terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Coração do Coração


De tarde, Maria Alzira Seixo e os tradutores a afirmarem, cada um a seu modo, a dificuldade, o desafio de traduzir autor tão complexo e intraduzível. E um deles num português curiosíssimo: Lobo Antunes diz-me, “na impossibilidade de tradução, sê criativo”.
A finalizar, o autor. A sua estranheza perante a própria velhice e o efeito que a imagem tem nele. O reconhecimento de que viveu a escrever. As lembranças e a memória que não sossega, não dá tréguas, mas também é refrigério. A memória de elefante que, digo eu, lhe dura a vida toda e oxalá se mantenha. A memória da mercearia do careca onde o Nuno, e por certo ele mesmo, comprava os cigarros que fumava enquanto escrevia; o irmão João e o último encontro que narrou emocionado tal qual a crónica que escreveu; o avô visconde que o levou a Pádua a fazer a primeira comunhão (outra crónica); o mesmo avô que era militar e tinha uma veia humorística de onde virá o seu próprio humor tão fino como cáustico, e de que contou peripécias engraçadas; O seu agradecimento ao contacto a que chamou toque, dos homens da sua vida e dos que, não o sendo, o marcaram - o abraço de despedida do João, o do avô, o de Paulo Portas (crónica). O seu encanto pelo dizer-se da ternura masculina, a amizade entre homens. O imenso amor a Portugal e a saudade que traz quando regressa "apetece beijar o ar, os cheiros, a luz, a cor do céu que é única..."
E depois, a imposição da Ordem da Liberdade pela mão do Presidente Marcelo. E Lobo Antunes meio atarantado, sem palavra. Sob o benévolo olhar de três presidentes da república. Mas sobretudo, valha-nos isso, sob o nosso olhar. Comovido. Grato até ao infinito de cada um. Tudo dito em palmas sem fim.
Fiz não sei quantas bolhas nos pés, esqueci o almoço em casa, o cinema falhou-me e não me deixou vê-lo. Mas Lobo Antunes foi o máximo. Creio bem que tudo aconteceu assim por ter de ser: era o seu dia.
E aposto que no curso das horas desligou o aparelho algumas vezes. Ou, como meu pai, nem precisou fazê-lo. Ficou-me a última frase, “O afecto é a forma suprema de elegância”.

9 comentários:

  1. E na última frase... muito se diz da obra e do homem!
    Bj

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    1. Digamos que eu revi nessa frase a sua escrita inteira. Sempre me parece que há um amor e compreensão do autor embrulhando as personagens que cria.

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  2. Bea, confesso que as crónicas - género menor(?) - me encantam mais que os romances. Tenho dualidade de sentimentos em relação ao escritor- às vezes enternece-me, outras não. Nessas, sinto incontrolável azedume por uma personalidade que se me apresenta arrogante e megalómana. Possivelmente o defeito é meu que não estarei à altura. Por isso não sou leitora adicta e reverente. Nada a fazer.

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  3. Mas é assim mesmo Nina, ninguém agrada a todos. Não me considero reverente, mas pertenço ao número de pessoas que esperam os seus livros que, segundo alguns amigos meus, estão cada vez mais loucos, pessimistas e os mesmos. Mas é que é disso que gosto, fazer o quê?! O certo é que está mesmo a arredondar a obra. Como desejava. Basta ver o tema do último (que ainda não li)

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  4. Um autor que não é nada fácil mas as suas crónicas são excelentes, aproveito para desejar um bom fim-de-semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    Livros-Autografados

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  5. para mim a leitura de Lobo Antunes é água que corre e oiço correr; as crónicas são, em geral, a sua vida, ou o que dela é contável: em geral, os bons sentimentos e até as peripécias que nos fazem sorrir.
    Bom Domingo, Francisco

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  6. Perante o teu depoimento sobre Lobo Antunes aumentou a minha pena por não ter podido assistir. Mas já valeu a pena tu teres escrito sobre isso. Muito obrigada. Lobo Antunes também gostaria de te ter lido, tenho a certeza. Abraço.

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  7. Obrigada Alda, mas não penso que o escritor gostasse. Leva o tempo a dizer que a maioria dos escritores portugueses não prestam, como podia gostar do escrito de uma bloguer desconhecida? Nem se daria ao trabalho de lê-lo. Bom, só se fosse porque é vaidoso e lhe sabia bem a minha rendição de fã já incondicional:).

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