Depois
vieram o mãozinha, a quem a curiosidade
e um choque eléctrico tinham encarquilhado e cristalizado a mão direita em tamanho bebé; o engenhocas, electricista amador que resolvia os pequenos problemas
caseiros; o gaitinhas que se comprazia a lembrar um avô
tocador de gaita de beiços; o anão que tinha treze anos e era invulgarmente
baixo; o feloso, um aranhiço magricela e amarelento que penava os invernos com
um silvo de máquina a escapar-se do peito. E outros.
No
seu insólito, cada um dos meus camaradas se encontrava mais apetrechado que eu.
A vida desentranhara neles o desenrascanço e a manha. Tinham aperfeiçoado a
pequena e admirável desfaçatez da sobrevivência que eu ainda desconhecia.
Poucos conheciam pai ou mãe e não havia lugar onde alguém os esperasse. Juntos
no mesmo barco. Tu não, tu eras a menina dos olhos de pai e mãe, tinhas quarto
só teu, vivias num andar aquecido, tua mãe fazia-te mimos, dava-te pequenas prendas,
ensinou-te a patinar no gelo. Mas o meu mundo e o deles corria naquela casa abandonada
às soalheiras campestres e asperezas das invernias, e o gelo, para nós, era
tomento sem patins. Maria era o gerador da casa. O marido, quase sempre de
sacho ou enxada, só era visto à noite quando, macambúzio, se sentava connosco
para jantar e, no inverno, se o gelo ou a chuva se apossavam do campo. Nesses
dias de modorra cinzenta, dedicava-se a arranjos de camas e cadeiras desasadas
e outros consertos. Certa vez o anão, que era o mais baixo mas também o mais
sabido, confidenciou que o paz de alma, alcunha que lhe imbuía pela emergente mansidão,
era um atleta na cama. No bairro da Venezuela o atletismo de cama não me tinha
sido mencionado. Vivíamos de ninhos e lianas, constantes descobertas de mundo
físico e certo desdém por raparigas sempre com os mais novos ao colo,
atezanadas por tanques de roupa e sem direito a participar nas brincadeiras.
Decerto a confusão me veio ao semblante que logo o anão acrescentou, nunca
foste à casa de banho durante a noite e ouviste gemer, a cama até parece que
não se aguenta ao balanço. Recordei aquela noite em que uma dor de barriga me
fizera atravessar o corredor no escuro – durante a noite a luz ficava sempre
desligada - e, lá ao fundo, os gemidos me tinham assustado de morte, quem sabe uma
alma penada que me agarraria por um braço, um fantasma que me levasse no branco
do lençol. E a minha pergunta no dia seguinte, Maria, há fantasmas nesta casa.
O riso e a negação. E eu, mas fui à casa de banho e ouvi barulhos e parecia uma
pessoa a queixar-se, doente ou assim. Os seus olhos em súbita confusão. Mas a resposta
pronta, era o cão no quintal, em certas noites uiva e fica assim, desassossega
e dá em gemer. E a arrumar assunto, não penses mais nisso, não há aqui fantasmas nem almas
penadas.
Feloso, não sei o que seja, nem o priberan. Algum termo do Cadaval. Mas pelo que se seguiu, deduz-se (que também é para isso que existimos).
ResponderEliminarE finalmente hoje fiquei a conhece-la. Vi-a. E foi assim:
"(...) Na verdade não sou pormenorizada a vestir. Se pudesse, era saia/calças e blusa. Ou, preferencialmente, um vestido. E sapatos, claro. Mas não me lembro de condizer, até por enfiar o que calha e já me calhou algumas vezes desemparceirar e não dar por isso.
Mas atenção, gosto um imenso de ver os meus opostos. Até os invejo:))"
"Também acho as malas bonitas, gosto de as ver na mão ou ao ombro de alguém que não seja eu. Admiro gente estilosa e de bom gosto. Não tenho uma única mala além das mochilas que já são quatro ou cinco ainda que me cinja a duas. Dou mais uso a botas; prefiro-as simples, sem magoar e razoavelmente baixas. Se tenho algum fascínio deve ser por gorros, bonés, boinas e até pequenos chapéus. Enfio qualquer barrete."
