quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Crónica de Um Encontro


Quando te anuncias, começo a preparar-me para ti. Não pessoalmente. A preparar a casa para te receber enchendo-a de flores e limpeza que nem notas mas estão no posto; a imaginar almoços a teu gosto e sobremesas que te agradem; a escolher de entre os meus livros mais recentes os que te sirvam as preferências; a enumerar as pequenas prendas que te vou comprando ao longo do ano e tenho de procurar e reunir, peças de roupa, livros e outros pormenores; e  em mil coisas que o tempo não há-de deixar que te conte e só cabem na minha intenção.
Na véspera, aperfeiçoo lista cuidada para o super, faço uma sobremesa. Penso-te em cores de alegria, envio sms e pondero de mim comigo sobre as nossas horas sempre curtas. Um travo ligeiro, rasto breve que não empata nem ensombra.
No dia, levanto-me cedo e tomo um café. Vemo-nos tão pouco, prefiro que captes o meu optimismo risonho. E necessito certa aceleração para cumprir horário. Conheço-te, não atrasas. Vou ao super de fugida, ordeno alguma coisa em casa e ponho o avental. A partir desse momento estou oficialmente ao teu serviço. 
É verdade que me esmero para ti. Tão pouco te vejo e tanto te conheço. Sei por exemplo o raro de alguém te fazer ou oferecer um almoço ou jantar. Gozaste o benefício de pais próximos até ao fim da primária. O resto foi a aprendizagem de viver sem eles. Eram pais de férias. Mas a vida é também assim. E gosto que venhas. Porque a saudade existe e amigas como nós têm de ser presenciais. Mas também porque tenho largo prazer em servir-te, dar-te o que mais aprecias e tão pouco tens, refeições agradáveis e livres da tua responsabilidade. Tu que tanto cozinhas detestando a culinária.
Depois, bom, depois é claro que derreto por tudo apreciares. E na hora da despedida ofereço-te o possível, plantas, chá, um pedaço do bolo, um casaco que talvez me esteja apertado. Eu te daria qualquer bocado de mim se te servira.
Fica a revolver-me o teu abraço apertado, amplexo tão diferente de tudo. És a única amiga que me abraça; a única que não teme a expansão da ternura. Mas a essência é a absoluta certeza de cada uma de nós existir na outra. Ou talvez seja apenas a pura necessidade dessa certeza. Quem sabe.  
  
   

14 comentários:

  1. Amigos que são uma parte de nós.
    Tenho a felicidade de ter alguns assim.

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    1. E se não temos esta chance, se os nossos amigos pouco vão além de conhecidos. Como seríamos se isto acontecesse. Quem seríamos.
      Bom dia:)

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  2. Como diz o povo, ter amigos é fortuna. Compartilhar com alguém as mesmas recordações, duplicando a nossa alegria e dividindo a nossa dor é uma coisa maravilhosa.
    E, depois, vejo na Bea uma espécie de perfeição a alcançar, defrontando as suas próprias capacidades para satisfazer os seus imperativos.
    Em si, a natureza (perfeitamente feliz) realiza-se.
    Que passem as duas um excelente dia!

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    1. Passou. E foi excelente, sim. É sempre excelente juntarmo-nos.
      Não entendi na perfeição o que disse sobre mim. Mas pareceu-me bom:).
      Bom dia, Joaquim

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  3. Amizade com A grande, bea :))
    Dia feliz.
    🍁🍁

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    1. Mesmo. Já foi:). Mas importa o que, em cada uma, fica da outra.

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  4. Ao ler este texto lembrei-me da minha querida amiga Beatriz (Bea) que me recebe de uma maneira impressionante e fica sempre muito triste que fique por pouco tempo. O único senão é o jantar, um jantar absolutamente ao meu gosto: cozinha portuguesa, ser sempre tão tarde.

    Abraço para as "beas" portuguesas 💙

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  5. Olha que bonito ter uma amiga Beatriz. A Teresa tem de começar a fazer com a sua amiga o que fazemos nós duas, não alinhamos em jantares. Os nossos encontros ocorrem ao almoço (por vezes inclui lanche). O jantar já não nos seduz, nem eu poderia obsequiá-la em tal horário. A idade torna o jantar uma refeição relativa.
    Bom dia, Teresa

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    1. A Beatriz não é uma amiga, é sim, a irmã que nunca tive.

      Quando estou em casa dela por alguns dias, almoço e janto, à antiga portuguesa, e SEMPRE muitíssimo tarde. AQUI, as refeições são muito cedo para o gosto da gente do sul.

      Beijinho outonal 🍁

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  6. Tenho algumas, poucas, muito poucas, amigas do peito. Dessas a quem dou abraços sentidos. Vemo-nos pouco, às vezes passam-se anos, mas quando acontece o encontro, ilumina-se-me a alma.

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    1. Julgo eu que sempre julgarei ínfimo o pouco tempo de estarmos juntas. Facto que acho idiota demais e só ela pode consertar.

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  7. E são pessoas assim que fazem a diferença em nossa vida!!!
    👏👏👏👏👏

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