domingo, 8 de dezembro de 2019

Carrossel


Na Boa Semente o carinho que todos dedicávamos ao Amora humanizava-nos a dureza e ligava-nos uns aos outros. Entretanto, a morte levou-nos o lado esperançoso da vida. Octávio perdeu os apartes felizes que lhe rasgavam o mutismo, Maria os sorrisos meigos, nós a ternura expressa que nos adoçava ao vê-lo e brincar com ele. Contudo, foi por essa altura que, do mundo adulto, me veio uma mão.
Desde o primeiro dia na Casa, quando ganhara um carro de linhas vazio na sala de visitas a uso das costureiras, que a mulher que mo passara (só podia ser ela) cumpriu o prometido e me tornou herdeiro das roupas do neto. Não voltámos a estar próximos, ainda que as visse, uma vez por outra, a entrar ou sair. Abrandavam o passo ao ver-nos, cochichavam entre si, por vezes apontavam-me, mas não se detinham. E confesso que já lhe baralhava a figura, achava-as todas parecidas a vestir e pentear e a velhice indiferenciava-as.
Numa tarde em que saía da cozinha carregando o balde das cascas de batata e restos de legumes até ao galinheiro - na Casa nada se estragava -, a mulher deixou a costura e seguiu-me. Só a vi quando, na volta, fechava a porta, as pitas cacarejando avisos e às bicadas umas às outras na disputa dos melhores bocados. A minha benfeitora sorria-me num avental de quadrados azuis e brancos. Julguei que o sorriso lhe vinha por reconhecer as roupas do neto  e agradeci, obrigada, ficam-me mesmo boas. Mas ela puxou-me pelo braço até uma esquina da casa onde não éramos vistos e, afundando as  mãos nos bolsos trouxe à luz cinco maçãs redondas e de riscas bem vermelhas, igualinhas às que roubara. Depois deixou-as cair no balde vazio, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc sussurrando em conluio, é a conta das que deixaste cair quando subiste o muro. Não são as mesmas, que essas apanhei-as e levei para casa. E a olhar-me muito séria, não podes deixar rasto, tu. Depois, à laia de explicação acrescentou, andava por ali às ervas para os coelhos e vi-te. Come-as que estás magrinho. E, beliscando-me a face de leve, afastou-se. Eu num estupor radiante, a vê-la dirigir-se serenamente para a sala da costura, a proximidade da tentação  ardendo-me na boca que salivava, mão esquerda hipnotizada pelo conteúdo do balde. A desejo, devorei uma maçã e, num repente cuidadoso, arranquei um tufo de erva, escavei um pouco, coloquei as maçãs e voltei a pô-lo no lugar. Pareceu-me sem diferença.
 E foi assim que eu, Esparguete e Lingrinhas provámos as maçãs. A minha benfeitora era uma mulher envelhecida, tisnada de sóis e ventos, a testa a descoberto, grandes orelhas e, na base do pescoço, preso num elástico escuro, um rabo de cavalo minúsculo. Não era bonita ou bem ataviada, mas a memória guardou-lhe os olhos de boas vindas  e a discrição do gesto protector. 

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Há gente assim Gracinha, de bondade natural:).
      Boas festas!!!

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  2. Bravo, bea, gostei mesmo :)))
    Afinal sempre há um pedacinho de justiça na terra...
    Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.
    🍎🍎🍎🍎🍎
    Maria

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  3. Oh, Maria desculpe o atraso, mas é que só agora que estou a entrar de novo nesta outra vida me dei conta dos comentários. Sorry:))) (tive que reler tudo de novo).
    Um abracinho e bom domingo.
    Vê, ainda provaram as maçãs.

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