Corria
certa modorra isenta de novidade quando a aldeia alvoreceu e o carro do
caixeiro viajante plantado na rua da Liu. Toda a gente esperou novos desacatos,
porque aqui d’el rei aquilo era um mau viver, e porque torna, e porque deixa. Mas,
desilusão atrás de desilusão, a filha do Pelinhos aceitou o homem sem ruído e,
a quem passava, parecia mais amena no cumprimento diário, facto que chamava
bichanice condensada num único termo, amansou. Teresa era a mais exuberante. Todos
a notavam alegre, como se a companhia masculina lhe adubasse a vida; e era
certo, à segunda-feira exibia o orgulho de
uma prendinha que mirávamos em desvanecida inveja.
Da harmonia familiar nasceu um jardim tratado em actividades de fim-de-semana e onde Teresa pontuava de sacho na mão, mais estorvo que ajuda. Para mostrar o entrosamento, umas tardes por outras, o não me toques, alcunha do caixeiro-viajante, pessoa muito dada a calças de vinco e camisas passadas a ferro, juntava-se aos homens da aldeia e abancava na taberna. Jogava o chinquilho e a malha com garbo e pontaria quase infalível e muito invejada, e finalizava, perdulário, com rodada paga a todos. Se as vendas e a distância permitiam, pernoitava em casa e, no verão, era vê-lo à boca da noite na soleira da porta, descansando em cadeira de lona, ou a tratar do jardim. Mas quando se perdia pelas serranias do norte português, madrugava na saída e só estava de regresso no sábado seguinte, já a lua ia alta no céu. Desse tempo, conservo uma única e intrigante lembrança da filha do Pelinhos: era, de entre todas as mulheres da aldeia, a única que não usava avental ou bata e me parecia sempre vestida para sair. Minha avó, como muitas outras velhotas, usava um avental escuro sobre as saias. As mulheres mais jovens puxavam-se de brios e punham aventais vistosos, abundantes em folhos, flores garridas e botões coloridos, garridice de pobre. Eram aventais de laço caprichado e longo nas traseiras, com bolsos realçados por rendas ou avivados a cores, roupa de quem deseja agradar também pelo traje caseiro. Grande parte das mulheres maduras preferia a bata abotoada à frente, inóspita simplicidade que lhes acompanhava e protegia o vestuário. Era peça que não pedia galanteios, funcionava. Usavam-na as mulheres de muito ano e muita canseira no casamento e cada um tire do facto as razões que entenda. Quanto às velhas e seus arreios, o avental era peça de roupa costumeira, sem ele, sentiam-se meio vestidas. Não as alindava nem desfeava, estava-lhes no hábito da fardamenta. Mesmo as que já não urdiam em qualquer tarefa, mesmo a essas se cingia o avental. O avental confere certo sentido às mãos, esconde-as nos bolsos; mãos ansiosas torcem e enrolam o avental enquanto a conversa flui ou emperra; limpam-se as mãos molhadas ao avental. Por outro lado, bolsos de avental ou bata são um limbo, guardam pequenas coisas apanhadas aqui e ali, sementes, dois ou três grãos de milho, botões, elásticos redondos, uma chave, um pedacinho de lápis, aquela florinha minúscula caída na terra. Pequenos nadas ainda sem lugar. Mas a filha do Pelinhos pisava forte e não precisava bolsos, não pretendia deixar semente, prender-se a recordações aldeãs, sujar-se nas coisas pequenas da existência miudinha. Não pensei que se sentia estranha. Pensei que desejava ser estranha.
Mais uma história com personagens que estamos mesmo a ver, até porque os guardamos também na nossa memória. Os aventais, se falassem, quantas coisas teriam para contar daquelas que só se guardam no mais íntimo de nós... Belíssima escrita!
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
É a mesma história, sempre a mesma. Parece-me que até quando conto outra ela é a mesma:).
EliminarBoa semana, Graça.
Bom dia, Bea. Nunca tinha visto os aventais tão bem desenhados por palavras no seu uso e na sua serventia. E achei muito bonito darem sentido às mãos. Por isso, tantas mulheres os usassem sempre.
ResponderEliminarUm dia feliz, Bea, e obrigada por partilhas tão boas.
Bom dia, Maria. Quando a gente não sabe o que fazer às mãos, cujas podem tornar-se incómodas, há os aventais:). Mas suponho que os bolsos são sobretudo um limbo das pequenas coisas sem lugar.
ResponderEliminarSão partilhas tão inócuas. Ainda assim, partilhas.
Boa semana, Maria.
Apesar da época ser outra, continuo a ver em certa província, mulheres de avental e bata, tão mal arranjadas, de cabelo, cara e mãos, mulheres de trabalho infatigável que até dá dó.
ResponderEliminarAs mãos de fada não cabem a todos, Joaquim. Mas quais serão as reais mãos de fada, não sabemos, as aparências iludem.
EliminarPenso nas mulheres e homens que nunca tiveram férias; nos que trabalharam de sol a sol; nas casas sem água e electricidade; na ausência de máquinas de apoio às tarefas caseiras; nos filhos que eram tantos; na miséria que condenava a muito trabalho e pouco alimento. E nem sei como aguentavam a vida com folga única ao domingo. Quem é que podia pensar no seu arranjo pessoal sem dinheiro nem tempo. E acresce a falta de disposição para tal.
Ainda bem que regressaste, "sombra chinesa"!
ResponderEliminarA imagem das velhotas e do seu avental levou-me até à minha avó materna. Obrigada! Que bem descreves essa peça tão característica das avós do meu tempo. Bjs
ah, ah, ah....prosa, não sou da idade da tua avó, mas passo os dias de avental, uma sopeira chapada.
EliminarNa minha zona, algumas mulheres mais idosas ainda usam aventais e batas, lenço na cabeça e xaile no Inverno.
ResponderEliminarBoa semana, Bea
Na minha também, Magui. Mas o xaile e o lenço estão em vias de extinção:).
ResponderEliminarCom algumas descrições, parece que "conheço" as pessoas. Identificá-las com pessoas que conheço realmente.. Muito bom texto.
ResponderEliminarBeijocas
Até a mim me parece que as conheço, Cláudia.
ResponderEliminarBom dia. Um beijinho
Hábitos que ainda se mantêm em muitos locais do interior do País.
ResponderEliminarÉ vero, Pedro.
ResponderEliminarBom Dia.
Eu conheço alguém... Claro
ResponderEliminarque conheço. Essa coisa de
colocar no ombro ou enrolar
no pescoço ainda existe?
Beijose bom dia.
Uma dissertação perfeita sobre a aventais... batas... e energias associadas!! Muito bom!
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