Os meus dias são tocados a sol. O sol
dinamiza o espírito, que a carne se fecha em indiferenças a alterações
climáticas, não fora o caso de algumas fazerem estragos e uma pessoa duvidar se
vêm por bem. Mas o sol. O sol que lembra areia e praia, horas de ângulo raso na
calma quase deserta de gente, um dolce far niente muito palpável e de que se
ocupa o meu inteirinho ser animal e
sensitivo, em gozoso mistério de absorção. Mar e areia. Tudo envolto no meigo abraço
do sol. Que mais se pode desejar. É o que me lembra este cálido soalhento que
hoje marcou presença. Mas o assunto é outro. E tal.
Bom, depois de muito mais de um mês sem
um único passeio, falha das minhas amigas Violeta e Lili e a viver sem aquele
bocadinho de não sei quê, digo-vos, a retoma horária não tem sido fácil. Deixou
de me apetecer andar. É isso. Mas depois não vejo aquelas garotas envelhecidas,
todas remelosas, pêlo sujo e despenteado. E nem o senhor Zé que já entendo tão
bem e traz no pescoço a máscara enxovalhada. Permanecer em casa dias a
fio não dá saúde, e quanto mais doente, maior o desejo de adoecer. Portanto, evito.
Terá
sido por acção do sol e das tais garotas que o passeio melhorou. Que eu
melhorei. Mas não só. Começou com um grande sorriso que me fez alguém de dentro
de uma carrinha. Logo hoje que esqueci os óculos. Mas era um sorriso tão bem
disposto e de quem me conhece – cruzámo-nos
numa curva e a carrinha abrandou -, que tentei corresponder. De seguida, a
Violeta lobrigou-me por entre as falripas
e fez o sprint habitual, o dono sentado no muro com a Lili aos pés. Cumprimentámo-nos efusivas e, ainda eu não me
sentara - muito rápidos são os cães –, já ela estava em espera sobre o muro, pronta
a pular-me no colo. Sentei-me e veio fazer ninho enquanto a pobre Lili que já
não pula nada (está pior que eu), empinava aos meus joelhos. E o senhor Zé ia
dizendo, a Violeta é muito coleira, mas a Lili nunca quis colo. E, a fazer
conversa, contámos uns diminutos; pergunta-me pelo gato e conto-lhe que é jovem
e gosta de colo e mimos, mas também não consegue pular para o colo e nem para
uma cadeira. Sobe árvores com desplante nunca visto, mas não pula por ser
gordo e perna curta. Rimo-nos e continuo caminho. Não lho disse, mas
desconfio que este gato não seja muito normal. Contudo, tem olhos azuis.
Já noutra rua, encontro uma senhora
talvez uns anos mais velha que eu. Anda limpando o exterior da casa e queixa-se
dos serviços municipais. Concordo e digo para mim que devia imitá-la, apesar de
reconhecer que não nos pertence tal trabalho. Reparo que anda um galinho com
ela (é mesmo galo pequeno, não é uma ternura para com o bicho). Por entre outras
diatribes, diz-me que o galito a segue por todo o lugar, só não entra em casa.
Avanço, não vai matá-lo, pois não. E ela escandalizada, oh minha senhora, nem
pensar, eu gosto tanto dele como ele de mim, já o tenho há quatro anos, criei-o
de bebé porque os outros lhe mordiam, tinha que o trazer no bolso. Fiquei a
pensar nela a trabalhar na quinta com um pinto no bolso. E lembrei minha mãe
que também fazia isso quando as galinhas os enjeitavam (há galinhas um bocado
parvas, o mal não dá só nas pessoas). Então a senhora contou-me que, se toca o
telefone, o galito vai chamá-la e, enquanto ela está a atender, se farta de
cantar. Nós duas não estávamos ao telefone, mas ele desatou a cantar. Penso que
seja por ciúme da atenção da dona. E ainda me contou que, sentando-se numa
cadeira, logo o bicho se lhe deita aos pés. É um gato ou um cão que tenho aqui,
rematou orgulhosa.
Gosto
daquela senhora que pouco vejo. Passo e imagino-a perdida em tarefas lá para os
meios da quinta. Tem um filho algures em Lisboa e uma netinha que todos dizem,
linda, linda. Vive só, os animais por companhia. Dá guarida a cães abandonados
e o Município assegura a ração e paga o veterinário. Tem vários gatos e este
galinho. E bom coração.
De certeza o caminho encolheu. Ou estarei a entrar nos eixos.
Se caminhar nos oferece uma tranquila possibilidade de reinventar o tempo e o espaço, conversar é bálsamo para o espírito nos nossos opacos dias da existência. Especialmente agora.
ResponderEliminarE não consigo dizer mais, porque o miúdo aqui por baixo chora tanto que não me deixa concentrar. A filha mais nova da minha vizinha vai-se casar daqui a duas semanas com o pai do miúdo, do qual se tinha separado antes de a criança nascer. Pobre da minha vizinha, não sei porquê mas não dou nada por isto, e a Bea?
PS - No seu excelente post-epístola de dia 22 ficaram uns comentários por ler. Mas não é grave, nenhum deve ser do destinatário.
Eu, Joaquim, não dou nem tiro. Não os conheço. A crer no que escreve, o princípio é atribulado. Como sabemos, há bons princípios com maus fins e o inverso.
ResponderEliminarObrigada pelo alerta:). Já vou investigar.
Que texto bonito, Bea. Tão poético. A primeira frase é logo um primor.
ResponderEliminarTudo muito humano, apesar de entrarem vários animais. Até fiquei com vontade de dar colo à minha Castanha que, quando me pressente na cozinha, enrosca-se junto à porta à espera que lhe fale - julgo eu.
