Na Boa Semente o carinho que todos dedicávamos ao Amora humanizava-nos a
dureza e ligava-nos uns aos outros. Entretanto, a morte levou-nos o lado
esperançoso da vida. Octávio perdeu os apartes felizes que lhe rasgavam o
mutismo, Maria os sorrisos meigos, nós a ternura expressa que nos adoçava ao
vê-lo e brincar com ele. Contudo, foi por essa altura que, do mundo adulto, me veio
uma mão.
Desde
o primeiro dia na Casa, quando ganhara um carro de linhas vazio na sala de visitas
a uso das costureiras, que a mulher que mo passara (só podia ser ela) cumpriu o
prometido e me tornou herdeiro das roupas do neto. Não voltámos
a estar próximos, ainda que as visse, uma vez por outra, a entrar ou sair. Abrandavam o
passo ao ver-nos, cochichavam entre si, por vezes apontavam-me, mas não se
detinham. E confesso que já lhe baralhava a figura, achava-as todas parecidas a
vestir e pentear e a velhice indiferenciava-as.
Numa
tarde em que saía da cozinha carregando o balde das cascas de batata e
restos de legumes até ao galinheiro - na Casa nada se estragava -,
a mulher deixou a costura e seguiu-me. Só a vi quando, na volta, fechava a
porta, as pitas cacarejando avisos e às bicadas umas às outras na
disputa dos melhores bocados. A minha benfeitora sorria-me num avental de quadrados
azuis e brancos. Julguei que o sorriso lhe vinha por reconhecer as roupas
do neto e agradeci, obrigada, ficam-me
mesmo boas. Mas ela puxou-me pelo braço até uma esquina da casa onde não éramos
vistos e, afundando as mãos nos bolsos
trouxe à luz cinco maçãs redondas e de riscas bem vermelhas, igualinhas às que
roubara. Depois deixou-as cair no balde vazio, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc sussurrando em conluio, é a conta das que deixaste cair quando subiste o muro. Não são as
mesmas, que essas apanhei-as e levei para casa. E a olhar-me muito séria, não
podes deixar rasto, tu. Depois, à laia de explicação acrescentou, andava por
ali às ervas para os coelhos e vi-te. Come-as que estás magrinho. E, beliscando-me a face de leve, afastou-se. Eu num estupor radiante, a vê-la
dirigir-se serenamente para a sala da costura, a proximidade da tentação ardendo-me na boca que salivava, mão esquerda hipnotizada pelo conteúdo do balde. A desejo, devorei uma maçã e, num repente cuidadoso, arranquei um tufo de erva, escavei um pouco, coloquei
as maçãs e voltei a pô-lo no lugar. Pareceu-me sem diferença.
E foi assim que eu, Esparguete e Lingrinhas provámos as maçãs. A minha benfeitora era uma mulher envelhecida, tisnada de sóis e ventos, a testa a descoberto, grandes orelhas e, na base do pescoço, preso num elástico escuro, um rabo de cavalo minúsculo. Não era bonita ou bem ataviada, mas a memória guardou-lhe os olhos de boas vindas e a discrição do gesto protector.
E foi assim que eu, Esparguete e Lingrinhas provámos as maçãs. A minha benfeitora era uma mulher envelhecida, tisnada de sóis e ventos, a testa a descoberto, grandes orelhas e, na base do pescoço, preso num elástico escuro, um rabo de cavalo minúsculo. Não era bonita ou bem ataviada, mas a memória guardou-lhe os olhos de boas vindas e a discrição do gesto protector.
Uma boa fada pelos vistos!!! Bj
ResponderEliminarHá gente assim Gracinha, de bondade natural:).
EliminarBoas festas!!!
Bravo, bea, gostei mesmo :)))
ResponderEliminarAfinal sempre há um pedacinho de justiça na terra...
Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.
🍎🍎🍎🍎🍎
Maria
Oh, Maria desculpe o atraso, mas é que só agora que estou a entrar de novo nesta outra vida me dei conta dos comentários. Sorry:))) (tive que reler tudo de novo).
ResponderEliminarUm abracinho e bom domingo.
Vê, ainda provaram as maçãs.