Hoje,
dia vinte e seis de Outubro do ano da graça de dois mil e dezanove, a
Gulbenkian abriu portas a “O fascínio das histórias”. Portas abertas com
primor. Oradores e moderadores interessantes em todas as salas, um naipe de filmes a condizer. A dificuldade
de escolher. Por via de um comboio impaciente deixei para trás oradores que me
apeteciam de raiz. Ainda assim, consegui ver um filme e assistir a duas sessões
de palestra, uma na sala da literatura e outra na do jornalismo.
Fahrnheit
451 é um filme sobre uma sociedade que imola os livros pelo fogo e prende quem
os possui. Livros são motivo de diferenciação mental, logo, objectos banidos. Perniciosos,
ajudam a ter pensamento próprio numa sociedade que se quer igualitária e
robotizada. A acção decorre no futuro e os bombeiros têm a função de atear fogos usando os livros
que são treinados para encontrar escondidos nas casas dos inssurrectos. Gosto
dos filmes de Truffaut. E também de Truffaut. O realizador sempre me parece
garoto que sabe pensar, impressão que me vem da forma como nos olha a direito e
da humanidade terna que reconheço nos
seus filmes.
Depois,
foi a vez de Hélia Correia ir paulatinamente negando a juventude de Alexandra
Lucas e se afirmar em alguns pontos como a distinção entre literatura formativa
e literatura moralizante; Mário de Carvalho dissertar naquele tom calmo e baixo que o
caracteriza e Rui Zink desconcertar corrosivamente.
Na
última conversa tive o prazer de assistir a Patrícia Reis que nunca perde de vista
a farpa feminista, a reivindicar aos colegas presentes o prazer da mulher, a
masturbação feminina e não me lembro que mais no feminino, adiantando que os
livros sobre sexo e morte é que é, pegam de estaca. Aproveitou para negar a religião
e as verdades bíblicas, inventadas uma e outra muito antes de Cristo (coisa comprovada, não é trinta e um de boca) e assumiu que se uma mulher escreve um livro sobre sexo é olhada por isso mesmo, escreveu um livro sobre sexo; se for Lobo Antunes a fazê-lo, é um livro sobre a condição humana. A assistência riu e eu estive para dizer-lhe que Lobo Antunes não faz livros sobre sexo, são mesmo sobre a condição humana. Mas achei que ela não gostaria da observação e calei-me. Depois estava um
psiquiatra a que a jornalista, escritora e editora chamou “a estalada de
Alvalade”, pessoa bastante moderada. Foi esclarecedor face à torrente por vezes
demolidora e catártica do realizador de José e Pilar que informou a plateia acerca da sua necessidade de umas consultas de psiquiatria (um brincalhão) e falou
sem pejo de masturbação e erotismo, ilustrando com exemplos pessoais. A sessão
foi moderada por Miguel Ribeiro, um amor de garoto em estarrecida bonomia com o
teor de sexo que assentou de início e se refastelou. E posto isto, a plateia
pareceu-me muito mais interessada e divertida que na sessão anterior. Patrícia, és bem capaz de ter razão.
O
que eu gosto de estar na Gulbenkian aberta ao povo.
Um
obrigada ao comissário Nuno Artur Silva.
Queria tanto ter ido, achei um programa magnífico, mas não consegui libertar o dia para tal. Fico feliz por a Bea ter conseguido estar lá e ainda mais por saber o que aconteceu; maravilha existirem blogues!
ResponderEliminar~CC~
Mas é que foi muito melhor do que eu disse, Pode crer. Mesmo.
EliminarMuito, mas mesmo muito obrigado Bea pela possibilidade que me deu de lá estar, sem ter ido. Que grande dia, cheio de Cultura. E de repente lembrou-me Sophia quando dizia «A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssima» - desta vez, em parte, não tinha razão.
ResponderEliminarO filme não conheço, mas o livro é consagrado, embora não tenha lido; não admira o tema é pertinente.
