O
meu treino na amizade começou no desamparo daquela casa grande plantada a meio do campo. Éramos para cima de quinze rapazes de idades
variáveis, talvez entre os três ou quatro anos, e os quinze a dezasseis. De
trouxa na mão e coração apertado, mergulhado em desorientação temerosa de novidade, nada apercebi. A prima tocou um sininho na
entrada e esperámos. Para além do desconcerto, fiquei vivamente interessado no
sino. Depois de uns momentos em que mirámos o sossego do taxista refastelado no dever cumprido e o assomo de irrequieta bisbilhotice num garoto ou outro delatado por perrice de janela, um sussurro de passos ligou-nos à porta que entreabriu. Na soleira, um miúdo franzino, mais ou menos da minha
idade, olhou-me com interesse e afastou-se a dar passagem. Não sei porquê, aliviou-me vê-lo. E sem remorso disse adeus ao sino.
A
prima debitou umas palavras ininteligíveis e ele apontou um corredor
comprido e desapareceu em corrida como se algo urgente em espera, uma torneira
aberta ou assim. Pensei se seria mudo. Eugénia olhou-me sem expressão e atacou
o corredor. Segui no encalço assombrado da minha parente de empréstimo que
arregalava e fazia ruguinhas de gordura a corredores sebentos e despidos. Oscilava desventuras nos sapatos de salto e, à medida que em sofrimento de passinhos indecisos espreitava salas a um lado e a outro, ia abanando a cabeça contrafeita.
Por mim, fiquei impressionado com as
mesas do refeitório. Habituado a
canastros e caixotes em cubículos mal iluminados e de função múltipla, pasmava
àquela sala de tamanho inusitado, ocupada por mesas e cadeiras. Ao invés, a prima
imobilizava em observação e ia resmungando entrecortada, olhem para isto, nem
toalhas têm, as mesas com restos, bancos e cadeiras desirmanadas, tudo tão velho.
E eu atrás dela, o velório de tia Emília a espreitar-me das cadeiras sem pedegree e a tristeza uma água a sumir no desalinho de descaradas cabeças que nos espreitavam. Entretanto, passámos a camarata, uma extensão de camas sem colcha, deserta de tudo.
Finalmente,
depois de uma cozinha toda tachos, panelas e frigideiras, mais uma data de
utilidades dependuradas em grade que a prima desdenhou, encontrámos a responsável
do lar. Parecia uma mulher da aldeia, facto que me retirou um oceano de
medo. De costas para nós, devorada pelo calor, botas de borracha enfiadas, debruçava sobre o tanque o avental impermeável. Afadigava-se a esfregar à escova roupas
encardidas, prováveis vestes dos meus companheiros, facto que na altura não
interpretei. Atordoado, avancei e
encharquei pés e canelas. Confrangido, parei o olhar na Gena. E já ela erguera as banhas periclitantes sobre tijolo providencial,
um mar de gordura cinzenta a debruar-lhe as solas. Em redor, no lago onde
mergulhara as minhas extremidades, boiando na crosta escurecida, uma ou outra
peça de roupa indistinta, excrescências da laranjeira próxima, folhas envelhecidas a vogar
mansas. Do seu pedestal de argila, a prima soltou um bom dia envergonhado e a
mulher virou meio tronco rápido, a mão da escova a abrandar sobre o tecido.
Continuação. Entre nova desilusão e nova esperança, a história dos dois repete-se num ciclo interminável, quando, sem aviso prévio, o autor introduz uma nova variável nesta equação tão antiga: afinal as mulheres que nos fazem sofrer também podem ser vítimas de um sofrimento muito semelhante àquele que causam. Temos então uma espécie de inversão de papéis. Ela passa por dificuldades e muito sofrimento, e começa a procurar nele o seu “porto seguro”. E ele diz presente e ajuda-a a todos os níveis.
