segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Carrossel


Quando a paisagem se encheu de novidade começou a desinteressar-me.  A espaços, nasciam casas grandes e bonitas, mas o mais eram sobreiros uns a seguir aos outros, campos e campos cheios deles. Rodávamos fora do meu mundo. Desanimado, encostei a cabeça no vidro e, tão bem sentado como nunca estivera,  fosse por cansaço triste ou saturação de novidade, adormeci no embalo do motor. No meu sonho, a prima desvelada, vens viver comigo, a partir de hoje chamas-me prima Felicidade.
Acordei com a cabeça recostada no assento, a prima fixando-me compassiva, ó filho tive de te puxar para aqui, ias só aos pendões contra o vidro. Eu ainda sob a influência do sonho, a prima chama-se Felicidade?, mas ela numa estranheza balofa, a verruga a aproximar, pois tu nunca ouviste a Emília chamar-me? Chamo-me Eugénia, sou a  prima Gena. Emudeci, os meus sonhos um conforto de miséria.
Lá fora, no aperto de luz e calor, a brancura de casas  aconchegadas umas nas outras, prédios, uma praça comprida com igreja ao fundo, um sino desmedido de vigia na torre. O automóvel vagaroso e encalorado passando no largo. A meio, uma estátua de brilhos suados, árvores tolhidas de esparavelas de sol e gelo, bancos de madeira descorada a toda a volta, gente que não tinha onde ir conversando nas fitas de sombra - se calha, ainda hoje a conversar naquela praça à soalheira -, e nós mirones com destino, rolando devagar. O taxista para a prima, é preciso cuidado dentro das localidades, ou ainda passamos alguém a ferro, o pessoal tem pouco hábito de automóveis e atravessa sem cautelas. E logo mudou de assunto, que isto é assim, se é para multar, a GNR só vê táxis e camiões. Não fazem pêva e ainda prejudicam quem trabalha. E de dedo em riste, apontando a autoridade que flanava ao fundo da praça, olhe para aquilo, levam a vida ao alto, o trabalho não os faz dobrar a espinha; por isso estão gordos, já viu algum GNR magro. A prima olhava e, isenta de rancores à força da lei, assentia em silêncio brando, talvez a comparar-se, não sou tão gorda, uma dietazinha e fico igual aos mais.
E de novo um raro de casas, uma criança num quintal a olhar-nos de pés esquecidos nos pedais da bicicleta nova, um tractor que lavrava transportado por uma nuvem de poeira, uma carroça de ciganos de certeza a tilintar que os ciganos gostam de guizos; os pais à frente na condução das bestas e as crianças atrás, taipais descidos e pernas penduradas a desafiar perigos. E nós a ultrapassá-los. O taxista num murmúrio concentrado, é passá-los minha senhora, livre-nos Deus de desastres com ciganos, cai-nos a família toda em cima. E deitando-me um olho fatalista, já falta pouco, a casa fica no campo, já cá vim uma vez ou duas. Pode ser que gostes, há lá muitos como tu, isso é verdade.

12 comentários:

  1. Também se aprende a gostar, Gracinha.
    Boa noite

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  2. Não sei se se aprende a gostar, bea, mas sei que se aprende a suportar, a aceitar, isso sei.
    Continuo com muita curiosidade em saber o que irá acontecer a este jovem, mas já percebi que este rio tem muitos meandros, vai demorar a chegar à foz...
    Boa noite :)

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    1. Aprendemos tudo e tudo é tão pouco, Maria. Às vezes dou por mim a pensar que não sei verdadeiramente nada e já vivi tanto. Quando parta, não tenho objectos bonitos, roupas estilosas, quadros ou obras que me sinalizem e interessem a quem fica. Portanto, não só não aprendi grande coisa e tratei tudo pela rama, como nada comprei que alguém depois de mim estime ou julgue estimável. O melhor que me aconteceu - excepto os filhos - levo comigo, é secreto e meu apenas. E assim se passa uma vida lisa de tanto que se não vê. Hoje estou um bocadinho pensativa e pensadora, sorry. Não é lamento, é mera constatação. Mas inútil tenho a certeza que não fui.

