Eu
queria dar-te a flor que nasce nos cumes azuis das altas montanhas. E sou rasa,
plana e densa como mó de moinho. Queria erguer para ti uma catedral burilada e
rútila, mas o desastre das minhas mãos enfermas não suscita beleza. Queria ser
tapete de passos teus e sou desencontro e pó de estrada. Mas, quem sabe, um dia
te debruças rente à terra, ao rés do pó. E então nos acharemos, filhos pródigos
de excelso acaso.
A nós deu um belíssimo escrito.
ResponderEliminarBem haja por isso.
:).
ResponderEliminarBom Dia!
Que bom ler um texto assim tão belo logo pela manhã.
ResponderEliminarQuarta feliz, Dulcíssima Bea!
🍃🌹🍃
Obrigada, Maria:). Olhe que está a roubar o adjectivo ao senhor de Andrada e não sei não o que lhe pode acontecer. Talvez um duelo à espada:).
EliminarBom Dia.
Touchée. Do que se foi lembrar :)
EliminarMas o senhor de Andrada, inteligente como é, decerto compreenderá (se por aqui passar) que este meu Dulcíssima não pretende imitar o seu (dele) dulcíssima Orchidée; jamais me atreveria...
E seria sempre um duelo perdido para mim :( com a espada ou com a pluma azul.
Beijinho, Bea Maria Cardoso 😄
⚘
Afeiçoei-me ao nome. Dulce. O nome da minha primeira namorada, já lá vão mais de quarenta anos. Com o aparecimento do facebook, encontrei-a mas não ficámos "amigos", não lhe pedi amizade, limito-me a um "voyeurismo" inofensivo, sem deixar pegada - não sabe que existo (penso eu).
ResponderEliminarE assim, sei que tem dois filhos, de pais diferentes, que se divorciou, que perdeu a mãe, a cidade onde vive, a carreira profissional, fotos de férias - tudo à distância indelével de um clique.
Porque a sigo, embora de forma impontual, e não conto a ninguém? Porque gostamos de "ver" (bisbilhotar) a vida dos outros? Porque nos seguimos uns aos outros, sem deixar rasto?
Tem a certeza que só se afeiçoou ao nome? Veja isso, Joaquim.
EliminarBom, não conta a ninguém é como quem diz...então e nós que o lemos? somos alguém (mas não contamos nada à Dulce, palavra de escuteiro).
Não sei responder às suas questões, a bisbilhotice desinteressa-me, penso que num grupo tenho tendência para andar atrás, mas não me vejo a bisbilhotar pessoas assim só para saber coisas e nem tenho conta no FB. O que eu gosto mesmo é que me contem histórias. E olhe, ontem à noite e hoje de manhã a vida fez-me a vontade. E também avalio que quem contou ficou contente e até aliviado por contar. Ouvir uma história não é só ficar a sabê-la, é também dar atenção a quem conta, um tempo de ser e se mostrar o contador.
Poesia pura. Abraço!
ResponderEliminarNão sei não, Alda. Em poesia sou temerosa.
EliminarLindo de se ler Bea!
ResponderEliminarBj
Obrigada, Gracinha.
ResponderEliminarDecidi-me a contactar com Dulce; primeiro via facebook, depois trocando números de telemóveis. Disse-lhe que gostava de a voltar a ver, ao que ela retorquiu:
ResponderEliminar- Para quê, ao fim de tantos anos?
Insisti e marcámos encontro para ontem, na grande catedral.
Ela esperava-me de pé no alto da grande escadaria exterior e observava como uma sentinela os degraus que se abriam a seus pés. Tive a impressão de que o tom da voz, quando pronunciou o meu nome pela primeira vez, se fizera deliberadamente chato e sem timbre, traindo qualquer estranha atitude de espírito que talvez tivesse imposto a si própria. Ou possivelmente não tinha a certeza de ser eu, tentando desenterrar-me das trevas como uma lembrança obstinada e perturbadora que se tivesse esquivado. Mas o som daquela voz familiar foi como quebrar um selo.
Parecia muito mais magra. Aproximou-se um passo e, depois de mergulhar ansiosamente os seus olhos nos meus, pousou os lábios num beijo gelado e breve sobre a minha face direita. Aquilo era frio como um obituário, seco como um pergaminho. Algo na impassibilidade da sua atitude sugeria uma íntima intranquilidade.
- Não olhes para os meus olhos - disse ela num tom cortante e imperioso.
Reparei então que a pálpebra esquerda descaía ligeiramente, ameaçando transformar a sua expressão numa piscadela, e mais particularmente o sorriso de boas-vindas que estava tentando compor nesse momento.
- Compreendes?
Acenei que sim.
- Sofri um ligeiro ataque - acrescentou a meia voz.
Tomei-lhe a mão e ficámos assim por um longo momento, de olhos nos olhos.
- Mudei muito?
- Nada.
- Claro que mudei. Todos nós mudámos.
Há reencontros penosos. E mentiras piedosas. O seu imaginário é superabundante, Joaquim.
ResponderEliminarMuitos parabéns cara Sherlock Bea Holmes, não a consigo enganar. Contudo, a Dulce existiu mesmo na minha vida e foi a minha primeira namorada... o resto é ficção! Boa noite.
ResponderEliminarTantos intransponíveis "mas" quas enos derrotam. Afinal, no final, os "mas" acabam vencidos. Gosto de histórias com final feliz.
ResponderEliminarTambém gosto. Já basta a realidade para contrariar.
ResponderEliminarOh, mas essas mãos (nada enfermas) "teclaram" só beleza. :)
ResponderEliminarpor acaso estive agora a reler e não está mau de todo.Há momentos assim, redondos.
Eliminar"A flor que nasce nos cumes azuis das montanhas", são esses os presentes inesquecíveis.
ResponderEliminar~CC~
:)). Não sei que flor seja, mas ouvi falar dela e da sua rara beleza. Parece que no livro Ulisses de James Joyce há referências. Mas nem aí a encontrei:), ainda não reuni coragem para prosseguir além das cinquenta a setenta páginas iniciais onde a flor não há.
ResponderEliminarBoa noite, CC.