domingo, 6 de outubro de 2019

Carrossel


A vida corre mansa durante anos mas, num arremesso, pode mudar-nos a circunstância. Bastam umas horas, um dia, a ligeireza de segundos. Talvez o imprevisto seja o ponto de viragem na história, um rápido no leito do rio,  tumulto de velocidade que altera o curso e nos cavalga em atropelos de novidade. Dei por mim no banco traseiro de um táxi, a prima anafada a convencer-se, vais ver que gostas. E enquanto ela cismava, eu despedia-me de todas as árvores. E do caminho.
Logo após o arranque passaram, bem devagar, as brincadeiras de Tarzan. Eram árvores folhudas e cheias de riso e apostas, via-lhes da janela as lianas despidas, oscilando vagares; em espera de braços e mãos. Agarrávamos firme e, num golpe de pernas e impulso de corpo inteiro, transportavam-nos à árvore seguinte. Depois, na trepidação de motor regulado, o pinheiro manso à curva, sombra debruçada sobre a estrada, a largar pinhões aqui e ali e nós à coca de pinhas arreganhadas de calor e em cálculo do lugar de queda da semente; na aspereza do  tronco, dois corações entrelaçados, a força de prego ou canivete a entortar nas rugas de pinho. Dois corações solitários, sem nomes ou seta a trespassá-los, unidos na carne viva da árvore e que os nossos intrigados dedos percorriam amiúde. Mas já a lonjura dos eucaliptos se sobrepunha. Gigantes de beira de estrada, ofereciam-nos aroma de saúde que mais tarde configurei ser de farmácia. Na sua sombra havia um cepo decepado a meia altura que eu promovera, era “a minha cadeira”. Largava a mão de tia Emília e corria desalmado a sentar-me. Ficava ali no gozo de merecido repouso enquanto ela se aproximava a passo certo, carrego de compras à cabeça. Quando passámos e o olhei, uns passaritos debicavam-no e enchiam-no de passinhos saltitantes. Leguei aos pássaros o meu trono. E no fim da subida, o táxi a arfar de cansaço, surgiu a última casa, a barraca de tia Maria dos tremoços, tábuas encostadas umas nas outras e que tanto espreitávamos na curiosidade da velha a enxotar-nos como a cães, proibindo assomos. Portanto, era bruxa indiscutível, tinha seguramente um caldeirão onde mexia orelhas de morcego, mais as ervas que a víamos apanhar nos baldios e, estávamos certos, sacrificava junto um dos gatos vadios que sempre a acompanhavam; é sabido que as bruxas precisam de sangue nas poções mágicas. Neste entrementes, o táxi deixou de soluçar e o motor engrenou a ronronar fácil. Mas ainda vi tia Maria a espreitar o automóvel. Ao reconhecer-nos, fixou-me. Os nossos olhos encontraram-se e aconteceu o impossível,  espalhou-se por entre as rugas um sorriso triste, amarelo do sol antes de chuva, e levantou a mão num aceno.  

14 comentários:

  1. Valeu a pena a longa espera para ler mais este pedacinho da história: belíssimo!
    Bom domingo, bea.
    🍃🍁🍃

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  2. Como sempre... um texto que nos segura a alma!!! Bj

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    1. Olá Gracinha. Não consigo o lampejo das suas fotos, mas vou andando.

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    1. Em geral as crianças não gostam de mudanças, não é, Luísa.

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  4. Bea, não tenho conseguido acompanhar, mas acho bonitos os bocadinhos que vou lendo, sem contudo, os conseguir colar.
    ~CC~

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    1. Um dia, quando a CC seja velhinha e tenha tempo, vem aqui e cola-os, uns a seguir aos outros. Pode que faça sentido. Mas até a mim que os leio de enfiada, não faz muito sentido:).
      E que a semana lhe seja pródiga

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  5. Fantástico e belo!
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  6. Um dia ainda gostava de escrever um conto fantástico. Mas sou mesmo muito trivial, a imaginação não me sai da esfera comum.
    Boa semana, Graça

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  7. Bea, estou feliz. Vejo que esboçou uma saída para este rapazinho encurralado na triteza. Simpatizei com a bruxa. Não me parece que tenha maus fígados.
    Um beijo

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