E de tudo o que nos contou, não posso deixar de dizer o quanto gostaria de ter especialmente assistido à conversa de Patrícia Reis, por tudo, e porque para mim o psiquismo feminino (sexo incluído) não é condição menor. Talvez por continuar a ser aquele mundo estranho e maravilhoso...
Patrícia Reis não conversou muito, foi quem menos falou. Contou histórias que eu já conhecia do programa de rádio que oiço com ela. e foi metendo farpas como quem diz, é lá, estou aqui, sou mulher. O realizador de cinema disse coisas que ainda hoje me estão a fazer rir e que acho vou lembrar como anedota para sempre. Como ele referiu, a realidade ultrapassa sempre a ficção. E tudo tratado em nome pessoal, com sinceridade e muito humor, o psiquiatra alimentando o discurso com achas e achegas. Valeu.
EliminarUm filme que me marcou na minha adolescência, por me ter marcado tão intensamente a minha relação com os livros, que entram em combustão a 451º Fahrenheit.
ResponderEliminarBom fim-de-semana, bea, agradecendo esta magnífica publicação!!
Penso que ninguém que o tenha visto vai esquecer a temperatura a que arde um livro:). Mas dói ver tanto livro de qualidade a arder. O filme inteiro é metáfora para tanta coisa...
EliminarMuito obrigada, bea, por nos contar esse dia tão fantástico, um programa ☆☆☆☆☆ num cenário magnífico.
ResponderEliminarVi o Fahrenheit 451 nos anos 80 e sempre tive vontade de ler o livro, o que só consegui fazer há cerca de 2 anos. Apesar de adorar o filme (que revi em DVD recentemente), tenho de reconhecer que (para mim) o livro do Ray Bradbury é superior; quando o comecei a ler não consegui parar, fui por ali afora até de madrugada, e os meus olhos já não estavam bons para estas maratonas... mas não consegui mesmo parar.
Adoro a Hélia Correia, os livros e também a sua filosofia de vida.
Bom domingo.
🍁
Fui ver o filme prescindindo de almoçar:); nunca o tinha visto e era de Truffaut. Além disso, era o primeiro filme e não impedia nenhum dos restantes programas. Não me decepcionou.
EliminarHélia Correia é uma intelectual de gema, desabrida e inteligente. Não gosto de todos os seus livros. Mas concordo com ela em algumas coisas, na distinção entre livro formativo e moralizante; na noção de que, na nossa idade, a historia ou enredo não é o mais importante num livro, ele importa-nos página a página e o que mais interessa é a experiência estética presente em cada página; é ela que nos faz continuar a ler. Mas atenção, Hélia e outros como ela, não são o leitor comum. E também é preciso escrever para esse leitor que até é o que existe em maior quantidade e que gosta de ler uma história e que continua a leitura para a conhecer até ao fim.
Desconheço a filosofia de vida da escritora, mas foi dizendo que não lê os novos autores portugueses além do seu querido (cito) Gonçalo M. Tavares e que não sabe nem os nomes. Disse ainda que quase não lê e é cada vez mais reticente a ler novidades. E que a sua luta actual é pela escrita sem estrangeirismos de mistura com o português. Irrita-a muito (cito). Surgiu a bravata, suponho que em função da expressão fake news usada por Mário de Carvalho; no fim dela ter resmungado o que entendeu, Mário de Carvalho respondeu sorridente, no problem.
Obrigada:). Bom resto de domingo para si também.
Pelo que me conta, ela (que era um doce de pessoa) está a ficar um tanto ou quanto niquenta... as pessoas vão mudando, embora raramente o admitam :)
EliminarGenial essa resposta sorridente do Mário de Carvalho.
Penso que está um bocadinho nas tintas para o que não considera mesmo bom. Não sei se nós, com os anos, não fazemos mesmo essa selecção. Nos livros, nas pessoas, no tempo que gastamos com elas. Não é isso que lhe critico. É o não entendimento do outro lado que também é um lado. E tem gente.
EliminarEu também iria gostar!!!
ResponderEliminarBj
De certeza, Gracinha.
ResponderEliminarAcredito que tenha sido muito interessante.
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