Domingos
eram a cepa torta na aldeia. Os homens dormiam até mais tarde e passavam a
primeira metade do dia a alindar-se. Faziam
a barba da semana, tomavam banho e conversavam
entre si ou ouviam rádio. Limpos e penteados como não andavam nos outros dias. Em verões quentes como o desse ano, deixavam-se ficar em camisola
interior, uma rede branca de alças que lembrava jeitos de intimidade e os assemelhava a marialvas italianos. Sentados à porta da cozinha, quase esqueciam cenas
de gritos e maus tratos. Que as mulheres já lidavam quando eles despegavam dos
lençóis. Tinham acendido o lume e havia água quente para barba e banho. E muitos
estendais exibiam a empreitada de roupa que lhes passara pelas mãos. Aos domingos, os homens
eram ternos com as mulheres, davam-lhes palmadas no rabo, tiravam água do poço
para as bilhas e carregavam-nas até casa. Sei hoje que tanta amabilidade não se
devia apenas à queda do surro e da
barba. Porém, nesse tempo de curto entendimento, associava a boa
disposição à barrela geral.
A
nossa casa era pequeno gineceu sem mistério. Contudo, eu ensimesmava frente à
cómoda do quarto, observando meu avô. Gostava-lhe da franja espessa, bigodinho
curto e olhos fundos de azeviche. De pé, ligeiramente apoiado na bengala fina que
minha avó suspendia por laço de seda e casava
com o seu único vestido, pendurando ambos no prego do quarto atrás da porta. Meu
avô sério e honesto, a fitar-nos, olho no olho. Um Charlot português por nossa conta. Meu avô que
tinha morada cativa no secreto coração da mulher.
Como quase todas as crianças da aldeia, aos domingos ficava na cama até mais tarde. Preferia-os aos dias da semana pela perspectiva de almoço melhorado que nem sempre acontecia. Portanto, estava ainda deitada jogando às adivinhas com os raios de sol que infiltravam pelo carcomido da janela fechada e desenhavam oscilações paredes fora. Intrigava para uma sombra, insistindo em dar-lhe forma competente e a duvidar-lhe a proveniência, seria fenda de muro envelhecido ou efeito da luz. De súbito, vozes zangadas. Estranhei. Apurei o ouvido. Silêncio. Entretanto, soou-me o rumor de portas e trincos cautelosos. O alerta da vizinhança. Sozinha em casa, não arrisquei espiolhar e encolhi-me sob os lençóis. De repente, um estrondo. O mundo vinha abaixo. Em simultâneo, recomeçou a gritaria. Palavras atiradas com tanta raiva que não entendi uma única. Em fundo, alguém chorava. Neste ponto, a curiosidade levou tudo de vencida e levantei-me a espreitar a rua. O sol encandeou-me e, apercebida apenas da falta de chinelos, as pedrinhas do chão a surpreenderem-me os pés, franzi o rosto à intensa luminosidade sem nada distinguir.
O texto deixa-nos em suspenso, perante o conflito que esboça sem descortinar.
ResponderEliminarAbraço amigo.
Juvenal Nunes
Bom dia, Juvenal.
Eliminar"eu ensimesmava frente à cómoda do quarto observando meu avô"
ResponderEliminarA cómoda ainda está lá em casa.
E ai de quem se desfizer dela!
e o retrato do avô/avó e etc, também, não é, Pedro.
ResponderEliminarBom dia.
Para quem lê, estes domingos 'dariam belas aguarelas'. A descrição dos homens está viva, perfumada e sonora. Também conheci figuras semelhantes, que ao domingo punham brilhantina no cabelo, mas quem carregava a água do poço eram as mulheres ou os mais novos.
ResponderEliminarE qual a razão do estrondo, agora que já passou a 'intensa luminosidade'? Espero a continuação, agora que a porta se abriu.
Um dia bem luminoso, Bea.
Aos domingos os homens eram, em parte, outros; alguns lembravam-se, por exemplo de agradar as mulheres enchendo-lhes os cântaros de água. O que não obstava a que, os de mau vinho, à noite as sovassem ou aos garotos. As tardes eram de taberna.
EliminarBoa tarde Maria. Sim, até gostei do dia, andei a ver a planície alentejana. E como está bonita, sobreiros e azinheiras ainda a arredondar no conforto dos rebentos verdes e em osmose perfeita com a terra florida que a seca deixa à míngua.
Herdei uma bacia e um jarro em cerâmica, que eram de um tio-avô.
ResponderEliminarLoiça que encerra memórias.
e eu comprei as duas coisas porque herdei um lavatório. Ou comprei-o também, já não me lembro.
EliminarE no seu contar recordei o lavatório antigo de ferro, em tripé e com balde por baixo, que havia em casa de minha avó e a banheira móvel que ela guardava não sei onde e que ao domingo colocava no meio da cozinha para os banhos semanais.
ResponderEliminarNão haja dúvida que os hábitos e os costumes mudaram muito e já agora o nível de vida do povo também. Talvez por isso, tenha estranhado, quando ouvi na rádio uma velhota, sem filhos, nem família que a possa valer, a lamentar-se da parca reforma que mal dá para pagar um quarto interior arrendado, onde tem um micro-ondas e um aquecedor e que todos os meses precisa de pedir dinheiro emprestado à senhoria e pagar-lhe no mês seguinte quando recebe a reforma.
O que esta senhora daria por poder abrir a janela e receber a sua luminosidade no rosto! Vidas.
Pois a Bea, uma vez mais termina, deixando o seu conto e a nós em suspenso. Anda a ler Agatha Christie?
Tenho um lavatório desses num dos quartos. É apenas recordação, mas gosto dele. É verdade, a vida mudou bastante, felizmente. Mas há casos como o que conta; gente com reformas de miséria que não ganhou para ter casa sua, que vive só e não tem quem lhe valha. Mesmo tendo família, digo-lhe que os velhos têm de virar-se sozinhos na maior parte dos casos. Morar num quarto interior é do pior, julgo. E pouco saudável.
EliminarPode crer, Joaquim, não foi propositado e nem a minha história tem a ver com Agatha Christie e seus assassinos misteriosos. Digo-lhe que o texto era mais longo, mas pareceu-me excessivo para um post e parti onde ajuizei ficar menos mal.
Sim senhora! Antes, valia a pena ser domingo!
ResponderEliminar:)
Era o único dia de folga, Sinu, como não gostar dele.
ResponderEliminarBem, que curiosidade com que fiquei. Muito bom!
ResponderEliminarBeijocas
Bom dia, Cláudia.
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