De
quando em vez, resolvo dar uma sacudidela nesta minha vida de alentejana pasmada.
Num desses estremeços, lembrei-me de espreitar – de novo - os cursos do Corte
Inglês. E é que me inscrevi e, pela primeira vez, fui seleccionada. Duplamente.
Para um curso e uma conferência. O curso foge um tanto à área que prefiro, mas
a conferência “O Bem e o Mal” foi tiro no porta aviões.
O
conferencista era Miguel Real. Dele sabia apenas ser formado em filosofia e que
escrevia livros. De acordo com a informação constante na breve biografia, o meu
saber era muito restrito. Não li nada deste professor, não sabia a idade e julgava até que
fosse jovem (jovem para mim é alguém à volta dos 40 anos; abaixo, estão crianças
mais ou menos crescidas). Mas gosto de surpresas; portanto, não li a dita
biografia e mantive a imagem, acrescentando-lhe mesmo um bocadinho de prosápia
vaidosa.
Como sou nova nestas andanças do Corte Inglês - em boa verdade só lhe conheço as salas de cinema - cheguei a horas. Chovia e o professor atrasou. Uma senhora capa de revista - espécie feminina competentíssima, das que nunca desmancha o sorriso face a um cliente ainda que ele lhe peça a lua - dava o aviso quando, ah, o professor já aí vem. E ficámos a apreciar aquela sorridente transpiração de elegância a fazer sala junto ao micro.
Fui obrigada a concluir que o meu imaginário figurativo é um asno da pior espécie. O que nos apareceu foi um senhor velhote, três caracóis e meio arrelampados, como quem se perdeu na dispersão do vento e esteve vai não vai para voar. Um todo frágil que a voz não desmentiu e o fazia simpático. E depois aconteceu a magia que só alguns professores sabem criar, encantou. Encantou escrevendo no quadro que não prestava, esquemas que também não eram grande coisa. Mas encantou. E sou a melhor pessoa para escrevê-lo e não é a vaidade a comandar-me. O professor analisava o Mal ao longo da vida da filosofia ocidental e nada do que disse foi novo para mim ( a questão do Bem, para minha desgraça, já tinha sido esmiuçada em sessão anterior). Levou-nos por caminhos que conheço, extirpando escolhos intectualóides. Mostrou-os mais límpidos do que os aprendi, consciente que dissertava para um universo não necessariamente familiarizado com as teorias. Era quase terno olhar os seus esquemas naquele quadro de nefasto minimalismo, tão desprotegidos que, por si mesmos, não eram quase nada. À vista disto, insinuava-se-me o impulso de ajudá-lo, ir lá apagar-lhe o quadro, por exemplo. O bonito, o verdadeiramente belo, era o que sentíamos estar por detrás do que dizia e deixava entrever. Tinha algumas folhas de apontamentos que consultava uma vez por outra, como quem já não confia em absoluto na memória (quanto o entendo) e até se perdia um pouco nelas e delas. Nesses momentos, voltava-me a vontade de ajudar e ir lá procurar por ele. Mas foi de mestre a forma como encadeou as várias noções de Mal e o que nelas pôs de sua lavra. Ouvi-lo era sentir que havia no discurso dois tecidos. Uma trama primeira, forte e bem urdida, que não entrevíamos senão uma vez ou outra, por entre o que, na nossa frente, ia bordando.
E
é claro que quando Miguel Real disse que ficava por ali pois devia estar perto
da hora de terminar, já passavam trinta e cinco minutos. O tempo cavalgara veloz, sem que alguém desse por ele. No meu caso, esqueci completamente que sou um ser temporal, e ali ficaria longamente. Acamparia de vontade. Por certo me sentia como na situação das escrituras, quando, vivendo o indizível prazer do momento, um discípulo sugere a Cristo, "Façamos aqui três tendas..."
Aparte
ligeiramente pateta (bisbilhotice): mais ou menos na minha frente estava uma figura conhecida
ladeada, possivelmente, por mulher ou namorada. Lembrou-me um filme que
vi, talvez “Amigos improváveis”, e em que pontuava um tetraplégico cujas
orelhas – se não erro – eram a sua única fonte de prazer. Pois não é que a senhora esteve
que tempos a manobrar com mestria a orelha da dita figura conhecida, que toda se derretia. Digo-vos que baixei os olhos para o caderno,
sentia-me a violar a intimidade do casal.
Gosto dele, da simplicidade e do conhecimento. Uma vez estive lado a lado, ambos a falar sobre Sebastião da Gama, ele claro, incomparavelmente melhor...
