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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Tristeza dos Dias

 

        Esta parda melancolia arrasta-se semana atrás de semana, insidiosa, vai engordando por dentro da deselegância dos dias. Que não há cintura que os afine. Cerceados na estatura, nascem um após outro com a densidade de blocos tristonhos e lisos por onde as horas escorregam na ambivalência de não ser dia nem ser noite.

        Tudo em Portugal lacrimeja: choram-se de viva voz os que perderam a vida e os vivos que perderam o que tinham e lhes custou a ganhar; choram-se as árvores e o gado, os cães e os gatos, a mobília e outros haveres transviados, esmagados, idos “de água abaixo”. Mais que tudo, chora-se a casa, ninho que o vento malvado varreu ou machucou num arremesso. A casa, pensamos, é refúgio seguro, lugar de estar e também de ser. Ter uma casa, seja ela como e onde for, é permitir-se o repouso de corpo e espírito, evasão preciosa e vital à continuidade na luta.

        De pé, as casas não escondem o desalento, lágrimas escorrem por embaciadas vidraças, persianas e portadas. As portas cerradas empenam e no interior há lágrimas que ressumam nas juntas da madeira ou rolam pvc abaixo. Lá fora, uma humidade verde alastra por pedras e cimento, invade a cal de paredes e muros ensopados, enquanto vastos lagos se formam onde antes só havia a secura pobre da terra feita um pó fino e cinzento que agora é lama onde os pés enterram sem remédio.

        Tudo te chora neste mês aziago em que vieste ao mundo e dele te foste tão sem ruído como viveste. Acaso ou propósito, no dia do teu aniversário tão triste nova!


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Avesso da Poesia

 

        Há um livro em que Peixoto escreve, “morreste-me”. Li-o há anos e a expressão agradou-me. O escritor referia-se ao pai. Como se a constatação da morte nos que amamos seja dor não expectável, ultrapasse a compreensão. Para os nossos construímos um muro de eternidade, refrigério que viabiliza o quotidiano. De ilusões também se vive, são condição necessária à sobrevivência.

        Não consigo aplicar-te a mesma afirmação. Em mim és eterno, não me morres. Ou morres comigo, que é a forma da humana eternidade. Cada um sabe de angústias quando a morte ronda quem julgámos pertencer-nos, sabe do atabalhoado assombro da vida formatada em pesadelo-prisão que não esvai à luz solar e antes se define e sombreia. Sabe que a solidão o abraça até à asfixia. No limite, somos todos solitária subjectividade.

        Tantos anos vivemos e nunca sonhei contigo. Vivo. Ou morto. Só hoje, um ano depois de. Não entendo bem porquê, mas surges-me de mistura com um amor. Como se eu fora adolescente e tu estivesses já fora de ti, a memória a derreter em pingos grossos. No sonho, seria adolescente. Foi um sonho nocturno e de breu, a nossa rua como então, sem vestígio de luz. No caminho para casa, seguíamos mão na mão, eu guiando o namorado, solitário par na noite escura. E havia sombras a nascer dos valados, erguiam-se à medida que passávamos. Assustavam-me. Eram curiosas sombras emparelhadas - de mulheres e homens, de homens e homens; cada par beijava-se unido em abraço apertado que desfazia à nossa passagem – indiferentes a nós (creio que não nos viam), saltavam o valado e perdiam-se na noite. A posteriori, julgo existir um simulacro dos quadros de Bosch naquela amálgama de corpos erguidos em impulso de mola, a escuridão negando-lhes o reconhecimento. Também eu e o meu amor nos abraçámos brevemente a meio da estrada de terra, receosos de sombras esconsas que se içavam da escuridão num só corpo, para nela se perderem dobrando a unidade. Mas eu tinha pressa de chegar. Queria, com urgência, apresentar-te o meu amor; suponho que desejava a tua apreciação isenta, sem a confusão da doença. Portanto, desliguei de impressivas sombras que se erguiam do valado em cegueira de paixão que nada vê. Desejava dar-to a conhecer, sentia em mim esse apelo. Mas quando nos abeirávamos do poço, avistei-te lá ao fundo, antes da curva. Estupefacta, apontei-te ao meu companheiro. Encontravas-te no meio da estrada -  nós três ocupámos sempre o meio da estrada de terra. Gritavas para os vizinhos adormecidos. A tua voz invectivava-os entaramelando as palavras. O meu espírito encheu-se de noite. Pensei que atravessara um purgatório por ti, mas não me vias. Chamei-te. E tu, nem um soslaio. Continuaste a vociferar tropeçando na língua, nas vogais, nas consoantes, facto que aumentava a tua irritação. Além de extremamente doente, parecias bêbado. Corri para a tua sombra espessa talvez porque sobre o pijama vestiras uma gabardina comprida que nunca tiveste. Parecias um profeta enlouquecido. Desvairado, gesticulavas frases sem nexo e apostrofavas os que vivem perto de nós, como se considerasses seu dever levantarem-se a meio da noite para te escutar; como se as tuas palavras fossem redentoras. Contudo, não houve porta que se abrisse, luz que iluminasse as trevas onde só a agitação da tua sombra riscava o ar. E eu a correr para ti, sempre a correr para ti. Acordei sem ter chegado.

