lhes serve? (vivem é maneira de dizer porque não são existentes, né?) Julgo sempre que sejam entidades completamente diversas do humano e não apenas a miscelânia ciumenta, vingadora e agressiva dos deuses gregos. Embora que analisados humanamente sejam uma paródia, porque não são humanos e o nosso intelecto só entende do humano. O resto é a fantasia, a minha, a sua, a de tanta gente, a compor quadros sem modelo.
EliminarSério, esta descrição deste Presépio é mesmo muito boa :)
ResponderEliminarPintar cartões de Natal? Temos artista em todas as vertentes :)
Bom dia
Não, não, Cláudia; só pego no pincel mesmo para os cartões natalícios e faço-os iguais todos os anos, por ser o que exige menos trabalho. Em meia hora apronto mais de quatro. Mas são feitos com amor, isso sim. É uma atenção especial e personalizada a quem gosto.
ResponderEliminarBoa noite:)