sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Dia VINTE


Chamo Picamilho ao meu mínimo Menino.  É tão pequenino que quase parece aqueles bonequitos que saíam das caixas da farinha Amparo e Predilecta. Por ser um deus, repousa  levemente sobre uma almofadinha vermelha debruada a fio dourado, e tem grande probabilidade de ter sido desencantado numa loja de chineses. E ali está na copa, mesmo à beirinha da mesa,  sorriso alegre no rostinho chupado.  Para mim, tem falta de nutrientes. Trouxe-mo a senhora que conheço há tanto ano e me ajuda um pouco em casa. Disse ela, “a senhora gosta tanto do Natal que olhei para ele e me lembrei de si”. E, portanto, vão três.
Mudando de assunto, hoje estive a rever meus passos e meus erros mais incandescentes neste Natal. O primeiro foi que embrulhei prendas sem me lembrar de retirar preços. Portanto, toca a desembrulhar. E tal. E tal. E novo papel que o outro rasgou. Avante. O segundo foi que enviei dois cartões de Boas Festas em branco - que tenha dado por isso foram só dois. O primeiro erro emendei; o segundo, já não posso. A esta hora já eles vão sei lá eu onde. O terceiro foi atezanar-me um facto antigo e que, à época, me escapou (julgo que não o pensei, mas posso ter pensado).
Há muitos anos, mesmo muitos, nas vésperas de Natal, vinha minha mãe do cemitério onde fora pôr flores a uma tia ou coisa que o valha e encontrou uma nota de quinhentos escudos. A bem dizer, conta ela, a nota veio rolando até aos seus pés, empurrada pelo vento. O dia era semelhante ao de hoje, chovera, ventava e fazia um frio desagradável. Olhou. Na rua não havia vivalma. Guardou-a pensando que se encontrasse alguém em busca dela lha daria. Veio andando devagar até ao centro da vila e nada. Então, decidiu-se. Resumindo: tivemos o melhor Menino Jesus de sempre (o hábito era um gatinho ou uma sombrinha de chocolate). Havia um montão de embrulhos sobre cada par de sapatos. Que alegria.
O que hoje constatei, talvez por estar rodeada de embrulhos e laços, num fazer e desfazer solitário, foi que minha mãe não comprou uma peça para si. Nada. Ela que jamais vira um tostão do que ganhava, que não teve sequer uma escova de cabelo que fosse sua, um boião de creme ou perfume barato. E para que quereria tais alindares quando roupa e calçado eram de tão extrema magreza. Pergunto-me se eu seria capaz de tal desprendimento. E não sei responder. Mas calculo que essa doação despojada seja próxima ao espírito do Natal.

6 comentários:

  1. Ao ler este comovente texto, lembrei-me da minha mãe. Costumo dizer que era uma mulher caprichosa e egoísta, uma verdadeira diva. Pensando bem, a minha mãe, se só tivesse 50 escudos, também os gastava comigo, tenho a certeza ♥

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  2. Nesta época do ano, Teresa, mais se sente a presença dos ausentes.
    Bom sábado:)

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  3. Memórias que não se perdem no tempo e azáfama própria da época!!!
    Bea um NATAL bem FELIZ!!!

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  4. Minha querida amiga Bea, a esta hora da noite este texto tocou fundo no meu coração.
    Hoje ainda não tinha lembrado a minha mãe. Às voltas com as compras, embrulhos, sacos e malas esquecia os dois meus ausentes e agora, a esta hora da noite, surgiram numa enxurrada de lágrimas.
    Volto, sabes que volto, para ler o que não li.
    FELIZ NATAL! Que 2020 traga apenas felicidade.
    Beijo, até p'ró ano!

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  5. Obrigada, Teresa:). Até para o ano.

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