Mãozinha
danou-se a empurrar a máquina maior que ele e, cumprindo ordens, parou-a no final. Intentou retirar a
ficha, mas a sua força de quatro anos
era brisa naquele aperto ajustado. Chamou e ninguém acudiu. Correu ao
pátio e nem sinal do Ferrugem. Então deu-lhe um puxão a mãos ambas, coisa de ou
vai ou racha, que o maior era áspero a castigar. E trouxe atrás a tomada.
Depois, trabalho de ingénua curiosidade infantil, foi pegar nos dois fios coloridos
que ficaram à vista. A casa estremeceu com o berro desabalado enquanto o coice da descarga o atirava para o outro canto, a mão encolhida como papel no fogo,
dedos em garra. Um grito agónico e dolorido que repercutiu e fez Octávio voar
desde a quinta, botas largando terra pelos corredores. Chegou a par dos garotos espavoridos. Pegou em Zézito e correu a depô-lo no banco
traseiro do bolinhas onde Maria, de avental e chinelos, o recebeu no colo. Olhos de ardósia sem palavras, os garotos assistiram às manobras nervosas do
bolinhas, os pneus numa chiadeira de sofrimento e esforço galgando caminho em
rapidez nunca vista. E enquanto isso o Ferrugem, homem feito e barbado,
lamuriava tracejando lágrimas, ai se ele morre, se ele morre fui eu que o
matei. E os outros imóveis, tormentosos, um mar de rancor a borbulhar em espuma revolta que instilava no corpo urgente e ardia nas articulações.
Os outros esquecidos da maldade pessoal e de quanto todos castigavam os mais
novos, a prometerem o que sabiam não ir cumprir, nunca mais obrigo nenhum a nada e vou ajudar a tomar conta deles. Os outros em parede vingativa, a projectarem
no Ferrugem as próprias falhas e culpas, caindo-lhe em cima como malhos, chuva de
pontapés e murros de que nem tentou defender-se. Os rapazes do lar amealhavam
um tamanho de cólera e destruição que nem eles sabiam que tinham. À vista da
violência e do sangue, os mais novos desataram o choro, condoídos do saco de
pancada que mal gemia e de que iam vendo um braço ou uma perna já em
desânimo vital, bocados de camisa rasgada, relâmpagos da cara num trambolho ensanguentado. E, se um deles não corre pela cozinheira reboluda e chamejante, Octávio chegava e o Ferrugem estava
feito às postas. A mulher não esteve com meias medidas e apartou-os sem
rodeios, batendo o maço dos bifes na cabeça de um e outro até descobrir no solo
o corpo desmaiado do Ferrugem. O coro choroso que emudecera à vista da sua intervenção, julgando-o morto, redobrou. Ela acenou com o maço e
gritou acerada, fora daqui. Não precisou repetir. Depois, empinou-se aos pelejadores
ora indecisos e ofegantes, palpando a cabeça. Vermelha de raiva, fuzilava-os com o olhar, voz
esganiçada de alarme, suas bestas, vejam bem o que fizeram. Não têm vergonha,
todos em cima de um. Agora carregam-no para a cama que eu vou aquecer água e
vão tratá-lo e lavar-lhe as feridas à minha vista. E desandou para a cozinha, pressas de avental enxofrado, resmungando pelas costuras, selvagens, cambada de bestas
quadradas, corja de bandidos, filhos de uma puta que iam matando o rapaz. Não
basta um aleijado, agora temos dois.
Gostei de ler. A curiosidade das crianças é interminável, e muitas vezes, perigosa. Um choque eléctrico é trágico e, até pode matar
ResponderEliminarDeixando cumprimentos poéticos
Obrigada:)
ResponderEliminarBolas, bea, que esta cozinheira virou uma autêntica padeira de Aljubarrota.
ResponderEliminarE assim tivemos direito a uma cena digna de Tarantino.
Até à próxima.
🍁
Mesmo. Acredite, foi o exacto pensamento que me acudiu ao ler:). Talvez a tenha desenhado sem querer, que não foi nela que pensei ao descrever a cozinheira. Não é uma sangueira digna de Tarantino, falta-lhe a comicidade. A agressividade dos jovens da história deixa-me atónita, é cavalo que toma o freio nos dentes.
