Todos
os natais da nossa vida contêm pormenores que nos ficam: uns entram no saco das
boas lembranças; outros, nem tanto.
As
lembranças deste ano:
Uma jovem no lar dos velhos, fantasiada de elfo
e a dar colheradas de papa a uma avozinha com cem anos. Cem, sim. Tem uns
olhinhos fundos e risonhos que pisca continuamente, mete conversa com todos e
nem sempre se entende o que diz. A mim já me perguntou se queria ir a sua casa
(parece estar sempre de partida para a casa que já não tem). Admiro esta
velhinha, tem um sorriso bom naquelas luzinhas frouxas em cama de pele enrugada. E é alegre,
por vezes encontro-a a cantar e sorri-me sempre. Mas aquela que admirei e
admiro é a garota. Lembro-me dela na escola, alta, meio tímida, enfiada. E ali,
não. Ali é sorridente e compassiva, leva a vida a gargalhar e todos os
pensionistas a gostam. Chefia o lar mas agarra qualquer tarefa, carrega os
velhos para a cadeiras de rodas, leva-os ao refeitório e dá-lhes a sopa à boca,
medicamentos, etc. Julgo que encontrou o seu lugar no mundo. Bem haja.
É
uma venerável senhora beirando os noventa. Gosto dela por muitas razões e conheço-a
desde que me me lembro de existir. O mês de Dezembro trouxe-lhe um impecilho de
monta: caiu. E, apesar da fisioterapia, as artroses que a afligem há anos,
lixam-lhe agora as pernas e comprometem a deslocação. Ora quando recebeu um
mimo, não descansou enquanto o não viu, dedos a rasgar o embrulho e, à vista dele,
sorriu inteirinha, experimentou-o logo ali e saiu a coxear apoiada na bengala,
dizendo, vou ver ao espelho. E não parecia ter noventa anos, era só uma garota contente.
O terceiro
pormenor chegou-me hoje num molho de confidências inesperadas. É sabido o
quanto, por vezes, nos atormentam as
injustiças do passado (os actos injustos passam incólumes sobre o tempo,
perduram). E que vida triste e revoltada há-de ter tido para assim desabafar
comigo que não sou íntima. Lembrei minha mãe, “há pais desnaturados, não
merecem os filhos que têm”. Foi o caso; que quem assim procede não é pai nem
mãe, mas algoz. E ter dois esbirros em casa é forte influência; além de um
penador.
Tudo
o resto apaga, esquece. Foi mais um Natal. E um calendário.
FIM
Também já presenciei histórias semelhantes!!!
ResponderEliminarBoas entradas em 2020 Bea... 🥂
Quando a gente envelhece não descobre a pólvora, Gracinha. E cada um conta o que o toca como sabe - e como é - o que toda a gente vê, tanta vez sem o notar. Ainda bem que a Gracinha pertence aos que conhecem e observam. Essa é uma grande riqueza pessoal. Pode crer.
EliminarTenho que aceitar a sua decisão de terminar no dia 27 (uma data que me é muito querida) o calendário de Natal 🌲 Aguardo com ansiedade outras escritas, logo que a bea se recomponha e o dedinho também.
ResponderEliminarestou na recauchutagem:), que é como quem diz, a dar descanso à máquina.
ResponderEliminarE ainda sobram broas, frutos secos, chocolates... Dá para esticar o Natal. :)
ResponderEliminarMelhoras do dedo.
Nada, Luísa, já só tenho uma embalagem de torrão espanhol:). Marchou tudo. Broas não havia, chocolates ofereci bastantes e frutos secos há sempre em minha casa:). E o polegar, que tem um corte artístico em forma de sorriso triste, está benzinho, obrigada.
ResponderEliminarContinuação de Boas Festas.
Bea, tenho lido todas as suas publicações, religiosamente. Porém, tenho andado numa fona, como se diz aqui no norte e tempo para comentar, escasseou. Foram aniversários, chegada dos pintainhos que regressam ao ninho, jantaradas, abraços e beijos, jantaradas, mais abraços e muitos beijos, assim, da aeternum enquanto durou.
ResponderEliminarFoi um natal feliz, pantagruélico, repleto de gargalhadas, a casa num caos, que me encheu de pura felicidade. Presentes, só os dos aniversários. No Natal demo-nos por inteiro uns aos outros. Dei por mim, num repente, a pensar, que só quero isto da vida.
Bom domingo, querida Bea.
Gostei de a ler, Nina. Os momentos felizes são os que nos aguentam quando a vida nos aperreia. E parece que o Natal correu bem. Se a família está reunida e em harmonia, que mais podemos querer?!
ResponderEliminarHoje tenho andado a pôr a vida no lugar:). Mas quando o sol se despede sou balão que esvazia e já pouco consigo.
Andar numa fona também se diz no Alentejo. Boa noite, Nina:). Prazer em voltar a lê-la.
Foi mais um Natal passado em família.
ResponderEliminarComo eu gosto.
Boa semana
E já foi, não é Pedro?
EliminarAinda tenho dois aniversários em espera.
Boas entradas no ano vinte vinte, Bea, com menos trabalho (está bem, abelha 🐝) e com muita alegria e amor.
ResponderEliminarAbracinho.
🥂🍾
Tem um bom número o ano; o que não significa nada.
ResponderEliminarMaria, quem me dera ter menos trabalho. Mas também não creio. Haja saúde, algum dinheiro e que ninguém embirre connosco.
Parecem-me 3 pedidos razoáveis 😊 pode ser que o simpático vinte vinte nos faça a vontade...
Eliminar🌹
...e que nos seja fácil viver, a vida é um fluir que dá gosto mas pode a torneira fechar repentina. Ou a mente começar a esparvecer, facto que também não será agradável.
EliminarBom Dia. Fique bem, Maria.
A beleza da juventude e a beleza que nos mais velhos persiste. Um conto de Natal bonito!
ResponderEliminarDas maldades... escapar, dar o ombro mas... escapar. Porque também há filhos que não merecem os pais que tiveram.
Que a alegria não falte a quem a merece e reparte.
Abçs
bettips
ResponderEliminarconseguir retirar do meu amontoado um conto de Natal é obra. Obrigada:). Mas sim, podia ter feito a partir dele um conto de Natal, cujo este ano,não saiu à cena. Paciência. Outros haverá. Ou não.
Hoje, especialmente, digo sim, das maldades escapar quanto possa. Se vierem, termos presença de espírito, que escorreguem por nós abaixo, não entram. Viver também dá experiência:).
É verdade, muitos filhos não merecem os pais que tiveram. A vida não é justa e cada um tem de lutar e servir-se do que lhe foi dado; a haver prestação de contas, julgo que seja essa :).
Obrigada peça companhia, bettips. Bom Ano 2020!