Chamo
Picamilho ao meu mínimo Menino. É tão
pequenino que quase parece aqueles bonequitos que saíam das caixas da farinha
Amparo e Predilecta. Por ser um deus, repousa levemente sobre uma almofadinha vermelha
debruada a fio dourado, e tem grande probabilidade de ter sido desencantado numa
loja de chineses. E ali está na copa, mesmo à beirinha da mesa, sorriso alegre no rostinho chupado. Para mim, tem falta de nutrientes. Trouxe-mo a
senhora que conheço há tanto ano e me ajuda um pouco em casa. Disse ela, “a
senhora gosta tanto do Natal que olhei para ele e me lembrei de si”. E,
portanto, vão três.
Mudando
de assunto, hoje estive a rever meus passos e meus erros mais incandescentes
neste Natal. O primeiro foi que embrulhei prendas sem me lembrar de retirar
preços. Portanto, toca a desembrulhar. E tal. E tal. E novo papel que o outro
rasgou. Avante. O segundo foi que enviei dois cartões de Boas Festas em branco
- que tenha dado por isso foram só dois. O primeiro erro emendei; o segundo, já
não posso. A esta hora já eles vão sei lá eu onde. O terceiro foi atezanar-me
um facto antigo e que, à época, me escapou (julgo que não o pensei, mas posso
ter pensado).
Há
muitos anos, mesmo muitos, nas vésperas de Natal, vinha minha mãe do cemitério
onde fora pôr flores a uma tia ou coisa que o valha e encontrou uma nota de
quinhentos escudos. A bem dizer, conta ela, a nota veio rolando até aos seus
pés, empurrada pelo vento. O dia era semelhante ao de hoje, chovera, ventava e
fazia um frio desagradável. Olhou. Na rua não havia vivalma. Guardou-a pensando
que se encontrasse alguém em busca dela lha daria. Veio andando devagar até ao
centro da vila e nada. Então, decidiu-se. Resumindo: tivemos o melhor Menino
Jesus de sempre (o hábito era um gatinho ou uma sombrinha de chocolate). Havia
um montão de embrulhos sobre cada par de sapatos. Que alegria.
O
que hoje constatei, talvez por estar rodeada de embrulhos e laços, num fazer e
desfazer solitário, foi que minha mãe não comprou uma peça para si. Nada. Ela
que jamais vira um tostão do que ganhava, que não teve sequer uma escova de
cabelo que fosse sua, um boião de creme ou perfume barato. E para que quereria
tais alindares quando roupa e calçado eram de tão extrema magreza. Pergunto-me
se eu seria capaz de tal desprendimento. E não sei responder. Mas calculo que essa
doação despojada seja próxima ao espírito do Natal.
Ao ler este comovente texto, lembrei-me da minha mãe. Costumo dizer que era uma mulher caprichosa e egoísta, uma verdadeira diva. Pensando bem, a minha mãe, se só tivesse 50 escudos, também os gastava comigo, tenho a certeza ♥
ResponderEliminarNesta época do ano, Teresa, mais se sente a presença dos ausentes.
ResponderEliminarBom sábado:)
Memórias que não se perdem no tempo e azáfama própria da época!!!
ResponderEliminarBea um NATAL bem FELIZ!!!
Obrigada, Gracinha.
EliminarMinha querida amiga Bea, a esta hora da noite este texto tocou fundo no meu coração.
ResponderEliminarHoje ainda não tinha lembrado a minha mãe. Às voltas com as compras, embrulhos, sacos e malas esquecia os dois meus ausentes e agora, a esta hora da noite, surgiram numa enxurrada de lágrimas.
Volto, sabes que volto, para ler o que não li.
FELIZ NATAL! Que 2020 traga apenas felicidade.
Beijo, até p'ró ano!
Obrigada, Teresa:). Até para o ano.
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