Nunca
soubemos o que aconteceu aos míseros pertences do Amora. Quando à noite
entrámos na camarata, a cama, quase geminada com a de Lingrinhas, evaporara. E,
se não fora o retrato dos dois que Maria guardava desde a festa do Natal
anterior e ofereceu a Lingrinhas, podíamos pensar que o tínhamos inventado e
era tão real como as personagens imaginárias com que eu povoava as tardes
calmosas de Alentejo sem brisa. Porém, a ausência das pessoas não elide o que
sentimos por elas, o Amora tornou-se uma memória de ternura triste em todos nós. E, se alguma coisa sei
desses rapazes de então, é que nenhum esqueceu a tragédia daquele garoto. Mas também
nós éramos crianças e, por hábito de vida difícil, pouco atreitos a manter e
exibir desgostos. Engenhocas ofereceu-se e, com a ajuda de Octávio, fez uma
pequena moldura para a foto. Depois, Lingrinhas suspendeu-a por uma fita colorida
que pediu a Maria, e pendurou-a na barra
de latão da cabeceira da cama. A princípio ainda íamos olhar a inocência sorridente do Amora, mãos dadas com o irmão,
os dois de risca ao lado, lavados, roupa limpa. Mas a instante vida chamava-nos,
a escola estava a começar e o início do ano escolar era, no meu caso, mais uma novidade
absoluta. À medida que se tornava passado, o Amora ia-se libertando de nós ou
nós dele, mudava-se docilmente do coração para a lembrança. A falta era golpe
em processo de cura, deixava de doer. Em dois dias a foto virou elemento de
hábito para que ninguém olhava; permanecia de
atalaia no escuro da camarata, talvez guardando o irmão.
Voltámos
à normalidade de horas de tudo, uma correria de horas que não nos dava descanso
senão o que engendrávamos iludindo os vigias; a cozinheira, militar
restabelecida e mal disposta connosco; o medo de Esparguete se cruzar com Mau agoiro; a frugalidade excessiva que
nos fazia revirar na cama. Contudo, numa noite de luar em que tardava mais a
adormecer, entrevi a dada altura o vulto magro de Lingrinhas a sair da camarata. Atravessou-me um pressentimento e segui-o. Maria
fechava-nos todas as portas à chave excepto a da casa de banho, não podia estar
noutro lado. Na obscuridade do lugar, à luz da lua no janelico, não o vi de
imediato. Mas ali estava, um novelito acocorado no canto escurecido. Chorava.
Sentei-me a seu lado, sentei-o e estendi-lhe as pernas. Permaneci calado, sem
saber o que dizer. Quando se acalmou pediu, não contes a ninguém. Prometi num
aceno. Depois, um atrás do outro entrámos e adormecemos. Não é à toa que se partilham lágrimas, ganhara outro amigo.
Pois não, e também não é à toa que se lê esta prosa sem sentir um nó na garganta, uma grande tristeza, uma lágrima a querer saltar...
ResponderEliminarMas também alegria, porque nasceu ali uma amizade para a vida, ou não, com o tempo tudo passa.
Ou por vezes pensamos que é, e afinal não é: há pessoas que nos enganam tão bem...
Boa noite, bea.
🎄
Quando somos crianças as amizades não têm de ser para a vida, são amizades. O futuro não existe, ou é plano e sem espinhas:), exactamente o que a vida nega. A estas garotos importa ter amigos, não têm família; ou terão, mas é muito igual a não a terem.
ResponderEliminarBoa noite, Maria
Naquela parte de nos enganarem tão bem já estava a pensar nos adultos, não me exprimi bem, pensei mas não escrevi.
ResponderEliminarEm crianças acho que é tudo muito intenso e muito sincero, especialmente se forem crianças carentes.
E gostei que o Contador ganhasse mais um amigo; agora só falta aparecer a menina...
👫
É ainda cedo para ela:). Mas tenho de me lembrar de fazer o contraponto.
EliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarBonito. Muito.
ResponderEliminarOlá, descobri este lugar, acho que vou ficar!