domingo, 21 de julho de 2024

Encantamentos

  Estava no mesmo lugar, tão calma e linda como ela só. Repito-me, mas em cada vez é a vez primeira no amor que lhe dedico. Não é entusiasmo, nem um agrado simples, é razão que aviva o meu ser mortal. Penso nela em todas as estações, lembro-a saudosamente em dias não; no estio,  anseio a leveza dos seus abraços molhados e marco no calendário os dias da semana em que a visito. Se me chega a insónia, apetece-me a simbiose única que mantemos e me alisa os refegos da alma dissipando nebulosas, nódoas negras e o mais. Como se já não bastassem os nós que vamos dando e nos enredam a vida, os anos trazem de presente mazelas que nos recordam o encurtar desmedido dos limites. Porém, na sua presença tudo mingua e se retrai a ínfima proporção. 

Contemplá-la do alto da escadaria é pura maravilha. Vejo-a e sou feliz por antecipação. Esperam-me horas e horas de prazer, por acaso - ou não -,  bastante monótono. Apanhar sol e ler - ir à água - apanhar sol e ler - ir à água. O que eu sonho com este repete, repete, repete. É um facto: trazer companhia tem prerrogativas e serve de interrupção. Mas a identidade do gosto cumpre a sequência.

Este ano a espera foi tão longa que nem olhei as árvores costumeiras, não notei as que morreram e mesmo mortas persistem na vigília, olham sem ver a fita de alcatrão, alentejana de gema no "sempre em frente" do caminho. Reparei nas cegonhitas novas e desabrochadas, armadas em donas da casa, olhando a mutação do mundo em quieta placidez. Para trás deixaram os dias de bico laranja em vê escancarado  e o novelinho que mal se enxergava a sustentá-lo, uma diligência de asas a rodeá-las em voos de cuidado. 

            As cegonhas da beira de estrada medem-me o tempo. Sei por elas se adiantei ou atrasei viagem. Perdi a avioneta da cura e a praia só mosquinhas e outros bichos microscópicos que conseguem fugir-lhe e chateiam pele e paciência fazendo teias em tudo que encontram, até na pala do boné ou no laço do chapéu; e mesmo nas nossas pestanas se o consentirmos ou adormecermos.  São pragas que a força dos químicos afugenta dos arrozais e tomatais e mais culturas em ais (provavelmente). Rainhas contra vontade, ordenam o que não pertence. E, heureusement, perdi os buracos no alcatrão, a estrada apetece. No meio do verde, um alto pinheiro morto, carregado de pinhas. Tão alto e tão morto. Talvez a morte também escolha as árvores. Imagino-a céptica e sinuosa, a mirá-lo, a sentir-lhe o orgulho de líder na altura impávida e frutificada. E ela vingativa,  indicador esquálido e determinante, este.

Porém, a morte das árvores é cada vez mais determinada pelos humanos. E há demasiada morte a fugir à contingência natural. A morte criminosa. Sofrida por árvores e homens, falha do respeito pela vida, doação inexcedível. Não lhe existe critério válido. Posta ao serviço dos vendilhões do Templo-Terra.


12 comentários:

  1. Encantamento é ler este seu texto maravilhoso. Pareceu-me estar a assistir a um filme. Já dizia Eduardo Lourenço que é como leitores que somos literatura, paisagem invadida, submersa, iluminada por todas as emoções, sentimentos, angústias e alegrias. Senti consigo o que sente sobre a morte das árvores e pude ver as cegonhas à beira da estrada.
    Tudo de bom.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. Estão lá, as cegonhitas de olho alerta, todas charme estatuário. Eduardo Lourenço era um querido que, ao cruzar-nos em concertos da Gulbenkian, nos brindava com sorriso tão brando e afectuoso que mais parecíamos velhos conhecidos. Um homem sábio que gostava das pessoas.

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  3. Tinha feito aqui um comentário que os meus dedos atrapalhados fizeram desaparecer. As notas são aleatórias, como cada uma pensa e propõe, semanalmente, no Palavra Puxa Palavra. Assuntos, palavras, ideias. Muitos ou poucos andamos por esse blog de uniões desde 2006!!! Até deu tempo para a gente se conhecer ao vivo.
    Bom que tenha encontrado o lugar, assim, o que gosta e o que sonha tanto tempo antes. As cegonhas são umas queridas, sempre as saúdo, feliz por ainda andarem por cá. Algumas já nem emigram, a gente agradece a perseverança. Abç

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  4. Na igreja mais antiga da minha cidade-vila as cegonhas têm ninho cativo, tal como noutros lugares/edifícios altos desta terra rasteira. Em Alcácer são uma constante. Conheço-as de sempre, desde o tempo de vê-las e não as pensar nem em mim terem um nome. Na infância, os verões eram de asa aberta parada no azul e nós esparvecidos da inesperada lonjura de asas de que as cegonhas puxavam com a naturalidade do mágico que tira pombas da cartola. Misterioso mundo esse.
    Boa noite, bettips

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  5. Que descrição maravilhosa.
    Belo texto :)

    Beijocas

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  6. Olá Cláudia. Falar do que se gosta é fácil e sai melhor, não é mesmo?
    Um abraço

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  7. Que tocante declaração de amor que fazes à tua praia!!!
    Mas todo o texto é puro encantamento!
    Um grande abraço poético!

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  8. Obrigada, Prosa. Não sabe de mim, mas gosto muito dela na mesma.

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  9. O problema é mesmo esse: o homem é o primeiro predador de si próprio.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  10. Não vamos ser capazes de suster a queda, Juvenal. Palpita-me que o planeta vá continuar sem nós. Não sei quando nem como.
    Bom domingo

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  11. Infelizmente estamos a destruir o BELO... o SAUDÁVEL... os VALORES e damos connosco a pensar o que será que vai acontecer num futuro próximo! Gosto de cegonhas... 👏👏👏😘

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