         A estupidez que foi não te ter levado para casa, não teres visto as laranjeiras pela última vez, ter-te dado o desgosto de sair sem ti do único lugar onde sabia que não querias estar. Não ter estado à tua beira nos momentos derradeiros. Quem sabe a razão de, no pesadelo,  te encontrar tão outro de ti. Não reparaste em mim porque sofrias uma crise, ou só buscaste forma de me negar?! Assim como assim, embora com objectivo diverso, digo como o poeta “mas chorar não estima neste estado/aonde suspirar nunca aproveitou.”


quinta-feira, 7 de março de 2024

A Morte de um Imortal

 

          Por gostar de pontualidade e porque a sua falta me faria de algum modo notada, facto que me indispõe um tanto, chego cedo a cursos e conferências. Sento-me por norma junto à parede, na primeira metade do público, e espero que a sala encha. No dia da primeira sessão do curso com António-Pedro, cheguei tão adiantada que subi ao andar das roupas femininas, todo em modo de primavera, e por ali gastei o olhar. Não que compre ou sequer experimente, mas gosto de vê-las. Exibem padrões que não se encontram em lojas baratas e o toque de algumas é cetinosa maravilha. Entretanto, pensei que o horário do curso se aproximava e procurei o elevador.  Chegou o António-Pedro. Ansioso pelo elevador. Disse-me que estava com pressa porque tinha uma coisa com hora marcada e detestava faltas de pontualidade. Respondi que também não me agradava o atraso, mas não sabia o que fazer além de esperar o elevador (talvez estivéssemos no 2º ou 3º andar, andara a olhar para vestidos e saias). Ele respondeu-me que o melhor era irmos pela escada rolante ou atrasava-se. Enquanto mirava o andar em busca da nossa salvação, acrescentei o meu desconhecimento e ele ofereceu-se para me guiar e desandou de imediato. Segui-o um pouco atrás, às corridinhas. Já na escada, quis saber que andar eu desejava, respondi (tinha-o reconhecido) que devíamos ir os dois para o mesmo sítio. Olhou mais ou menos para mim e perguntou, “que idade me dá?” Já o tinha visto um par de vezes na TV. Avaliei-o julgando que seria um pouco mais velho que eu; Arrisquei, “acho que tem para aí uns setenta e três ou setenta e quatro”. Ele abriu um sorriso bonito a olhar-me lá de cima e retorquiu, “tenho oitenta e três, dia 10 de Março faço oitenta e quatro". Pensei que brincava. Inadvertida, dei pela minha costumada incredulidade a meter o bedelho, “A sério?!!! “. Aí António-Pedro desenrolou a descendência em números: os filhos, os netos e os bisnetos; acrescentou que faltavam dois meses para o nascimento de outro bisneto, facto que muito o satisfazia; e espalhou escadas acima uma ternura indisfarçável. Depois, acrescentou como quem faz uma confidência, um tudo-nada debruçado da sua altura, olhando-me a alma, “a família é o mais importante, sabe?” E, semelhante a meu pai, observou: “no dia dez já desmarquei tudo e vou reunir a família em ponto grande; todos juntos, vai ser uma alegria". Creio que fiz um sorriso de aprovação e disse qualquer coisa comum. Entretanto, inda teve tempo para me contar que era o quarto curso que dava e que gostava de estar ali a ser professor de cinema. E rematou a olhar-me, “eu adoro isto, sabe?” Dava para ver que sim. Entretanto, chegámos ao destino e o nosso breve encontro deu lugar a factores mais prosaicos; despediu-se dizendo, “vá andando que eu ainda tenho de ir à casa de banho”.

Não voltámos a falar. Em cada sessão deixava-o em ponto de caramelo, absolutamente consolado, a audiência a circundá-lo. Eu seguia para o Metro encantada por existir alguém assim e eu, vinda lá dos confins do mundo, tê-lo conhecido tão de perto. Privilégio.

Até sempre, António Pedro. Que prazer conhecer-te! Ainda vejo todas as fitas daquela lista. Podes crer.

 

 

        

quarta-feira, 6 de março de 2024

A Morte de um Imortal

 

