Meu
pai sofre de amor cativo pelas nossas laranjeiras. Desde sempre. Lembro-me do
acidente em que partiu os ossos da bacia, da cama de tábuas em que permaneceu
durante quarenta dias, da casa cheia de homens, uma vozearia a ecoar e garrafas
de cerveja preta e branca que deixavam à beira da cama quase timidamente, boné
na mão mal entravam. E lembro-me de, esgotada a quarentena, ter rumado ao
hospital para a radiografia que daria razão ao médico ou a minha mãe. Partiu
deitado naquela espécie de padiola, o amigo a desmanchar os bancos do carro
para que coubesse. E sei que voltaram à tardinha, ele já sentado e minha mãe serena.
E nunca esquecerei que saiu do carro e rumou ao laranjal que adolescia, a
camisa branca alvejando por entre o vulto redondo e escurecido das árvores. Pernas
ainda trôpegas de tamanha inacção, correu-as a todas como namorado, a respirar-lhes
o perfume, feito apaixonado saudoso. E, enquanto elas maturavam, muita coisa mudou.
A vida deu suas voltas. Crescemos.
Quando
a doença voltou a fazer das suas, já sem minha mãe a cuidá-lo, foi obrigado a
aceitar o hospital. Na hora da visita perguntava-me, as laranjeiras?, eu respondia,
estão bonitas, este ano têm muita flor, a gente não as deixa passar sede. E quando
regressou, na mesma hora deitou mãos à obra e começou a mimá-las. Vê-lo com a enxada junto ao tronco de cada uma
era de tal ternura e saber que comovia. Lembrava mãe que ajeita os lençóis ao
filho antes de adormecer. Parecia até gostar mais delas que de nós.
Mais
tarde, quando os netos recém nascidos, pegava-os no colo, embrulhava-os na samarra e ia apresentá-los
às árvores. Mãos desajeitadas mas cuidadosas, mostrava-lhes o seu palácio
vegetal; e os garotos, olhos de repolho em tanto embrulho, que pensariam.
Quanto a ele, impava de orgulho: no rebento e no palácio.
Envelheceu.
Custa-lhe andar, erguer os braços, falta-lhe a força. Mas vai ainda à visita diária.
Cumpre o ritual. Tenho para mim que sempre lhes contou segredos invioláveis e a
que somos estranhas. Gosta de arrancar uma laranja, descascá-la e comê-la logo
ali. Sabemos onde pára, as cascas delatam-no. As ervas são altas e, onde passa,
vai desenhando caminhos. Entre ele e as laranjeiras há uma relação de
fidelidade e pertença mais impoluta que em casamento de amor crescente. Meu pai
é ele e as laranjeiras.
Portanto,
nada como estar à beira delas a celebrar o Dia do Pai. Não há melhor cenário.
Chega-me aqui o cheiro da laranja, essa descascada e comida junto à árvore. :)
ResponderEliminar:)))) Há assim uma troca de mimos entre ele e as laranjeiras. Suponho que, em cada vez, ele condescende em comer um fruto e ela se enche de contentamento pela comunhão.
EliminarBom Dia, Luísa.
Neste cenário coloco a minha mãe e hoje sou eu que colho as laranjas e me inebrio com o aroma da flor e o sabor das laranjeiras que minha mãe plantou!!!
ResponderEliminar👏💙
Retifico...das laranjas...🤭
EliminarÉ uma herança e tanto, Gracinha. Vamo-nos aproximando da terra e suas maravilhas, não é mesmo?
EliminarBom Dia, Gracinha.
Adorei.
ResponderEliminarSou apenas a fotógrafa do retratado, sinu.
ResponderEliminarBom Dia.
O meu pai passou o Dia do Pai no hospital.
ResponderEliminarEstá triste, desanimado.
Mas vai vencer mais esta prova da vida.
Boa semana
Não foi a melhor forma para viver o dia. Mas a vida não se compadece e limita-nos as escolhas. Oxalá seu pai recupere rapidamente e diga para o ano, Lembras-te onde passei este dia no ano que passou. O dia dos pais e dos filhos é sempre, quando se encontram e quando não; em família que se estima, moram na mente uns dos outros como peças da mesma máquina.
ResponderEliminarBoa semana, Pedro.
Texto delicioso e imaginei tudo. Acho que consegui =)
ResponderEliminarBeijocas
Uma sorte imensa ter assim um Pai. E ele ter uma filha que consegue dar-lhe e explicar "a grandeza das laranjeiras". Lembro as palavras de Saramago sobre a sua Avó Josefa e comovo-me da mesma forma, aqui e lá.
ResponderEliminarQue bela maneira de recordar o pai no dia que lhe é consagrado!
ResponderEliminarBeijinhos