segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Carrossel


Desde que Esparguete nos fez companheiros de mesa e partilhámos a mesma carteira na sala de estudo, arvorou em meu protector e deu-se a manobras tais que ocupámos camas lado a lado e ficávamos que tempos a cochichar. Grata, a minha orfandade acoitou-se à sua guarda como se ele pessoa de força e nobre inteligência, e não criança da mesma idade. Orgulhoso do papel, Esparguete acusava a supremacia respondendo por mim à curiosidade dos mais pequenos enquanto me desviava da crueldade dos crescidos, manápulas sempre prontas a empurrar, socar ou puxar-nos pelos cabelos, usando-nos para recados e trabalhos que Maria lhes destinara. Se as tarefas saíam mal ou ficavam incompletas, os maiores não perdoavam e zurziam-nos a sério, ameaçando sova maior se contássemos a Maria ou Octávio. Os crescidos reinavam despóticos sobre todos os grupos e eram ferverosamente temidos. Contra eles, Esparguete ensinou-me a vassalagem fictícia, sorrisos fingidos, satisfação de favores não pedidos e distância se os topávamos mal dispostos. Esta capa de panaceia livrava-nos de puxões de cabelos seguidos de invectivas e ordens para tarefas que a nossa idade não permitia. O mãozinha era bom exemplo. Aos quatro anos foi indigitado por um crescido para aspirar a sala da costura, chão crivado de  linhas e trapitos, réstias de tecido desenhado ou liso, um botão caído, a ponta de uma camisola a bordejar o chão no molho de roupa cosida e pronta e em que não podia tocar. Antes de as arrumar ou pôr a uso,  Maria gostava de inspeccionar as peças uma a uma. Quando deu o trabalho ao Ferrugento recomendou, o chão bem limpo, quero tudo bem aspirado. E indo à sua vida ocupada, cuidado que a máquina é cara. 
Depois de um dia de agulha, dedal e tesoura sem parança, o  chão parecia sala de baile no fim dos festejos de carnaval. E o Ferrugento, assim chamado pela resmunguice constante, o primeiro dos pequenos que passe, e é ele, eu é que não faço este trabalho de mulher. O mãozinha, que nesse tempo ainda se chamava Zézito, teve azar, passou. E o outro logo a segurá-lo pelos cabelos até ao aspirador sem fazer caso aos olhos redondos de medo e dor, tu gostas de guiar, pois tens aqui a máquina, é só guiares que ela apanha-te tudo do chão. Depois de ligada, não pesa, vais ver que és capaz. E se não, dou-te uma pisa de verdasca. Já sabes, sentenciou. E foi embora.

12 comentários:

  1. Hoje, em vez de vir para aqui contar-lhe histórias, vou fazer o que há muito tenho negligenciado - a análise crítica dos seus textos.
    No Carrossel, o enredo entre cada uma das pequenas histórias cozidas num todo, segue a sua necessidade absoluta de crítica social e da condição do homem (o seu campo de sangue), na forma dura e crua como algumas relações são descritas e moldadas, mas ao mesmo tempo com a suavidade e delicadeza da sua exposição, com cada lugar e evento a trabalharem para um sentido muito concreto e coerente.
    Desengane-se porém, quem espera da leitura do seu texto, o relato minucioso de um jogo de futebol ou de uma fórmula matemática, antes encontrará um ato de adivinhação pela leitura das entranhas dos que não têm voz, dos desafortunados da vida. Tudo no seu devido lugar, no modo e no tempo e com a marca da sua poesia - qual mavioso violino tocado por mãos virtuosas.
    Parece nunca haver pressa para o desenrolar da acção ou para dar conta de um personagem, das suas relações ou daquilo que o afecta, como se a vida corresse a um tempo diferente do nosso e a velocidade a que nos fomos acostumando que tudo gire (ignorando as nossas angústias e o desejo sôfrego e premente de lhe conhecer o fim).
    Para isto contribui imenso o constante apelo ao passado e, arrisco-me a dizer, o ritmo muito próprio do lugar que habitam (no interior do país, provavelmente no Alentejo) tanto criatura como a sua criadora.
    Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo - deliciemo-nos então.

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    1. Eu não acho que mereça um comentário tão bonito, Joaquim. Mesmo. Mas mentiria se dissesse que não me agradou intensamente. O seu comentário é um bocadinho como seria o comentário de uma mãe, é de gostar e gostar e gostar. Coisas ditas assim são um abraço, não são uma crítica.
      É mesmo, tudo se passa no desconcerto deste Alentejo desencantado que tanto me encanta:). Cada um de nós é assim com a sua terra, pegado, unido como carne e pele.
      Boa noite e obrigada

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  2. Bela história. Penso que ainda não terminou. Vou continuar a estar atento
    .
    Cumprimentos

    Votos de uma semana feliz

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  3. Pois, era para ser uma história curta, mas parece que não:). Também estou ligeiramente curiosa, de vez em quando dá umas guinadas imprevistas.
    Boa noite e boa semana

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  4. Parece que o Zézito teve mesmo azar, quer-me parecer que foi esse aspirador que o fez mudar de nome...
    Boa noite, bea.

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  5. Estava a ler e sabe ao que estava a associar?
    Ao filme Aniki Bobó.

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  6. e não é um óptimo filme, Pedro?
    Bom dia

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  7. Mais um "capítulo" com momentos onde o infantil ocupa o nosso imaginário!
    Bj

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  8. Há nesta narrativa uma crueldade latente que me incomoda, de tão real. Parte_se-me o coração face ao sofrimento dos miúdos. Oh! mundo horrendo que assim trata as crianças.

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