A
vida corre mansa durante anos mas, num arremesso, pode mudar-nos a
circunstância. Bastam umas horas, um dia, a ligeireza de segundos. Talvez o
imprevisto seja o ponto de viragem na história, um rápido no leito do rio, tumulto de velocidade que altera o curso
e nos cavalga em atropelos de novidade. Dei por mim no banco traseiro de um
táxi, a prima anafada a convencer-se, vais ver que gostas. E enquanto ela
cismava, eu despedia-me de todas as árvores. E do caminho.
Logo
após o arranque passaram, bem devagar, as brincadeiras de Tarzan. Eram árvores
folhudas e cheias de riso e apostas, via-lhes da janela as lianas despidas,
oscilando vagares; em espera de braços e mãos. Agarrávamos firme e, num golpe de
pernas e impulso de corpo inteiro, transportavam-nos à árvore seguinte. Depois,
na trepidação de motor regulado, o pinheiro manso à curva, sombra debruçada
sobre a estrada, a largar pinhões aqui e ali e nós à coca de pinhas arreganhadas
de calor e em cálculo do lugar de queda da semente; na aspereza do tronco, dois corações entrelaçados, a força de
prego ou canivete a entortar nas rugas de pinho. Dois corações solitários, sem
nomes ou seta a trespassá-los, unidos na carne viva da árvore e que os nossos intrigados
dedos percorriam amiúde. Mas já a lonjura dos eucaliptos se sobrepunha. Gigantes
de beira de estrada, ofereciam-nos aroma de saúde que mais tarde configurei
ser de farmácia. Na sua sombra havia um cepo decepado a meia altura que eu
promovera, era “a minha cadeira”. Largava a mão de tia Emília e corria
desalmado a sentar-me. Ficava ali no gozo de merecido repouso enquanto ela se
aproximava a passo certo, carrego de compras à cabeça. Quando passámos e o
olhei, uns passaritos debicavam-no e enchiam-no de passinhos saltitantes.
Leguei aos pássaros o meu trono. E no fim da subida, o táxi a arfar de cansaço,
surgiu a última casa, a barraca de tia Maria dos tremoços, tábuas encostadas
umas nas outras e que tanto espreitávamos na curiosidade da velha a enxotar-nos
como a cães, proibindo assomos. Portanto, era bruxa indiscutível, tinha
seguramente um caldeirão onde mexia orelhas de morcego, mais as ervas que a víamos
apanhar nos baldios e, estávamos certos, sacrificava junto um dos gatos vadios
que sempre a acompanhavam; é sabido que as bruxas precisam de sangue nas poções
mágicas. Neste entrementes, o táxi deixou de soluçar e o motor engrenou a
ronronar fácil. Mas ainda vi tia Maria a espreitar o automóvel. Ao reconhecer-nos,
fixou-me. Os nossos olhos encontraram-se e aconteceu o impossível, espalhou-se por entre as rugas
um sorriso triste, amarelo do sol antes de chuva, e levantou a mão num aceno.
Magnífico.
ResponderEliminarBoa tarde, Joaquim.
EliminarValeu a pena a longa espera para ler mais este pedacinho da história: belíssimo!
ResponderEliminarBom domingo, bea.
🍃🍁🍃
Bom Domingo, Maria.
ResponderEliminarComo sempre... um texto que nos segura a alma!!! Bj
ResponderEliminarOlá Gracinha. Não consigo o lampejo das suas fotos, mas vou andando.
EliminarA caminho de uma nova vida.
ResponderEliminarEm geral as crianças não gostam de mudanças, não é, Luísa.
EliminarBea, não tenho conseguido acompanhar, mas acho bonitos os bocadinhos que vou lendo, sem contudo, os conseguir colar.
ResponderEliminar~CC~
Um dia, quando a CC seja velhinha e tenha tempo, vem aqui e cola-os, uns a seguir aos outros. Pode que faça sentido. Mas até a mim que os leio de enfiada, não faz muito sentido:).
EliminarE que a semana lhe seja pródiga
Fantástico e belo!
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
Um dia ainda gostava de escrever um conto fantástico. Mas sou mesmo muito trivial, a imaginação não me sai da esfera comum.
ResponderEliminarBoa semana, Graça
Bea, estou feliz. Vejo que esboçou uma saída para este rapazinho encurralado na triteza. Simpatizei com a bruxa. Não me parece que tenha maus fígados.
ResponderEliminarUm beijo
:)).
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