sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dia VINTE SETE


Todos os natais da nossa vida contêm pormenores que nos ficam: uns entram no saco das boas lembranças;  outros,  nem tanto.  
As lembranças deste ano:
 Uma jovem no lar dos velhos, fantasiada de elfo e a dar colheradas de papa a uma avozinha com cem anos. Cem, sim. Tem uns olhinhos fundos e risonhos que pisca continuamente, mete conversa com todos e nem sempre se entende o que diz. A mim já me perguntou se queria ir a sua casa (parece estar sempre de partida para a casa que já não tem). Admiro esta velhinha, tem um sorriso bom naquelas luzinhas frouxas em cama de pele enrugada. E é alegre, por vezes encontro-a a cantar e sorri-me sempre. Mas aquela que admirei e admiro é a garota. Lembro-me dela na escola, alta, meio tímida, enfiada. E ali, não. Ali é sorridente e compassiva, leva a vida a gargalhar e todos os pensionistas a gostam. Chefia o lar mas agarra qualquer tarefa, carrega os velhos para a cadeiras de rodas, leva-os ao refeitório e dá-lhes a sopa à boca, medicamentos, etc. Julgo que encontrou o seu lugar no mundo. Bem haja.
É uma venerável senhora beirando os noventa. Gosto dela por muitas razões e conheço-a desde que me me lembro de existir. O mês de Dezembro trouxe-lhe um impecilho de monta: caiu. E, apesar da fisioterapia, as artroses que a afligem há anos, lixam-lhe agora as pernas e comprometem a deslocação. Ora quando recebeu um mimo, não descansou enquanto o não viu, dedos a rasgar o embrulho e, à vista dele, sorriu inteirinha, experimentou-o logo ali e saiu a coxear apoiada na bengala, dizendo, vou ver ao espelho. E não parecia ter noventa anos, era só uma garota contente.
O terceiro pormenor chegou-me hoje num molho de confidências inesperadas. É sabido o quanto, por vezes,  nos atormentam as injustiças do passado (os actos injustos passam incólumes sobre o tempo, perduram). E que vida triste e revoltada há-de ter tido para assim desabafar comigo que não sou íntima. Lembrei minha mãe, “há pais desnaturados, não merecem os filhos que têm”. Foi o caso; que quem assim procede não é pai nem mãe, mas algoz. E ter dois esbirros em casa é forte influência; além de um penador.
Tudo o resto apaga, esquece. Foi mais um Natal. E um calendário.
                                                             FIM



16 comentários:

  1. Também já presenciei histórias semelhantes!!!
    Boas entradas em 2020 Bea... 🥂

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    1. Quando a gente envelhece não descobre a pólvora, Gracinha. E cada um conta o que o toca como sabe - e como é - o que toda a gente vê, tanta vez sem o notar. Ainda bem que a Gracinha pertence aos que conhecem e observam. Essa é uma grande riqueza pessoal. Pode crer.

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  2. Tenho que aceitar a sua decisão de terminar no dia 27 (uma data que me é muito querida) o calendário de Natal 🌲 Aguardo com ansiedade outras escritas, logo que a bea se recomponha e o dedinho também.

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  3. estou na recauchutagem:), que é como quem diz, a dar descanso à máquina.

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  4. E ainda sobram broas, frutos secos, chocolates... Dá para esticar o Natal. :)
    Melhoras do dedo.

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  5. Nada, Luísa, já só tenho uma embalagem de torrão espanhol:). Marchou tudo. Broas não havia, chocolates ofereci bastantes e frutos secos há sempre em minha casa:). E o polegar, que tem um corte artístico em forma de sorriso triste, está benzinho, obrigada.
    Continuação de Boas Festas.

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  6. Bea, tenho lido todas as suas publicações, religiosamente. Porém, tenho andado numa fona, como se diz aqui no norte e tempo para comentar, escasseou. Foram aniversários, chegada dos pintainhos que regressam ao ninho, jantaradas, abraços e beijos, jantaradas, mais abraços e muitos beijos, assim, da aeternum enquanto durou.
    Foi um natal feliz, pantagruélico, repleto de gargalhadas, a casa num caos, que me encheu de pura felicidade. Presentes, só os dos aniversários. No Natal demo-nos por inteiro uns aos outros. Dei por mim, num repente, a pensar, que só quero isto da vida.
    Bom domingo, querida Bea.

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  7. Gostei de a ler, Nina. Os momentos felizes são os que nos aguentam quando a vida nos aperreia. E parece que o Natal correu bem. Se a família está reunida e em harmonia, que mais podemos querer?!
    Hoje tenho andado a pôr a vida no lugar:). Mas quando o sol se despede sou balão que esvazia e já pouco consigo.
    Andar numa fona também se diz no Alentejo. Boa noite, Nina:). Prazer em voltar a lê-la.

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  8. Foi mais um Natal passado em família.
    Como eu gosto.
    Boa semana

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    1. E já foi, não é Pedro?
      Ainda tenho dois aniversários em espera.

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  9. Boas entradas no ano vinte vinte, Bea, com menos trabalho (está bem, abelha 🐝) e com muita alegria e amor.

    Abracinho.
    🥂🍾

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  10. Tem um bom número o ano; o que não significa nada.
    Maria, quem me dera ter menos trabalho. Mas também não creio. Haja saúde, algum dinheiro e que ninguém embirre connosco.

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    1. Parecem-me 3 pedidos razoáveis 😊 pode ser que o simpático vinte vinte nos faça a vontade...
      🌹

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    2. ...e que nos seja fácil viver, a vida é um fluir que dá gosto mas pode a torneira fechar repentina. Ou a mente começar a esparvecer, facto que também não será agradável.
      Bom Dia. Fique bem, Maria.

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  11. A beleza da juventude e a beleza que nos mais velhos persiste. Um conto de Natal bonito!
    Das maldades... escapar, dar o ombro mas... escapar. Porque também há filhos que não merecem os pais que tiveram.
    Que a alegria não falte a quem a merece e reparte.
    Abçs

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  12. bettips
    conseguir retirar do meu amontoado um conto de Natal é obra. Obrigada:). Mas sim, podia ter feito a partir dele um conto de Natal, cujo este ano,não saiu à cena. Paciência. Outros haverá. Ou não.
    Hoje, especialmente, digo sim, das maldades escapar quanto possa. Se vierem, termos presença de espírito, que escorreguem por nós abaixo, não entram. Viver também dá experiência:).
    É verdade, muitos filhos não merecem os pais que tiveram. A vida não é justa e cada um tem de lutar e servir-se do que lhe foi dado; a haver prestação de contas, julgo que seja essa :).
    Obrigada peça companhia, bettips. Bom Ano 2020!

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