ResponderEliminarRepito: encantou-me.
ResponderEliminarBoa noite, CC.
Não conhecia Miguel Real nem estas iniciativas do C.I. Ele ficará feliz, por certo, com o seu post tão atento, inteligente e divertido. Continue, Bea, estas sacudidelas que também chegam a outras direções. E bem precisas são.
ResponderEliminarUm bom domingo
Segundo entendi também há iniciativas do mesmo teor no Porto. Miguel Real não sonha que existo, o que não me faz diferença nenhuma. Mas é um prazer ouvi-lo. Enriquece-nos. Saí contente da conferência:).
EliminarBoa semana, Maria
Que bom saber que o "mal" se transformou num momento tão encantador para a Bea! Há pessoas realmente especiais na arte de comunicar e esse professor será certamente um deles.
ResponderEliminarÉ como diz, Dulce, um professor que é uma pessoa especial. O mal, filosoficamente falando, não é assustador. Pertence-nos. Como dizia Kant, é um mal radical e de que não nos livramos.
ResponderEliminarBoa semana
Adorei a descrição do Sr... Eu ri :)
ResponderEliminarParece encantador, só pela maneira como foi descrito =)
Beijocas
É mesmo um encanto para quem não aprecia gente metida a não me toques. Tem um bocadinho de Einstein:).
EliminarBoa semana, Cláudia
E também há o mal de tanto bem querer ou como diz o seu Lobo Antunes "uma pessoa quase quer mal à outra por gostar dela."
ResponderEliminarUm bom comunicador é meio caminho andado para uma palestra ou uma aula ou uma simples conversa interessantes. E é um dom, não se aprende.
Pois muito me alegra de vê-la em grande actividade cultural, desconhecia completamente esses cursos e conferências. Sabe que viver perto de onde tudo acontece tem o inconveniente de esperar que tudo caia do céu sem procura.
Os munícipes de Sintra não pagam entrada no Palácio de Queluz ao domingo de manhã: sabe quantas vezes lá fui?
Uma boa tarde Bea e diga lá em que curso se inscreveu.
Conhecia Miguel Real dos livros que dele li e considero-o um escritor de bom nível.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Ainda não experimentei lê-lo, mas a conferência espevitou-me para:).
ResponderEliminarBom dia, Juvenal
Também não li nada de Miguel Real!!!
ResponderEliminarBj Bea
Bom, em tempos, e porque vi o título nas livrarias, estive para compra "A nova teoria da felicidade", categoria em que pouco creio, mas fiquei curiosa. E, contudo, alguém me emprestou "O último minuto na vida de S". Afinal, agora que fui verificar todos os títulos, tinha lido um livro de Miguel Real. Não me deixou impressão particular.
ResponderEliminarConhecer de passagem, pelos títulos e algumas intervenções na rádio, ou artigos avulso no JN?, porque não há vida nem tempo para tudo! E muitas vezes os nossos vão ficando fora das manchetes, da atenção até, defeito tão português de dar mais importância aos de lá de fora. O que achei muita-muita graça foi à descrição da Bea: do professor-filósofo, do sentido da conferência, e das coisas/pessoas à volta. Genial, acho que me sentei por ali, embebida nas palavras e divertida nas lateralidades que tão bem descreve. Abçs
ResponderEliminarÉ até com pena que sublinho: não há vida nem tempo para tudo. E não sei bem o que sentem outros em relação ao tema. Suponho que existam duas nítidas vertentes. Uma é a necessidade de o sujeito não se desligar da realidade a que pertence, gastando nela a maior fatia de tempo - o contacto directo com o mundo e os outros comporta o peso e a leveza da relação e exige tempo. Outra, a ausência de depuração que envolve essa realidade pessoal, o que contém de dispensável e que empata, mói; por vezes, retira até o apetite do que gostamos de fazer.
ResponderEliminarJulgo, bettips, que, em Portugal - e não sei se também noutros países -, a fama é, para quem dela beneficie em algum momento, situação efémera. E que existe uma confusão entre o momento passageiro que radica na própria natureza da fama de que se beneficia, e a fama daqueles que são exemplo a qualquer nível, e deram ao mundo um contributo substantivo. É a actividade do sujeito que determina o tipo de fama que tem, mas ambos caem no esquecimento, ultrapassados por novas efemérides. Tratados como cometas, parecem os siameses que não são. O que move uns não é o que move outros e nem os produtos obtidos são os mesmos. Contudo, não são eles quem mais perde com o olvido a que são votados. Somos nós os grandes perdedores.
Bom dia