sábado, 19 de março de 2022

Meu Pai

 

Meu pai sofre de amor cativo pelas nossas laranjeiras. Desde sempre. Lembro-me do acidente em que partiu os ossos da bacia, da cama de tábuas em que permaneceu durante quarenta dias, da casa cheia de homens, uma vozearia a ecoar e garrafas de cerveja preta e branca que deixavam à beira da cama quase timidamente, boné na mão mal entravam. E lembro-me de, esgotada a quarentena, ter rumado ao hospital para a radiografia que daria razão ao médico ou a minha mãe. Partiu deitado naquela espécie de padiola, o amigo a desmanchar os bancos do carro para que coubesse. E sei que voltaram à tardinha, ele já sentado e minha mãe serena. E nunca esquecerei que saiu do carro e rumou ao laranjal que adolescia, a camisa branca alvejando por entre o vulto redondo e escurecido das árvores. Pernas ainda trôpegas de tamanha inacção, correu-as a todas como namorado, a respirar-lhes o perfume, feito apaixonado saudoso. E, enquanto elas maturavam, muita coisa mudou. A vida deu suas voltas. Crescemos.

Quando a doença voltou a fazer das suas, já sem minha mãe a cuidá-lo, foi obrigado a aceitar o hospital. Na hora da visita perguntava-me, as laranjeiras?, eu respondia, estão bonitas, este ano têm muita flor, a gente não as deixa passar sede. E quando regressou, na mesma hora deitou mãos à obra e começou a mimá-las.  Vê-lo com a enxada junto ao tronco de cada uma era de tal ternura e saber que comovia. Lembrava mãe que ajeita os lençóis ao filho antes de adormecer. Parecia até gostar mais delas que de nós.

Mais tarde, quando os netos recém nascidos, pegava-os no colo, embrulhava-os na samarra e ia apresentá-los às árvores. Mãos desajeitadas mas cuidadosas, mostrava-lhes o seu palácio vegetal; e os garotos, olhos de repolho em tanto embrulho, que pensariam. Quanto a ele, impava de orgulho: no rebento e no palácio.

Envelheceu. Custa-lhe andar, erguer os braços, falta-lhe a força. Mas vai ainda à visita diária. Cumpre o ritual. Tenho para mim que sempre lhes contou segredos invioláveis e a que somos estranhas. Gosta de arrancar uma laranja, descascá-la e comê-la logo ali. Sabemos onde pára, as cascas delatam-no. As ervas são altas e, onde passa, vai desenhando caminhos. Entre ele e as laranjeiras há uma relação de fidelidade e pertença mais impoluta que em casamento de amor crescente. Meu pai é ele e as laranjeiras.

Portanto, nada como estar à beira delas a celebrar o Dia do Pai. Não há melhor cenário.

12 comentários:

  1. Chega-me aqui o cheiro da laranja, essa descascada e comida junto à árvore. :)

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    1. :)))) Há assim uma troca de mimos entre ele e as laranjeiras. Suponho que, em cada vez, ele condescende em comer um fruto e ela se enche de contentamento pela comunhão.
      Bom Dia, Luísa.

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  2. Neste cenário coloco a minha mãe e hoje sou eu que colho as laranjas e me inebrio com o aroma da flor e o sabor das laranjeiras que minha mãe plantou!!!
    👏💙

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    1. É uma herança e tanto, Gracinha. Vamo-nos aproximando da terra e suas maravilhas, não é mesmo?
      Bom Dia, Gracinha.

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  3. Sou apenas a fotógrafa do retratado, sinu.
    Bom Dia.

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  4. O meu pai passou o Dia do Pai no hospital.
    Está triste, desanimado.
    Mas vai vencer mais esta prova da vida.
    Boa semana

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  5. Não foi a melhor forma para viver o dia. Mas a vida não se compadece e limita-nos as escolhas. Oxalá seu pai recupere rapidamente e diga para o ano, Lembras-te onde passei este dia no ano que passou. O dia dos pais e dos filhos é sempre, quando se encontram e quando não; em família que se estima, moram na mente uns dos outros como peças da mesma máquina.
    Boa semana, Pedro.

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  6. Texto delicioso e imaginei tudo. Acho que consegui =)

    Beijocas

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  7. Uma sorte imensa ter assim um Pai. E ele ter uma filha que consegue dar-lhe e explicar "a grandeza das laranjeiras". Lembro as palavras de Saramago sobre a sua Avó Josefa e comovo-me da mesma forma, aqui e lá.

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  8. Que bela maneira de recordar o pai no dia que lhe é consagrado!
    Beijinhos

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