ResponderEliminarPosto isto, o autor entra no domínio das interrogações: quando uma mulher insensível, incapaz de qualquer sentimento, habituada a usar os outros para os seus próprios fins, desce às profundezas do desespero e é resgatada ‘in extremis’ por um homem, que a amou desde criança e a quem já desprezou inúmeras vezes, como reagirá a essa suprema prova de amor? Uma vez recuperada, como se comportará com o seu salvador? Em última análise, poderá uma situação extrema modificar uma personalidade também, em si mesma, extrema?
O autor é magistral na gestão desta incerteza, levando-nos a colocar todas as hipóteses e chegando mesmo a fazer parecer plausível aquilo que, no nosso íntimo, sabemos ser impossível. Mas, por fim, a sua conclusão é de uma clareza cruel: quem não ama tem um ascendente sobre o outro que lhe confere uma vantagem inultrapassável. Quem não ama também não sente remorso. Tem, por isso, uma liberdade que o comum dos humanos não tem: pode fingir sentimentos quando isso lhe é útil e desfazer a farsa num segundo quando deixa de o ser.
E Ricardo, por mais que o seu lado racional o tente chamar à razão, nunca resistirá ao apelo romântico da pessoa que ama. Por muitas desilusões que o seu amor já lhe tenha causado, acreditará sempre uma última vez. É essa a sua desgraça, ou… haverá ainda redenção para a menina má?
'As travessuras da menina má’ – Mario Vargas Llosa – um dos livros que mais gostei.
Bem me parecia que não tinha lido tal obra. Mas a usura sentimental dessa menina talvez seja mais comum do que se pensa. Leia-se, em ambos os sexos.
EliminarUm bom momento de leitura!!!
ResponderEliminarBj
oh não Gracinha. Já me fartei de emendar e acho que ainda não está nada de jeito.
EliminarSerá que depois da Fada Boa (tia Emília) vamos conhecer a Bruxa Má (mulher da escova)?
ResponderEliminarSerá?
Aguardemos :)
A crónica da Dulce (na Visão desta semana) está muito boa, e até acredito que seja verdadeira...
Bom fds, bea.
⚘
Não julgo que seja má, ou bruxa, Maria. Vou carregá-la de trabalho ou por aí, stressá-la.
ResponderEliminarEstive a lêr a crónica de Dulce Maria Cardoso no cedo matinal. Sim, creio que seja verdadeira, já a ouvi citar o lugar para onde foi viver quando chegou de Angola. À semelhança de Lobo Antunes, Dulce lembra nas crónicas a própria vida. E o resto é arte da escrita. Gosto dessas crónicas com o travo da verdade e tão escorreitas. Fica a gente a sentir que afinal os escritores se parecem connosco e nasce-nos uma ternura por esses seres que nos enfeitam as horas e de que só conhecemos as palavras. Por mais que contem e deles saibamos isto e aquilo, não tenhamos ilusões, não os conhecemos.Construímos uma imagem. Como diz a filosofia, uma representação. E talvez aconteça com toda a gente.
BFS, Maria
o Carrossel continua a rodar e muito bem, bea... :)
ResponderEliminarvai indo, Luísa.
ResponderEliminarBom domingo
Bea, estou otimista. O diabo não é tão mau como o pintam e, apesar da indigência do lugar, retive o "inicio de amizade" e o aspeto "campestre" da mulher no tanque que sossegou o pequeno.
ResponderEliminarBom domingo, Bea.
Escreva mais que esperamos impacientes.
Viva, Nina.
ResponderEliminarpois é, estou um bocadinho ocupada. Imaginar gasta tempo, que chatice. Mesmo indo buscar ao que conheço, pôr tudo em palavras exige disponibilidade mental e física. Amanhã à noite, talvez dê mais um passo. O nosso garoto vai aprender umas coisas por lá, isso vai.
Bom resto de domingo, Nina
Também vivi um regresso às origens por estes dias.
ResponderEliminarSabe sempre bem.
Boa semana
E que tal, Pedro, correu tudo bem?
EliminarMuito bem mesmo.
EliminarVenho de alma lavada.
Estou encantada com a sua narrativa de uma imagética e estética impecáveis… Parabéns!
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
Obrigada, Graça. Reli e não me parece que esteja tão impecável como isso. Talvez não saiba fazer melhor:)
ResponderEliminarBoa semana