ResponderEliminarBoa noite, Maria
Mas, bea, eu lembrei-me do Tarantino precisamente porque dei comigo a sorrir (sou mesmo má) ao imaginá-la a manejar o maço dos bifes a torto e a direito até chegar ao Ferrugento.
EliminarEstá uma cena muito cinematográfica :)
Boa noite.
😴
pôr-lhe a faca na mão era perigoso demais, ainda retalhava algum :).
EliminarUm conto que pode muito bem ser real. Pois passei um episódio na vida que se fosse a escreve-lo ao pormenor daria umas quantas páginas (trágicas) claro. Adorei... continua??
ResponderEliminarBeijos
Boa noite.
Bom, Cidália, a história parece que não tem fim. Mas o episódio terminou:).
ResponderEliminarBem, grande susto e grande zaragata...
ResponderEliminar:)
e tudo para explicar a alcunha do mãozinha:).
EliminarEntão a Bea para além de candidata ao prémio Nobel da literatura, também quer ser nomeada ao Oscar do cinema, com cena digna de Tarantino (como bem observou a Maria) ou outro qualquer, onde nem um palavrão faltou (eu reparei).
ResponderEliminarQue cena esta!
Nesta bordoada toda, que até me deixou atordoado, há duas ou três coisas que merecem reflexão:
- Em primeiro lugar o realismo de toda a cena.
- Depois, uma coisa que me chamou à atenção - o arrependimento do Ferrugem, o corrécio, homem feito e barbado, que se lamuriava tracejando lágrimas a ponto de nem se defender da ira da rapaziada. Excelente remissão, num rapaz, até ali irreverente.
- A força do colectivo (a união faz a força), a justiça popular, o sentimento de manada perante um acto provocado por um dos crescidos, um dos que reinava e era temido.
- A entrada em cena da cozinheira com o maço dos bifes em grande estilo, qual cassetete de polícia, e largando impropérios (a cereja no topo do realismo).
Venham mais!! Boa noite.
Sempre lhe desvendo, Joaquim, que o palavrão não é o meu reino de escrita. Mas, entrando no personagem, o povo como o conheço é assim mesmo.
EliminarO colectivo eram outros como ele, tão abusadores ou mais que ele. Seria assim com todos. E a irreverência jovem, como sabe, é feita de uma confiança inaudita em que tudo corre bem. Não usa cautelas. Por isso há tanto acidente na estrada e mais coisas que agora não vêm ao caso. Mas ter esse rasgo de perpétua maldade não é ser corrécio, é ser duro como a vida foi com ele. O que não significa insensibilidade total. Na minha imaginação eles são garotos por dentro. Mais garotos que todos nós porque foram obrigados a crescer depressa e diferente. A infância irrompe-lhes em momentos de gravidade desvalida.
Boa noite:). Está tão pardo lá fora.
Chapelada para a sua escrita!
ResponderEliminarMuito na linha do Lobo Antunes.
Oh não. Lobo Antunes tem seu estilo de frases incompletas a terminarem vinte linhas depois, a pontuação específica, o texto sempre muito aberto enquanto o meu é o inverso, quase corrido. As vozes que num capítulo são de um e no outro de outro, como que correndo as personagens e o seu ponto de vista sobre facto que todos vivem. E há ainda a sua arte inefável de palavrar, as metáforas que são únicas e muito grávidas de poesia, as repetições como marcas, pancadas rítmicas do pensamento que não pára e a que a gente assiste. E podia continuar:).
ResponderEliminarUma escrita extraordinária, um texto rico em palavras e movimento. Gostei bastante e com calma vou ler os anteriores.
ResponderEliminarAbraço e bom fim de semana
:). Obrigada, Sam.
ResponderEliminarImplacável, a Bea mantem-nos presos, mergulhados nesse inferno da "casa que recebe orfãos". Violenta esta sua narrativa, mas, infelizmente, acredito que bem próxima do real.
ResponderEliminarPor infeliz associação de ideias, revivi o horror da Casa Pia.
Esteve numa Casa Pia, a Nina? Conheci uma e não a achei esse horror que diz. Tinha as suas coisas muito próprias, isso sim.
ResponderEliminarNão Bea, não estive. Generalizei a partir de um episódio mediático de triste memória. É claro que as generalizações são sempre injustas.
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