terça-feira, 18 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Teresa não fizera amizades especiais na escola e nem nós, as vizinhas mais próximas, lhe dedicávamos grande atenção. Antes da sova, era conhecida por “pãozinho sem sal”, pessoa sem particularidade ou jeito saliente, que, em brincadeiras e jogos, não adiantava nem atrasava.  Mas a brutalidade materna, criticada até por progenitores de faiscante mão leve,  guindou-a aos píncaros do diz que diz. A coberto da lua nova,  a mãe fora por ela ao lar de Casimira e ficara dias a fio fechada em casa. Do que a velha lhe disse, nada constou, Casimira sabia ser tumular.

Na hora da chamada, ainda a professora não proferia o nome, já o coro, minha senhora está doente. Regressada, Teresa foi o centro das atenções. o círculo da morbidez infantil cingia-se aos sinais de maus tratos, pedaço de corpo onde campeasse inchaço ou nódoa negra era muito requisitado. No meio do círculo de cabeças e ombros  que se apertavam uns contra os outros dominava a atracção. Cheia de cuidados, Teresa tirava os óculos e entregava-os à parceira, põe na tua mala. Em círculo imperfeito e de estar inquieto, um passo atrás um passo à frente,  cotovelada à esquerda ou à direita,  guinchávamos, chega-te para lá, deixa-me ver; estás a tapar-me a vista, desvia-te um bocadinho. Fixando-nos com olhos desabituados, o olho preguiçoso e o olho bom, cada um contente do outro, a garota estendia os braços e as pernas apontando rubros e assanhados  arranhões pintados de mercurocromo. Mas não surtia. Precisávamos mirar  as negras, vasculhar na íntegra o mapa da judiaria materna, observar a carne pisada e já a esverdear, os mais imaginosos adivinhando rasto de sapato, olha ali onde ela assentou o bico, estás a ver.  E até, aqui e ali, se encontravam meias luas sangrentas, sinais inequívocos de ovaladas unhas. Que a filha do Pelinhos, quem não sabia ficou a saber, tinha mãos de senhora, não andava à monda e nem sabia mexer com ancinhos e enxadas.  Servira em casas de rico e logo embeiçara pelo pai de Teresa, rapaz galante e verborreico que se aprestava a alombar na moagem com os sacos de farinha, um saco vazio do avesso, dobrado a meio pelo comprimento  e enfiado na cabeça como carapuço que fazia cama às costas. O moço vivia dobrado numa poalha eterna, cabelo, pestanas e sobrolho de neve, mais branco que se demolhado em lixívia pura. A fazer fé nas más línguas, tinham fugido juntos porque “o galego” a engravidara. No excesso de conversedo, o que antes era segredo deixou de sê-lo e até nós as crianças ficámos por dentro da história, mau grado lacunas e situações que não entendíamos e nem arriscávamos perguntar.  Quanto  a Teresa, fez sucesso com o mapa-mundi do corpo. No entrementes de  levanta saia e baixa saia, as garotas aproveitavam para palpar a goma dos entesados saiotes de nylon, medindo a dedo a altura de renda e finalizando com uma interjeição admirada, tchiiiiii, tem um palmo de largo. E já quase esqueciam as negras à esparavela, os inchaços que antes tinham palpado, olha lá aqui este durão, as marcas digitais da malvada. Se algum gaiato metia o bedelho e forçava a cabeça entre os ombros delas, escorraçavam-no armadas em matronas púdicas e protectoras,  sai, sai, não podes ver. As rendas da combinação, apeadas do colectivo interesse feminino, emurcheciam em recato desamparado, não somos nada. Remorso ou prenúncio do que aconteceria na escola, a filha do Pelinhos excedia-se a dourar a moldura do seu desacato. Teresa, como reconhecia minha avó com algum desdém, “andava num brinquinho”.

19 comentários:

  1. Todas as histórias têm algo de verdade, de vivido, especialmente se contadas na primeira pessoa.
    Biográfica ou não, esta Sombra Chinesa transporta o leitor a um certo lugar, a um certo tempo, numa revisita ao seu passado, não concerteza com o desejo de julgar, mas com a vontade de compreender, como pedagogicamente sempre faz.
    A Bea, nos seus talvez sete anos, ainda tinha a ingenuidade própria das crianças de acreditar nos céus e nas pessoas, como todos nós então.
    Até aí, o tempo era eterno e também as pessoas e o mundo - só nós é que mudávamos - e a fugacidade e o imprevisto do quotidiano ainda nos eram desconhecidos.
    Até aí, as pessoas eram como as plantas ou as flores, não se tocavam, não se batiam, não se ofendiam e a violência era termo sem significado.
    Como era serena e perfeita a vida até aos nossos talvez sete anos, a partir daí, devagar e ao de longe, começavam-se a perfilar alguns sinais de desencanto e a certeza de que o mundo não seria mais como o tínhamos imaginado. É a nossa primeira grande decepção.
    Continuemos pois a acompanhar esta história pelas palavras desta criança, com frases dignas de retenção como "No excesso de conversedo, o que antes era segredo deixou de sê-lo e até nós as crianças ficámos por dentro da história, mau grado lacunas", porque como dizia Raul Brandão, são as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem.
    Boa noite.

