quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Dia DEZANOVE


         O meu Menino do meio é o mais bonito. Tem uma manjedoura de compra revestida a palhinhas verdadeiras e, fora a desgraça do pézito, é lindo. Comprei-o no Porto, provavelmente na Rua de Santa Catarina (ou não), num comércio qualquer que o tinha na montra. Não era uma daquelas casas cheias de santos e que acho um bocadinho assustadoras. A gente passa entre a santidade (até papas lá vi, imaginem) e os santos sussurram, tira-me daqui. Falta-lhes espaço, não podem abrir os braços, coisas assim que lhes criam mau ambiente. Então e o São Sebastião que está doentíssimo, os outros nem conseguem olhar para ele; estou para saber como é que ainda não apanhou um tétano, aquele pobre. Pois eu e o Menino do Porto simpatizámos logo um com o outro, pus-me a acenar-lhe ao vidro feita parola e decidi que havia de ser meu.
A bondade dos objectos é a sua aparente submissão. Portanto,  entrei e comprei-o. Parece-me agradado com o calor alentejano, no que deve ser o único, mas até hoje ainda não descobri onde andou metido o ano inteiro, - Natal a Natal -, que me apareceu mais enfarruscado que um limpa chaminés. Como é sabido, passei-lhe um algodão em rama embebido em álcool puro pelo corpinho pequeno e foi dois em um: desinfecção e limpeza. Pois este Jesus purificado repousa agora sobre a mesinha da entrada e, na sua elegância despida, recebe quem chega. É loiro, airoso, rosadinho. Ainda não lhe fiz o penso, mas urge fazê-lo antes que chegue a outra gente.
Atendendo ao esfalfar de ontem, hoje singrei ao ralenti. Porém, a invernia de chuva gemebunda  que se atira às vidraças em presteza de assombro, a fúria sibilante do vento a intrometer-se e sacudir portas e janelas, a água que escorre rua abaixo em regueiras que se tornam lagos onde os automóveis levantam pequenos geizers gelados, impedem-nos de pôr o nariz em contacto com o ar da rua.  Lá fora, apoiada pela noite, reina a severa natureza. À luz das lâmpadas, atravessadas por riscos de chuva, ruas e árvores brilham em manto de água que escorre e alimenta a minha preclara moleza. 

14 comentários:

  1. Quase já lhe perdoei a árvore de Natal 🌲 de plástico, porque comprou um menino Jesus portuense‼

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    1. Não era meu intuito, Teresa. Fui seduzida por ele:).

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    2. Mas quem não se deixa seduzir pelos portuenses, sejam eles ou não Jesus?!

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    3. muita gente; diria mesmo que quase todo o mundo. A sedução das pessoas não lhes vem do lugar de origem senão em parte. Mas é verdade que nos amigos amo o lugar a que pertencem, o Oeste, a Beira Interior... e o Porto é cidade com agradável respiração de província.
      Bom dia, Teresa.

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  2. Se entendermos que o presépio é um Jesus na manjedoura, dois anjos pequeninos mas lindos de morrer e uma ovelha grandiosa, está sim. E já há um tempinho.
    Boas Festas, Cidália. Um abracinho. E parabéns pela neta crescida.

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    1. Não consigo imaginar um presépio sem Maria e José, ou seja, uma criança sem pais.
      Ao menos uma Maria [;)] pois para haver um nascimento tem que haver um mãe, ou não?
      Parece-me que a bea apenas celebra a chegada do Menino Jesus (e tudo bem, nada contra) mas não se pode dizer que seja um presépio, penso eu de que :)
      Resumindo: tem um Jesus à entrada para receber as visitas, outro à porta do quarto para velar pelo seu sono, e um terceiro no berço, guardado pela babysitter ovelha enquanto os pais foram à missa do galo, talvez...
      Tudo bem, Natal é sempre que um homem quiser e como ele quiser...

      Feliz Natal, bea.
      🎄

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  3. Fico satisfeito por ver que a chuva já chegou ao Alentejo, porque me parecia haver uma linha fronteira no Tejo que o S.Pedro respeitava. As barragens a sul agradecem.
    Eu é que já estou farto deste tempo, desta "invernia de chuva gemebunda" :) com o brufen e o zyrtec a fazerem companhia às chaves na algibeira. E o inverno ainda não chegou...
    Ah,ah... então a Bea não sabe que em qualquer loja de porcelana não se pode abrir os braços? Lá por ser santo e estar na rua da congénere não escapa à regra :)
    Presépio à parte, porcelana para mim só à mesa. Abomino cãezinhos, gatos, bibelots e especialmente animais de cerâmica para jardim. Gostos!
    Uma última palavra para o meu comentário anterior sobre a morte de Patxi Andión; como a música do cantor, a sua resposta também me entrou na alma - a Bea em tudo o que toca transforma em ouro!
    O seu singrar ao ralenti de Dezembro, não lhe retira, pois, qualidades literárias, imagino se rumasse a todo o vapor :)

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  4. A água chegou ao Alentejo, sim. Mas estamos ainda muito longe de acontecer o que sucede com as barragens do Douro que estão a abarrotar de água. Por aqui, por muito que não gostemos, precisamos mais água. Do que prescindimos é do vento. Mas está previsto para as dezasseis e dezassete. E que não seja muito forte. Nem aqui nem em outros lugares que já existem estragos suficientes por este país fora.
    Eu sei bem que isso de abrir os braços não se pode, as lojas de porcelana são um martírio até para quem as visita quanto mais para os pobres dos santos:). O meu menino Jesus é de porcelana e é lindo. E não é um prato nem uma chávena, é ele. Também não aprecio essas bugigangas em porcelana, mas já me deram umas tantas, conservo-as por amizade a quem mas deu quando não são feias em demasia.
    Dou o meu toque palavroso às coisas. Como o Joaquim dá o seu, e outros o fazem. Mas não transformo, só arranjo do jeito que sinto. E é isto bastante vulgar.
    Boa tarde, Joaquim.

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    1. Homessa, vulgar era a minha prima... e casou-se!
      Estamos em outro campo Bea, deixe-se disso que humildade a mais é soberba :)
      Faminta de perfeição, o que a Bea consegue com o seu cunho literário muito próprio, e que eu vai para trezentos e sessenta e cinco dias admiro, é transformar a harmonia de um trivial comentário na inexplicável magia do maravilhoso.

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    2. ...e na noite de Natal as estrelas vão chegar mais perto só para a ler!

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    3. Joaquim, obrigada por escrever:). Mesmo. Soberba, acho que não tenho; se tiver, há-de ser pouca que não dou por ela.
      Na noite de Natal raramente tenho tempo para olhar as estrelas:).

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  5. "A bondade dos objectos é a sua aparente submissão", esta frase deu-me que pensar mais do que tudo o resto. Quando era pequena os objectos faziam-me confusão pela sua falta de vida e achava que tinham uma vida interna que me era inacessível, imaginava-os a conversar quando eu dormia. Mas toda minha vida é um despojar de objectos, coisas que foram ficando para trás, a casa é pequenina e por isso não posso nem quero acumular. Sobram alguns, mas a poucos tenho amor, não osbtante adorar caixas e caixinhas.
    ~CC~

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  6. talvez eu ainda seja pequena, estou sempre a imaginar conversas entre objectos ou deles com as pessoas. Não tenho particular apreço por um tipo de objectos. Mas gosto demais de alguns, porque mos ofereceram pessoas que em algum momento foram minhas amigas, suponho que seja a forma de as ter próximas ou de as lembrar. As caixas só utilizo para guardar coisas.
    Boa noite, CC

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