sábado, 19 de outubro de 2019

Carrossel


Maria chegou açodada, dedos engelhados em mãos  vermelhas. E despediu as ajudantes, vão até à cozinha e bebam um chazinho. Depois, encostou a porta, puxou um dos assentos vazios e aproximou-se de nós. Fixou na prima os olhos de balança e, ajeitando uma mecha de cabelo desavinda suspirou, a senhora sabe, isto está tudo no começo e falta muita coisa, mas quando a igreja me disse que o rapaz estava sozinho, que havia de fazer senão aceitá-lo. Sem fazer caso ao agradecimento murmurado de Eugénia prosseguiu, veja a senhora, a religião é nova, os fiéis ainda são poucos e o Estado não  comparticipa; é a nossa igreja que paga o lar. E a animar-me, estão cá dois ou três garotos da tua idade. Abriu a porta e, a despachar conversa e matar embaraços sugeriu, o melhor é despedirem-se e ires bater naquela porta a meio do corredor da direita. 
Espequei em frente das duas sem coragem para o irredutível. Talvez tristeza ou receio se plasmassem no rosto. A prima, abreviando despedidas e afectos que não havia, fez um gesto de incentivo em direcção à porta, a verruga a doer-se mole, alinhada com a evitação dos olhos. E como eu preso ao chão, Maria agarrou-me pelo ombro e empurrou corredor fora a minha resistência de máquina perra a desacertar na correnteza dos passos.  O breve estalido do trinco despoletou do outro lado uma pressa de cadeiras arrastadas. Mas, aberta a porta, a sala silenciosa, seis ou sete rapazitos imóveis, sentados em carteiras escolares, cabeça nos livros.  Maria arqueou os cantos da boca num quase sorriso que pronto desmanchou, colocou-me bem na sua frente e, mãos a segurar-me os ombros largou o aviso, temos mais um companheiro. Um de vocês tem de repartir carteira e mesa com ele, não há mais mobília. Entreolharam-se. Ela a impacientar, então... se ninguém se oferece, escolho eu. Foi quando o garoto que nos abrira a porta se levantou, eu posso ficar com ele. Maria passou-me imediatamente àquele fiozinho de gente recomendando, orienta-o. E largou porta fora, vou ver se arrumo a papelada e despacho a senhora, os tempos não estão para apaparicar madamas.
Mal a porta se fechou, os olhares convergiram em mim e ouvi uma espécie de zoada em surdina. Mas, quando enfim os passos deixaram de se ouvir e a porta da saleta bateu, as carteiras pareceram ter molas. Os garotos precipitaram até nós num encapelado novelo de perguntas, umas sobrevoando outras. O meu protector pôs ordem nos colegas, deixem-no em paz, agora o que interessa é contar-lhe a vida aqui e dizermos os nossos nomes. E para mim, certo ar de importância, todos temos alcunhas. Chamo-me Alberto, mas tratam-me por esparguete. E é claro que esparguete me pareceu um nome perfeito.

18 comentários:

  1. Também me parece um nome perfeito... :))

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  2. Aos 22 anos fui trabalhar para uma vila do Ribatejo, aboletando-me num quarto arrendado na casa da D.Eugénia.
    Tinha a idosa e querida senhora um outro hóspede, jovem noivo, desterrado como eu, testemunha de Jeová, e que se iria casar dentro de poucos meses com uma moça da terra que nos acolheu. Durante esse tempo mantivemos uma franca e aprazível convivência. Começou, como todas, com o bom dia, boa tarde, mas rapidamente evoluiu, desde religião, a assuntos profissionais e até confidências.
    Um dia diz-me, Sabes Joaquim, estou desejoso de me casar. A vida de solteiro não me deixa grandes saudades. Excepto numa coisa. Então o que é, perguntei curioso.
    Olha, nem sei se me fica bem dizer, mas, sabes... (e aí escondeu um sorriso maroto), são os bailes de domingo à tarde!
    Então, disse eu, mas vais poder continuar a ir com a tua futura mulher.
    Pois é, mas não vai ser a mesma coisa...

    Quanto ao mais importante (o seu post) desejo que a história acabe depressa, não pela extensão, mas pelo suspense em que nos deixa em saber como as 'instituições' deste país educaram e formaram tão bem um desafortunado da vida.

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    1. pois como sabe o Joaquim que o garoto vai ficar assim tão bem formado, ou que vai passar o tempo em instituições. Julgo que o carrossel não tem fim, vai prolongar-se indefinido, aos altos e baixos, sempre no mesmo lugar, como diversão que se preza. Vocês vão fartar-se todos e abandonam à vez, mas eu continuo a teclar a despeito de artroses de dedos e mente; às tantas esqueço as personagens iniciais e dou-lhes outros nomes, mas como já não tenho leitores, continua tudo bem na mesma.
      Bom Domingo, Joaquim

      Quanto à sua história, tinha razão o rapaz, nunca mais é a mesma coisa. Para o ser teria de continuar tal qual. Mas há quem garanta que, sendo diferente, é melhor. Até porque ele ainda não o sabia, mas os bailes e outros gostos vão perdendo interesse. Tudo tem a sua época. Como bem sabe.

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    2. Take your time, bea.
      Por mim, pode ser uma neverending story... humm e isso de ir mudando o nome às personagens fez-me lembrar a Agustina :))

      Feliz acordar!
      🌲

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  3. Se o Alberto era um fiozinho de gente, a alcunha esparguete assenta-lhe que nem uma luva.
    Boa noite, bea :)
    🍁🍁

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  4. Que leitora atenta, Maria. Obrigada pelas folhitas outonais.
    Bom Domingo

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  5. Há tempos que aqui não vinha.
    Gosto da sua forma de escrever e das suas histórias!

    Continuação de bom domingo:))

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  6. Já lhe disse que gosto da sua forma de narrar? Interpela-nos. Faz-nos pensar. E é muito bem escrita…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  7. Disse:). Mas nunca sei se é verdade inteira ou só pela metade. Peço desculpa, Graça, resguardo-me um bocadinho de elogios vindos por este meio. Já li poemas e textos que são desabafos sentidos, mas não são bons poemas nem bons textos e os comentários firmam admiráveis, incomparáveis, extraordinários inexcedíveis. Vale o que vale.
    Contudo, creio que o incentivo pela positiva é sempre agradável. Faz bem ao ego:). E é verdade que tenho sempre a esperança de tocar quem lê.
    Obrigada. E boa semana também para si.

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  8. Deliciosa a sua narrativa, querida Bea. Sem conhecer Alberto, aprovo de imediato o cognome. Esparguete longilíneo, por um lado, espigadote, propenso a líder.Por outro suculentop prato de comida que sacia as imensas fomes juvenis.
    Encontro-me presa. Suspensa das suas palavras.
    Boa semana, Bea.

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  9. ah, ah, ah....Nina:)))). Está brincando comigo?!
    Pois sempre lhe digo que aos nossos garotos bem agradariam esses suculentos pratos de esparguete.
    Hoje foi um dia muito cheio, não deu para tocar na história.
    Boa semana, Nina.

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