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    1. Para uma criança o mundo é sempre algo desconcertante, desconcerto que, mesmo crescendo e envelhecendo, não a abandona. Antes disso, não imaginava o que seria o mundo e nem me lembro de pensar se era eterna, se havia ou não violência. O que havia era uma linearidade satisfeita no pensamento e um círculo restrito e familiar onde eu gravitava e que era muito tocável.
      É-me mais fácil imaginar em cima de um ambiente conhecido, tudo se torna mais verdadeiro, previsível e confortável. Se a escrita é apenas evasão, não se desejam grandes batalhas e desafios, Joaquim, escrevemos pelo prazer de inventar, e darmos vida a este e àquele reveste certo interesse.
      Bom dia, Joaquim.

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  2. Embora nem sempre equilibrado, o texto tem laivos de bom recorte literário.
    Abraço.
    Juvenal Nunes

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  3. Obrigada, Juvenal. Quem dá o que tem ...
    Bom dia :).

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  4. Excelente. É normal ficar sempre a desejar mais? :P

    Beijocas

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  5. Grande retrato daquele círculo feminino, de olhar curioso e mórbido, aonde os rapazes não podiam entrar. Talvez as raparigas já se fossem convencendo de que a compreensão deles era diferente. E a ti Casimira ser 'tumular' torna mais firme a sua figura.
    Impossível não puxar a bobine atrás e rever muitas cenas do passado. Hoje, a sova de Teresa iria parar, felizmente, a tribunal, o que não se sabe é se de lá sairia alguma pena que tornasse mais leve uma vida tão pesada.
    E escreva, Bea, escreva, porque a sua escrita tem muitas pessoas, muitos tempos, muitos lugares dentro. Em que muitos de nós também se revê, para além do prazer da palavra bem escrita.
    Uma tarde calma, Bea.

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  6. Obrigada, Maria. Julgo que vou escrever até ao fim. Devagar. Alentejanamente.
    As raparigas eram educadas para o pudor, uma menina não levantava as saias perto de um rapaz, ficava mal. Mas lembro-me de algumas que o faziam o que me parecia uma inutilidade e confundia bastante. Não encontrava motivo para a proibição, o corpo era tão corriqueiro e sem graça, como é que podia interessar alguém. O que ganhavam os rapazes por olhá-lo também não me parecia aproveitável.
    Boa noite

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    1. Obrigada, Bea. Gostei do 'Devagar. Alentejanamente'.
      Apesar de ser do Norte, é como gosto cada vez mais de fazer as coisas (nem sempre posso, é claro): 'Devagar. Alentejanamente'...
      Um dia calmo, Bea.

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  7. A pancadaria sempre me deixou furioso.
    Porque nunca soube o que era isso em casa.
    Violência não é comigo.
    Violência com os filhos então é aviltante!

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    1. Concordo, Pedro. Mas, sem querer desculpar quem o fazia, que não há desculpa que sirva à ira, sobretudo a parental, digo-lhe que para lá do carácter mais explosivo de alguns, a vida que levavam ajudava muito à combustão rápida. Hoje as questões são outras, a violência doméstica, por exemplo, não tem necessariamente a ver com ignorância e miséria, há demasiada mulher a cair na escada e chocar em quinas de móveis e ninguém me fará crer que não existe em classes mais abastadas. Enfim...
      Bom Dia:).

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  8. Eu como adulta a observar esta cena do
    pátio da escola , achei deliciosa a curiosidade da miudagem!
    :)

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    1. e não se recorda de ser assim, sinu? Há um gosto macabro em esmiuçar a desgraça, apanhá-la no todo visível para depois nos demorarmos a falar dela, encompridando ainda mais.

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    2. Não sei... O que posso dizer é que não consigo ver a CMTV...
      Mas acredito que mais de meio mundo vê.
      Obrigada por ser gentil, para todos nós, Bea.
      :)

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  9. Com certeza que Teresa encontrava algum consolo no interesse das colegas.
    Bom fim-de-semana

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  10. Todas as garotinhas gostavam de ser o centro das atenções; e a piedade das outras suponho que lhe soubesse assim como um carinho.
    Bom fim-de-semana, Magui.

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  11. Esta sombra chinesa está divina. Tão poeticamente descrita que desvanece a brutalidade de alguma cenas. Li os últimos textos de uma assentada e fico presa dos próximos.Beijinhos.

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