      Pois é, não devia ter incluído esta coisa na etiqueta "histórias curtas". Nasceu para ser isso e não cumpriu; é provável que venha a ser outra coisa ou nem chegue a ser nada de jeito. Mas, sempre que posso, vou andando.
      Boa noite, Maria:)

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    2. Já lhe tinha dito; não sei se gosto mais dos seus textos, se dos seus comentários. É, a bem dizer, como o Lobo Antunes com os romances e as crónicas.

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    3. Esse "a bem dizer como", tem uma extensão extraordinária.

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  3. Permita-me um "desabafo" Bea, neste seu espaço e perdoe-me o abuso.
    Sou um homem da classe média, com uma vida pacata e sem emoção. Amo com todo o meu coração uma mulher. Quando a beijo, ela não fecha os olhos. Conserva-os abertos, sem entrega. A mente está de tal maneira ativa que toda a dádiva do corpo é limitada. Para além de insensível é calculista, não só não me corresponde como aproveita esse amor para o usar quando precisa dele, ignorando-me sempre que lhe surge uma alternativa mais vantajosa. Como vê não sou ingénuo, percebo perfeitamente o que se passa. Tento esquecê-la mas não sou capaz, porque simplesmente a amo demais.

    Ele é tão meigo e delicado que me chega a comover, mas não suporto a sua falta de ambição, que chega a roçar a mediocridade. Por vezes apetece-me esbofeteá-lo para ver se reagiria de outra forma quando, contra a minha vontade, o faço sofrer, mas tudo aceita com candura e complacência. Principalmente na cama, não me importaria que me chamasse nomes e se tornasse um pouco 'animal', mas infelizmente não tem essa faceta.

    Isto não é um excerto, nem muito menos uma sinopse. É uma pequena adaptação livre, depois de ter lido um dos livros que mais gostei. Se ainda não descobriu, amanhã revelarei título e autor.

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    1. Joaquim, já lhe disse que pode usar o meu espaço. Confio nas suas palavras.
      Não nos disse se esses dois são um par ou se são dois seres desgarrados um do outro e descontentes com o par respectivo.
      Talvez não tenha lido esse livro. Espero a sua revelação de amanhã :).
      Se leio desencontros assim fico sempre a pensar até onde pode ir a vontade pessoal nesse afã de satisfazer o outro sem que o eu se violente. Ao amor, como o citou, falta beleza e naturalidade. Como diria uma colega que tive, "é tudo muito da percefície"
      Boa noite

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  4. Este teu conto, ou novela ou... não sei bem em que género se enquadra , em cada página ganha um novo fôlego e abre novos caminhos à dimensão humana. Quanta sensibilidade, quanta sabedoria, quanta ternura! Torço por um longo percurso que continue a encantar-me . Obrigada!

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  5. Tu és é uma querida, Alda. Isso é que sim. Mas obrigada pelas tuas palavras. Parece-me que vai ser longo sim; não estava previsto mas é como aqueles bolos que crescem em demasia e não cabem na forma, esbarrondam.
    Um abraço

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  6. Muito obrigada, bea, pelas suas palavras, fizeram-me muito bem.
    Só hoje as pude ler com mais atenção (às vezes surgem problemas e foi o caso de ontem).
    Engraçado como as palavras (escritas) de uma pessoa que nem conhecemos nos podem tocar tanto; mas afinal é isso que acontece com certas passagens de livros que lemos, e com os blogs é a mesma coisa: uns dizem-me muito, outros não me dizem nada.
    E toda esta introdução para lhe dizer que eu também não me especializei em nada, também ficou tudo pela rama e cada vez me sinto mais ignorante, mas sempre com vontade de aprender mais umas coisitas enquanto por aqui ando :)

    Bea, ainda que a história terminasse agora, teria sempre muito jeito, mas pode (e deve) meandrar o seu rio de palavras à vontade; encantam-me a sua forma de escrever e o vocabulário que usa.

    Sexta feliz.


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    1. Hummm...foi uma quinta de trabalho. A sexta também será mas tem dois adicionais que me encantam: um café e nadar. Tenho o dia ganho:).
      Boa noite, Maria

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