“Na Primavera disse Deus: Ponham a mesa às lagartas. E a cerejeira cobriu-se de folhas, milhões de folhas verdejantes e fresquinhas”… Era assim o início da lição que a nossa inocência preferia e a mente guardou. Nesse tempo de haver tempo, contávamos as atentas lições que faltavam para chegar ao prazer de coisa tão bonita. “A canção da cerejeira” era objectivo comum de leitura, embora só alguns – os eleitos pela mestra – lessem alto breve trecho; a voz dela, “continua o X; e depois, continua o Y; e assim por diante até à última linha. E nós anelantes, cada um desejando ouvir o nome próprio e saborear o prazer de reler para todos um bocadinho do texto que quase sabíamos de cor. Portanto, antecipávamos, escolhíamos e discutíamos a parte sonhada nossa.
Visto à distância, parece-me que nunca me foi dado o ensejo de. Mas subia-nos o desejo das cerejas, crescia na proporção do imaginário que amadurecia os frutos. Conhecíamos a árvore, existia uma a meio de um vedado pomar, olhos de hortelão vigilante a truncarem planos de pequenos larápios e pássaros, a cerejeira tão engalanada de espantalhos como os barcos de pesca na procissão deslizante das festas de Nossa Senhora da Boa Viagem. Vislumbrávamos de longe parte da copa do objecto desejado, impossibilitados de entrever os frutos vermelhos.
Entre nós, um único garoto tudo arriscara para as provar; o Faísca, rápido como um gato, conseguira iludir o cão de fila do hortelão: esgadanhou-se cerejeira acima e encheu os bolsos. Porém, ao pular para o chão, logo foi filado e abanado, as indiscretas cerejas caindo em cadeia dos bolsos esgarçados, linhas em fim de vida descosendo de exaustão. O velho afivelou-lhe as tenazes dos dedos e, num relâmpago, anulou o prazer que a boca antecipava. E, no momento breve da surpresa paralisante, o Faísca ganhou velocidade com um pontapé no fundilho dos calções, acrescido de impropérios habituais, desfaço-te as fuças se tornares; ou, monto a ratoeira das raposas e sais daqui com uma perna a menos. Vocabulário simpático, siamês de olhos carrascos e fosforescentes.
O garoto contava e recontava a façanha revivendo a aventura. Arqueava o lábio superior num sorriso de triunfo que lhe chegava à melena namorada do nariz e frisava, Mas provei-as! O velho esqueceu-se de uma; era encarnadinha e redonda que parecia mesmo um coração. Tão docinha! E nós impressionados dele e da cereja, mas sem lhe conhecer o gosto. É assim o palavreado, um gosto que não é, se a experiência ausente.
Quantos anos medearam até provarmos cerejas! Tantos. Enquanto esperávamos, a cerejeira do pomar envelheceu, deixou de dar frutos e os espanta pardais lá no cimo, desconcertados e tortos, cada vez mais desconjuntados, que fazemos aqui?! Mas Deus esquecido das quatro estações mais seus efeitos na cerejeira do pomar. Deus talvez atento a outros lugares, talvez revendo-se no espectáculo de milhões de flores nas cerejeiras novas que tanta falta fazem às abelhas, cujas muito nos faltam a nós. Deus absorvido no pormenor dos recomeços.
Só na nossa memória colectiva as cerejas surgem de cambulhada com uma lição do livro de leitura e uma cerejeira que alguém deitou ao lixo ou queimou num inverno de lareira. Essa é a nossa cerejeira. Enlaça-nos em cada estação. E onde um dia regressaremos. Talvez. Entretanto, hélas!, vamos comendo cerejas.
Já plantei uma cerejeira num terreno... hoje tomado pelas silvas! A minha cerejeira dá cerejas para a passarada e pólen para as abelhas e eu... não consigo ver tudo isso acontecer! Bj Bea
ResponderEliminarMas vê outras coisas, Gracinha. Acompanha a família, mima a neta, dá grandes e belos passeios cujos, graças a Deus, se lembrou de reportar fotograficamente e acredito dêem ideias e bons momentos a quem passa como eu. As cerejeiras estavam proibidas na nossa quintinha pequena.
