sábado, 11 de maio de 2024

No Museu

  Depois de uma semana horribilis, um prémio. Digo que uma tarde no  museu sabe bem. Sabe sempre bem rever o Museu Gulbenkian. Uma vez por ano cumprimentamo-nos cortesmente, que o laço não dá para mais. É um silêncio de luxo e luxuoso. De luxo porque numa cidade grande, cheia de gente apressada, quase toda abotoando a pressa de estar indo a lugar imprescindível, é, além de exigência natural, uma necessidade: enfim, um sítio silencioso, pacífico e com pouca gente (entendo bem o facto de uma certa criança que desconheço e muito cito, o ter declarado "aborrecente"). Luxuoso porque todas as salas são revestidas a mármore. Cal?! É quase uma obscenidade pensá-la ali ao vivo, que nos retratos está bastante bem tirada.  Mas é que nem tinta, nas paredes há mármore e mais a sua claridade (do que minha exclamativa tia, se a visse, contaria em casa, "tão clarinho! uma pedra fina de verdade, brilha que nem espelho". E digo eu agora, o chão compõe-se de  lajes que igualam as paredes.  Ou, talvez para não cansar os olhos da clientela, também pisamos madeira envernizada que não me pareceu aquilo a que se chama, vá-se lá saber porquê, "chão flutuante", até hoje não dei por ninguém feito nenúfar. Mas pode ser que haja. Efectivamente.

Paguei nove euros por uma hora de silêncio vogando ao sabor do percurso e a reparar em pinturas, tapetes, mosaicos, loiças, peças de mobiliário e mais que não recordo. Vale a pena. A Fundação deve ter empobrecido, coitada. Ou, como acontece mundo fora, fizeram maus negócios e agora as benesses que tínhamos, foram praticamente retiradas. Antes, entrava na primeira sala do CAM e embasbacava logo ali: não pagava; podia, sempre que me apetecesse,  revê-la. Depois, esperei que tempos pela retraite porque pagaria meio bilhete, e o desconto foi de 30% (os 50%, já tinham ido à vida). Agora dão-me 10% como qualquer FNAC ou Bertrand, ou talvez ainda outras livrarias. Conclusão, a fundação está pobre. Mas, por agora, isso não interessa nada porque cirandei por lá com o mesmo gosto. E portanto vi claramente visto o rei Filipe IV, nosso terceiro a quem recambiámos a de Mântua numa delicadeza ao sexo feminino, porque o Miguel morreu de morte macaca: defenestrado, imagine-se. Estive pois reparando em pormenor o excesso de brocados e transparências rendadas que ataviavam Sua Alteza. E do que li sobre, imaginem o que me ficou: a pintura foi feita um bocado à pressa, num estúdio improvisado, porque o rei, que se encontrava a combater a revolta da Catalunha, queria por força enviar a sua pessoa em tintas e trabalho de pincel a  uma missa que se celebrava em Madrid. Lembrou-me logo S. João Bosco (sou apensa a santos e igrejas) que, estando a dar uma aula, e tendo de se ausentar, disse aos alunos "tenho de sair, mas o meu chapéu fica aqui, vejam lá o que fazem". E eles que amavam o santo -  santos são pessoas muito amoráveis -, obedeceram. 

Graças em grande parte à revolta na Catalunha, tivemos a nossa primeira revolução (1640); a missa ganhou um retrato decerto exposto em pedestal;  e o rei, que não era propriamente um adónis, preferiu essa pintura a qualquer outra das várias que Velasquez executou de sua alteza real (não ficou mais bonito que nas restantes). Sobre o tipo de pincelada, as cores, a importância do fundo, o destaque dado aos objectos de poder e demais enredos desses, pouco sei. 

Conto o resto noutro dia, ok?

2 comentários:

  1. Gosto de lá ir, ao jardim, para passear e tirar fotos, ver os patos :)

    Raramente entro no edifício. Já quis ir lá ver um concerto, mas deixei passar a oportunidade.

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  2. Gosto da Gulbenkian, Cláudia. No seu todo.

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