E a senhora com o galito, que ternura.
Realmente, este tipo de encontros pelo caminho encurtam-no e animam-no e estimulam a novas caminhadas. E também ficamos a ganhar um belo texto. Obrigada, Bea, e uma noite com estrelas.
Levanto-me cedo para encontrar esta gente, sou de vagaroso pequeno-almoço e, em jejum, nem escrever. Mas valem a pena. Se vá mais tarde, faltam-me estes encontros, gente de outras horas diminui-me o interesse, falta-lhe esta pureza. Hoje encontrei um senhor com o carro de mão carregadinho de batatas que pareciam bolas de futebol. Parou a mostrar-mas orgulhoso e a explicar que se levantara às seis para as arrancar da terra. Já o tinha visto e cumprimentado uma vez ou outra, mas ainda não tínhamos chegado à fala propriamente dita. Junto a sua casa, reparei que havia outro carro de mão a abarrotar. E ele ia estrada abaixo a exibir a produção, acrescentando, "nada de químicos, é mesmo bosta das minhas vacas". Gostava de ser filha daquele senhor que, descobri hoje, é o avô do garoto sorridente que me cruza e cumprimenta da bicicleta. O avô encheu o peito e disse, "o meu neto Tomás quando as vir...". Não contei que o conheço e que é um garoto satisfeito com a vida, dá gosto vê-lo. Hoje, depois de larga ausência, voltámos a encontrar-nos.
EliminarBoa tarde, Maria.
Galinho que ENTRA em casa tem a minha mãe na casa em Coimbra.
ResponderEliminarOu tinha.
Já lá não vou há tanto tempo.
Bom, Pedro, este galito não entra em casa porque a dona não deixa. Afirmou-me que, mal o vento lhe abre a porta que dá para o quintal, logo se escapa. Mas, também acrescentou, "suja-me tudo, não pode ser".
EliminarTalvez já não falte tudo para rever sua mãe:).
Ah...o sol tem encolhido, acho. Vai mais depressa olhando para esta Terra assarapantada. Os animais têm uma intuição que os humanos não percebem, é interessante observar como "se domesticam" ao nosso afecto. Havia um carneiro num campo, na minha adolescência, que a mais de um km eu chamava e me respondia.
ResponderEliminarMelhor que chegar é mesmo, para mim, o caminho!
Abç
Verdade bettips, parece que o sol tarda em querer ficar. Hoje não apareceu, o palerma. É que se domesticam mesmo, moldam-se a nós. A senhora do galo afirmou peremptória que ele não quer as galinhas mas gala-lhe os chinelos, "é só apanhar um dos meus chinelos, salta-lhe para cima".
EliminarAlguma relação havia entre si e esse carneirito. Seguramente. Uma das minhas manas criou um porquinho a biberão. Pois ele levava a vida atrás dela. E mesmo quando cresceu e se juntou aos outros, estando ela a estudar fora e vindo a casa uma vez por mês, mal a via, chegava-se a cumprimentá-la.
Talvez não entendamos essa intuição, mas damos muito por existir. E somos gratos. É amor animal e bastante agradável.
No meu caso, chegar pouco importa, é um regresso ao quotidiano. Mas há casos em que queremos fazer o caminho porque mais nos interessa chegar. E casos em que o maior desejo é não chegar.
Um abracinho, bettips.
Quando diz "O sol que lembra areia e praia, horas de ângulo raso na calma quase deserta de gente" lembra-me Sophia e o seu querido Eugénio de Andrade que dizem ser o amigo mais íntimo do sol, que por acaso nasceu no inverno, e que de Sophia, disse: “Sempre que penso nela vejo o mar, muito nítido e azul ao fundo.
ResponderEliminarEncontrei-a em tantos sítios!, mas escolho um dia único, não sei se na Granja ou em Cascais, na Foz ou em Corfu, para a trazer aqui, uma luz fina acentuando-lhe a claridade dos olhos e dos cabelos.
Foi sempre muito jovem, de carácter irrepreensível e segura de si, mas também distante, como se tivesse chegado doutro país e não tivera tempo de se adaptar àquele em que vivia.”
Julgo eu, Joaquim, que não há quem conheça Sophia - os seus livros - e deixe de a associar ao mar. Pessoalmente, acho-a liberta na maresia, no bordado de espuma das ondas, na frescura da água salgada, no vaivém ondulado das águas. Tenho a certeza que ela está lá nas coisas que mais amou.
EliminarE concordo com Eugénio quando diz que ela parecia vir de outro lugar. Parece-me nítido esse desconcerto. E depois, deu-lhe Deus uma natureza física consentânea com o resto. Tanto acerto, não é vulgar.
Boa tarde, Joaquim.
Também eu adoro sol e caminhar. Mas normalmente e ultimamente só caminho quase a correr. Estou sempre "atrasada" para ir a algum lado :P
ResponderEliminarEssa senhora tem bom coração :)
Beijocas
É uma senhora que, quando adoeça ou falte de todo, deixa muita saudade a todos os animais. E se a Cláudia soubesse de onde veio e o que viveu, ainda mais a admirava.
ResponderEliminarA Cláudia corre. Faz caminhadas a sério. Eu passeio. Não é a mesma coisa:).
Um beijinho
Gosto destas suas caminhadas, bea. :)
ResponderEliminar" Os meus dias são tocados a sol" que belo início de poema! que bela divinização. E como permite ver mais nítidamente a beleza das coisas e penetrar um pouco no seu íntimo!...
ResponderEliminarExcelente descrição desse sol sentido!
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