ResponderEliminarBom fim de semana, Gracinha
Bj e boa semana
EliminarNas raízes da sua infância, e da cerejeira desaparecida, surge uma história muito interessante e, apesar da fuga esgalgada do Faísca, percebemos o gosto pelo fruto proibido. Lembro-me da minha mãe dizer que caiu abaixo de uma cerejeira quando tinha 8/9 anos, na aldeia. Portanto há tanto ano... Eu limitava-me a comê-las e a fazer brincos. Agora, já escrevi sobre isso, faz-me confusão que sejam distribuídas pelos camiões, vindas não sei de onde. Não sei se gosto mais das flores se das cerejas.
ResponderEliminarAbç Bettips
Só vi cerejeiras em flor na tv e em filmes. Não tenho qualquer memória da tal cerejeira florida; nesse tempo, as flores não nos interessavam, era período que ignorávamos na vida da árvore.
EliminarUm abraço, Bettips
Que leveza nesta canção da cerejeira, tão poética e harmoniosa — quase se sente o perfume das flores! 🌸 Um texto que acalma e inspira.
ResponderEliminar💜 Boa semana!
Com carinho,
Daniela Silva
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Cerejas só me fazem recordar duas indigestões muito violentas.
ResponderEliminarA minha avó materna e, muito recentemente, a minha mulher.
Boa semana
A cada um suas memórias, não é Pedro?
ResponderEliminarSuponho que as minhas primeiras cerejas tenham sido aquisição pessoal. Mas, ironias do destino, as que me ficaram foram aquelas da árvore, as que, talvez por ignorada miopia, nunca vi senão nas páginas do livro - havia um raminho com duas ou três cerejas e um pássaro (?) pousado (ignoro se estou a inventar a ave:).
Quem sabe se não gosto mais de cerejas por esse interesse antigo, se não mastigo no presente as cerejas do passado:). São um gosto, isso sim.
Bom Dia e boa semana
A infância, vista ao retardador, é quase sempre leve. A minha foi extraordinária e extraordinariamente feliz, mesmo se me debulhava em lágrimas, sinais de separação e significativas do amor que me preenchia a vida. Considero-as preciosas.
ResponderEliminarBom dia:)
Também me lembro muito bem da "Canção da cerejeira" que também sabia de cor, pois não tendo outros livros para ler, o livro de leitura da escola era para mim uma forma de ler alguma coisa.
ResponderEliminarQuanto às cerejas, gosto imenso de ver as árvores em flor e depois ver as cerejas nascerem e crescerem. Quando ia passar férias com o meu avô materno ele tinha cerejeiras com cerejas vermelhas, quase pretas e brancas carnudas. Era uma festa porque nós, (os meus irmãos e eu) às escondidas dele subíamos às árvores e comíamos até nos fartarmos. Adorei o seu texto como gosto de todos, minha Amiga Béa.
Uma boa semana.
Um beijo.
Temos boas memórias de cerejas e cerejeiras, não é Graça? E ainda gostamos de cerejas:).
EliminarBom dia, Poeta.
Não como cerejas, não lhes acho graça, mas gostei do início dessa canção. É que desconhecia totalmente mas agradou-me bastante.
ResponderEliminarBom dia
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Pois é, a Cláudia é uma jovenzinha por comparação connosco, os mais velhos. Havia um exemplar único, em todas as escolas se ensinava pelo mesmo livro. A canção da cerejeira estaria talvez no manual da terceira classe e parece-me que o texto era de Afonso Lopes Vieira (mas pode ser de outro autor que a memória já vai falhando).
ResponderEliminarQue pena não comer cerejas! São como as bochechinhas dos bebés, apetece dar dentadinhas. A quem gosta delas, claro.
Que hortelão antipático! O que é que lhe custava oferecer umas cerejinhas às crianças? Pelo menos uma vez...
ResponderEliminarDe certeza que a cerejeira ficaria feliz!
Adoro cerejas, das portuguesas!😋