Quando criei este blogue – já não sei se este, se outro que tive e perdi no inúmero volátil das palavras -, propus-me a um optimismo que não me pertence: escreveria sobre assuntos diversos de amarguras e tristezas, faria uso de termos e sentidos edificantes como tanto leio noutras janelas onde passeio e daí que por detrás suponha pessoas extraordinárias, condição a que nunca acederei; elas não se desnudam, escrevem sobre o mundo; e o que pensam é invariavelmente muito à frente do que eu mesma sei ou imagino. Os seus propósitos são próximos ou coincidem com o dever ser. Dão-me a ver gente de boa índole mental. Que tudo o resto, e mesmo isso, é um “supônhamos”.
Regressando ao assunto, propus-me discorrer criticamente sobre aquilo que menos me move neste meio: os desmandos e deformações do mundo em geral, mais a loucura de seus ocupantes. E, óbvio, contava histórias. De tudo que me propus, o que mais fiz foi contar histórias; e dessas, também a minha. Devo ser a pessoa (ou das pessoas) que mais se desnuda na escrita. Talvez me invente um bocado: a família não crê em quase nada do que digo, se conto factos que não presenciaram. Este anátema persegue-me, ainda que seja verdade integral, levam tudo por conta do meu imaginário. Parece agradável? Não é. Negam-me verdades à descarada; e desdizem-me peremptórios, afirmam mesmo não terem dito o que disseram e tenho presente. “Inventaste!”, é escolho que serve muito tema e sempre me pica.
Uma das manas proibiu-me sem delicadezas a repetição: “já contaste isso, por que é que não te calas? Tens esse hábito de contar tudo mais de uma vez e com todos os pormenores, assuntos que não interessam nada”. E eu, cordata e sob o silêncio geral, prometi que não conto mais e vou ter cuidado com as repetições. Mas fico a pensar em quantas vezes ouvi dela as mesmas histórias e nem aflorei que já as ouvira. Porquê? Por achar natural que tal aconteça; avalio serem assuntos que a moem e se tornam mais leves se os contar de novo; ou penso ter-se esquecido que já os sei e ouvi-los não me faz, sinceramente, qualquer diferença (por temperamento é mais calada que eu, se conta, quase agradeço). Embora dentro da esfera familiar, manifesta-se sempre publicamente e fico um bocadinho sem reacção; fiz por ela o mais que consegui e voltaria a fazê-lo se fora necessário. Falar demais será defeito meu a que a circunstância dá uma mão – gasto a maior parte dos dias sozinha. Creio que também ela envelheceu, que a vida lhe foi difícil e a idade a está fazendo intolerante aos defeitos e feitios de cada um. Não duvido que me estime, embora sempre tenha pensado – quiçá orgulhosa e erradamente – que gosto mais dos meus amores que eles de mim. E um destes dias disse-me, de novo em família alargada e quando interrompi uma conversa para contar algo a propósito, “tu és sempre assim, também já te aconteceu tudo que contamos e tens sempre que meter a tua história, mas ninguém te perguntou, por que é que te metes? Tens esse defeito.” Respondi que tal observação me desagradava, mas, calmamente, dei-lhe razão e fiz, faço e farei propósito de emendar o comportamento. E ela – na presença dos vários e mudos terceiros -, nem entendo por que é que te aborrece, eu gosto que me digam os meus defeitos, assim posso emendar. Pensei que ora me encontra e expõe defeitos em demasia (há outros que não vale a pena citar) e que sem eles eu seria uma perfeição de pessoa, o que não me interessa um chavo.
Acontece ter posição diversa: levo-lhe as características (as que me parecem menos agradáveis) à conta do respeito pela sua maneira de ser, e julgo haver muito mais para admirar nela; portanto, aceito sem crítica. E pensei ainda que, desde a adultícia, nem uma vez a critiquei; será ela perfeita?! Ou erro de novo em não criticar aquilo que é nela mais característico e nem considero defeito, embora não aprecie grandemente?! É que não sei mesmo. Sei o que não farei. Posso aconselhar isto ou aquilo. Não tenho arte para mais.
Portanto, vou ter cuidado na sua presença: não lhe interrompo conversas com achegas ou histórias e tento não repetir nada. Prometi. Cumprirei enquanto conseguir morigerar-me. É mais um cuidado dos tantos que já tenho – cada dia nos tornamos menos livres no contacto com os mais próximos; se calhar tem que ser assim mesmo. Vamos acabar mudos como texugos (serão mudos, eles?!)