Joaquim:)))), então feloso é um termo do Cadaval. Pois desconhecia tal coisa. Não sou do Cadaval (mais um dado) e também me chamavam felosa (outro).
EliminarPode crer que me viu, sou essa mesma.
Olá Joaquim, na Infopédia diz que felosa é uma mulher fraca e muito magra (origem popular); assim sendo, feloso vai bem com aranhiço magricela e amarelento.
ResponderEliminarBoa investigação!
Ficamos todos à espera (eu fico!) do retrato robot da bea :))
Dia feliz.
⚘
Obrigado Maria pela indicação. No idicionário de português online (populu.net) vem como um termo do Cadaval que significa coisa reles, sem valor, que me levou a duvidar.
EliminarQuanto ao retrato robot da Bea, é de difícil elaboração, porque no mundo das redes sociais, a relação virtual que se estabelece, faz-me lembrar um baile de máscaras à maneira veneziana, onde cada um se apresenta vestido com dominó.
No baile de máscaras, o anonimato é absoluto, conferido pelo sombrio disfarce de veludo preto que esconde a identidade e o sexo, evitando que se distinga o homem da mulher, a amante da esposa, o amigo do inimigo.
O dominó dá-lhes uma lúgubre uniformidade de silhueta, sem revelar nada, nem origem, nem mesmo a expressão do rosto, porque a máscara desse hábito só descobre dois olhos.
Nenhum traço identificador, nem mesmo o contorno do corpo se desvenda. Seios, coxas, faces, tudo desaparece. Perante isto, só resta o que o próprio se revela.
Dia feliz também para si.
Joaquim, talvez seja por isso que o Carnaval não me diz nada, não aprecio máscaras nem disfarces (nem a sofisticação de Veneza nem a vulgaridade de outros - excepção para os Caretos, que acho giríssimos); gosto de gente que mostra a cara :)
Eliminar🍁🍁
Humm, o textito até nem está mau, lê-se...
ResponderEliminarÉ mentira! Está um primor, até com dose q.b. de pimenta e humor ;)
Quero lá saber que a bea não goste de elogios... e eu não gosto de dizer mentiras :)
Há aqui uma coisa que me anda a intrigar, mas só mais logo poderei investigar; terei que ler os capítulos anteriores.
Dia feliz.
⚘
Intrigou com a presença da memória que é feminina e que vem ao autor da prosa assim meio a medo... pois é, entrou tarde. Mas vai continuar, assim eu e ele não a esqueçamos.
EliminarPois nem sabia que felosa constava do dicionário escrito. Do meu dicionário oral consta.
É isso mesmo, bea, já me vai conhecendo :) e não deu para perceber a quem ele se estava a dirigir.
EliminarAguardemos, pois.
Boa tarde.
🍁🍁
Malandreco e atrevidote.
ResponderEliminarUma delícia.
Sabe, Pedro, tenho ideia de que não há no anão a malandrice pejorativa, é mais uma constatação ligeiramente estupefacta pelo inesperado. Na gente do povo há certa naturalidade em relação ao sexo, é coisa como outra qualquer e, uma vez conhecido, aceita-se e avante. Fico contente que tenha agradado este bocadinho.
ResponderEliminarBom dia.
E pelo vistos eu perdi_me na história mas vale pela beleza de mais um texto maravilhoso!!!
ResponderEliminarBj
Não interessa nada, Gracinha. Perder-se uma pessoa numa história tão aos bocadinhos é normalíssimo. Se eu a encontrar, devolvo-a:). Palavra de escuteiro.
ResponderEliminarBea, gostei paricularmente do modo como descreveu a evolução desses miúdos em quem se desnevolveu a manha e o desenrascanço como ferramentas de sobrevivência. Inevitável, não é?
ResponderEliminarpois é Nina, o desenrascanso português tem motivos.
ResponderEliminarBoa noite:)