quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Carrossel


Nas longas noites desse verão, Esparguete desfiou episódios pícaros e outros menos alegres, como o de mãozinha. A poder de histórias e acontecimentos ordinários, elucidava a vida do Lar, fazendo-a mais próxima do garoto estrangeiro que eu era. Mas, se eu gostava de o ouvir e me interessava o quotidiano da nova casa, ele rendia-se ao meu mundo. A vida no Bairro da Venezuela foi espiolhada, medida, contada e recontada. E, por mais que ilustrasse a miséria comum, tudo entendia como conto de fadas. Memorizava os caminhos dos ninhos e o nome dos pássaros, o lugar da cerejeira de primaveras floridas, a altura imensíssima da barreira onde reuníamos. Sabia a espessura flexível das lianas e o grosso tendinoso das árvores que as produziam, e não esquecia os pássaros que as habitavam. Perguntava seguro da resposta, eram pardais, não eram.  Falava com desenvoltura de grilos cantores, machos que guardávamos em caixas de fósforos atapetadas de alface e furadas na parte superior, as asas numa refrega cantando noite fora; dos ouriços espinhudos e lentos, atravessando veredas com patinhas minúsculas e a rasar a terra; criaturas tímidas, um só lado de carne rosada que víamos se os voltávamos com um pau e que inteiros se recolhiam e fechavam, o susto em bola de picos; das lengalengas em tom de rapper que usávamos para apurar quem ficava a contar no jogo das escondidas, “hidrovião da escola militar diga lá minha menina em que terra quer poisar”  ou a sua preferida, que a outra era coisa de raparigas e ele nem sabia como é que nós a aceitávamos no Bairro, “ita não ita, ita não há, quem está livre, livre está”. Acordava-me de noite a perguntar, as camarinhas sabem a quê. Ou inclinava-se a sacudir-me ombro e sonhos que arvoravam por ali fora sem volta, e ele, olhos de cobiça esfomeada, os bolos de casamento eram muito grandes, quantos é que tu comias de uma vez. E eu estremunhado, a alinhar ideias, não sei, não me lembro. E depois de acordado, numa saudade doce toda feita de papilas gustativas e restos de fome, devia comer uns dois ou três. Enfiava-se na cama como quem descansa de preocupação séria e, alimentado na minha memória, sussurrava,  bem me parecia. E adormecia.

5 comentários:

  1. E enquanto a história continua, trago-lhe outra. E esta veio-me a propósito da sua resposta de ontem sobre a irreverência jovem, feita de uma confiança inaudita em que tudo corre bem. Como as ideias se encadeiam...

    Pedro e Paula tinham um relacionamento estável de dois anos. Há cerca de três meses, Pedro começou a sentir a relação a esfriar. Ao princípio não ligou, mas para o fim reparou que Paula estava realmente diferente. Falaram, e ela garantiu-lhe que não sabia o que tinha, mas assegurou-lhe que não havia outro. De comum acordo decidiram afastar-se por uns tempos e Pedro foi mesmo viver para outra cidade, deixando tudo em suspenso.
    Hoje pediu-me para escrever a seguinte carta:
    «Minha querida Paula, três longos meses sem notícias tuas. Por tua parte, deves estar zangadíssima devido ao meu persistente e imerecido silêncio. Sinto na verdade vergonha pela minha preguiça. Ignoro que estúpida inibição me impedia de escrever, tornando-me, ao mesmo tempo, incapaz de analisá-la ou sequer reagir contra ela. Era como uma porta que não se queria abrir. O facto era tanto mais estranho quanto é verdade que te encontravas sempre presente no meu espírito, partilhando de todos os meus pensamentos. Será que amo o teu pensamento acima do próprio amor que dedico à tua presença física? Ou seria por considerar as palavras mísera consolação para a distância que nos separa? Não sei. Sei que finalmente recobrei o uso da palavra, e aqui estou para te enviar um beijo. Deste que te ama, Pedro».
    Dei-lhe a carta, leu-a, releu-a, e com dificuldade fez a assinatura com a sua mão esquerda - a única que lhe resta depois do acidente. Depois fechou o envelope e guardou-a.

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  2. :))) eu gosto das suas micro histórias ao fim do dia. Como já alguém lhe disse, podia escrevê-las num blogue.

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  3. Quantos jovens não passaram por essa situação de ter que experimentar sabores pela descrição de terceiros!!
    Bfds

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  4. Suponho que tenha acontecido à maioria dos velhos de hoje:). O mau não é experimentar sabores por descrição de outrém, o mau é ter fome, ser subalimentado.
    BFS, Pedro

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  5. Uma verdadeira estrada de dois sentidos, uma troca de informção sedutora para os dois interlocutores. Suspeito que daí nascerá sólida amizade.

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