A idade transforma-nos. A mim debilita-me o físico e pelo visto, faz-me ainda mais faladora do que sempre fui (queria morrer gasta - encontro-me em processo de aceleração contínua). A outras pessoas debilita a mente. A uns torna débil a paciência. Outros tornam-se intolerantes à lactose e a terceiros. Sabemos lá nós para o que estamos guardados! Urge encontrar um meio termo entre a liberdade que nos falta e o respeito pelo que os outros desejam que sejamos. Viver é complicado até ao fim. Mas, já perto do final, aprendemos coisas que gostaríamos de ignorar:))
Beijinhos e desculpem o desabafo
Nota: tenho a gata adormecida a meus pés. Só (n)as madrugadas nos pertencem(os).
Após ler a falar nas repetições e histórias... pensei no meu avô.
ResponderEliminarEle tinha sempre uma história da vida dele para contar. Agora já se perdeu isso tudo.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Não se perdeu, Cláudia. Ficou a memória dele contando as histórias do seu tempo. Está a ver como logo a lembrei do avô de que tanto gosta?! Então...quem sabe se algumas das suas histórias antigas não interessam um dia ao Tomás?! Tenho um filho que só agora (40 anos) acordou para a vida dos avós e bisavós maternos. Fica atento às respostas que damos, às peripécias que contamos...viver é também este restrito perpetuar de memórias familiares.
ResponderEliminarUm beijinho aos dois
A vida não é nada complicada.
ResponderEliminarAs pessoas são complicadas.
E gostam de complicar.
Pode ser verdade, mas o que seria a vida sem as pessoas?!
ResponderEliminarBom dia, Pedro
A vida podia ser bem mais simples....mas as mentes humanos não o permitem, infelizmente.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
Foi sempre assim, Isa. Ou não?! Somos cada vez mais os mesmos em alguns maus sentidos. E sempre que a loucura mandou no mundo ou em parte dele, deu mau resultado; e por acaso aprendemos?
ResponderEliminarBoa noite
As famílias são os lugares mais complicados, mas também os mais acolhedores. Desde crianças que nelas nos esgadanhamos, mas também são elas que em geral, que nos ajudam a curar as feridas que a vida nos faz. Se delas saímos longas temporadas temos saudades, se estamos muito tempo dentro delas temos necessidade de arejar . Mas a família é sempre o último lugar a abandonar...
ResponderEliminarUm abraço Bea!
É como dizes, Prosa. Esse é mesmo o dever ser da família. Não tive (nem estive) longas temporadas longe da minha; cultivo a proximidade sem exageros (julgo) e, em época estival, estreitamos laços que, por motivos de vária ordem, são, nesse tempo de lazer geral, mais propícios. Orgulho-me dela e penaliza(o)-me sempre dar de frente com uma parede na qual, convenço-me, também eu ponho ou pus cimento e tijolo. Talvez seja parvidade minha a importância que me dou ao assumir os meus irmãos como se filhos, sentindo em dobro o que neles como em todos nós é menos bom. Mas passa:). Porque o afecto tem voz de altifalante, embora a memória que me pertence seja castigadora.
ResponderEliminarBom dia para ti, Prosa:)
Bea... conte e reconte pois faz com mestria a escrita de prosa que tem sabor a poesia!
ResponderEliminarEu sou do modo "silencioso" mas em família sou "brejeira", se bem que já o fui muito mais! A família foi herdada, nem sempre a mais desejada...mas, em prole dela, tenhamos momentos felizes!!! Bj
Eu gostava de ser brejeira, Gracinha. Mesmo que fosse só em família. Acho que são pessoas mais divertidas e com quem apetece estar. Não são fáceis de esquecer:). Mas sou só faladora; para alguns, uma boa contadora de histórias; para outros, como já mo fizeram saber, uma chata que se quer fazer notada até sem dar por isso (decerto terá a sua verdade).
ResponderEliminarQue não fiquem dúvidas: gosto um imenso dos meus irmãos. Não os escolhi, mas nenhum dos meus amigos vai além do amor que tenho por eles. E sim, temos e tivemos juntos vários momentos felizes. Hoje, dia da despedida da minha princesa particular, vai haver mais um:). Vou moderar-me:).
Bom fim de semana, Gracinha