Mau grado a possível propaganda, julgo que o El Corte Inglês e a Gulbenkian são das poucas entidades que propõem cursos e conferências de qualidade, pro bono (é possível que existam outras). A Gulbenkian já nem tanto: acabou com algumas tarifas reduzidas e cortou com entrada livre para professores, nos seus museus; terminou com o ballet; espero que não lhes dê para cessarem o coro; maestro residente, julgo eu, já não existe. E agora patrocina cursos on-line pagos e não muito baratos. Está a  tornar-se outra; aos poucos, vai mudando de pele. Parece que os cientistas dão mais rendimento e fazem melhor ao mundo, as fichas estão todas – ou quase – na ciência. Ora nem tudo tem de ser rentável na organização que Gulbenkian patrocina ainda, depois de tanto ano de morto e a quem sou imensamente grata, decerto bem mais que muito lisboeta, passe a vaidade no vínculo. O jardim da Gulbenkian, que não cesso de agradecer à estética de Gonçalo Ribeiro Teles, é beleza que me espanta e apazigua em cada vez que o reconheço; a vida, vista daquela clorofílica verdura, parece mais suportável, quiçá, bonita. Aquele jardim anda comigo sempre. A memória o guarda, secreto e único por detrás da orquestra. Um pássaro atravessa o espaço buscando morada; no lago, os patos deslizam em seus patins de membrana interdigital, por vezes, uma linha de filhotes atrás. E as árvores. As árvores que captam os sons na vibração das raízes e dobram ramos reverentes para a parede vidrada onde os que lhes dão as costas produzem desmedidas sinfonias. Ali estamos juntos, cada um sozinho com a música, num disfrute que só por não sermos árvores se não dobra, ou ajoelha. É de respeito e admiração silenciosos que se trata, um pigarro ou outro pela sala soam a inoportuna presença.

         E eis que, depois deste introito adiposo, me lembro que vinha falar de António-Pedro Vasconcelos. Esparveci com esta morte, toda eu petrificada frente à TV. Segundo o realizador - e também outras coisas, entre elas professor -, no Corte Inglês, deu quatro Cursos sobre Cinema. Assisti ao último, fará agora um ano. Puro acaso, inscrevo-me em vários, mas não me cabe a selecção; por vezes, frequento um; António Pedro calhou-me. O título era inspirador, “A história do Cinema em dez sessões e meia”. Que foram treze, duas delas não pagas, o Corte Inglês apenas cedeu o espaço. Para além das sessões, a que se seguiu um jantar proposto pelo professor e a que não compareci por inadiáveis motivos de saúde, não saltei uma sessão. António-Pedro era exímio contador de histórias. Aliava tal capacidade ao seu vastíssimo conhecimento sobre cinema e à peculiaridade de nos deslumbrar com pedaços de filmes já vistos ou a ver. Mas nunca referiu ou mostrou um filme seu, jamais expôs as proezas de realizador, qualidade que, a meus olhos, mais o enaltece e foi decisiva no meu bem-querer. Além do mais, na qualidade de professor, não tenho uma vírgula a apontar: trouxe sempre as folhas de apontamentos relativas a cada sessão e, no final, distribuiu a lista de filmes que ele considerava necessário ver. Guardei tudo. Posso não lembrar muito bem onde está, mas sei que está. Claro que, aliadas a estas qualidades, há a sua simpatia pessoal, a forma como punha e tirava o chapéu, o saber sobre grandes planos e de como usar a máquina de filmar para isto e aquilo. Não erro se disser que não houve alma a quem o curso desagradasse. O certo é que foi raro assistir, na minha já longa vida, a alguém tão empolgado com o assunto que expõe. A discorrer sobre cinema, António-Pedro era um adolescente apaixonado. No final de cada sessão tinha uma caterva de gente a rodeá-lo e onde não me incluo; no meio de tanto fã sou incapaz de dizer uma palavra de jeito e sinto-me  em extremo desconfortável. Portanto, saía muda e entrava calada. António-Pedro parecia sempre contente por ser abordado, o que me lembrava um pouco a imagem que me deixou David Mourão Ferreira e mais seu cachimbo no átrio da faculdade, ambos satisfeitos da posição central, David discorrendo no meio de uma pequena multidão. A diferença entre eles era uma, à volta de António-Pedro havia uma mescla de pessoas; a David Mourão Ferreira só vi rodeado de mulheres jovens, decerto alunas. E é isto.

         Poderia terminar por aqui. Mas acontece que o acaso também conta.

(cont.)

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Anéis de Saturno

 

Penso por vezes nas tuas mãos. Ontem, pensei nelas ao olhar os tugúrios caídos no Afeganistão, aqueles tijolos de adobe reduzido a pó, esqueletos de miséria purulenta. À vista deles, fez-se presente a barraca que meu avô construiu para arrumos e seus fazeres manuais, e que existia há já mil anos na casa da minha infância. Idêntica às imagens da Tv, depois das feridas do tempo que a envelheciam e retalhavam, os elementos a intrometerem-se com prejuízos de adaga, foi derrotada por uma tempestade. Morreu no tom cavo de quem não tem mais que a lama empapada em monte de adobe esventrado e  batido de chuva. E sobre esses recados da miséria, as tuas mãos numa elegância de asa, moldando gestos, falanges desenhando pesares, a meia lua das unhas a ressumar uma ternura triste. As tuas mãos ciganas. Pombas da paz adejando. Sobre a minha insónia. Ou no amontoado da pobreza nua dos afegãos. E o meu desalento choroso à vista dos destroços. Eu que não entendia a proibição de rondar o hermetismo da barraca, o zelo de minha mãe arredando-me do perigo, ali não.  Talvez que já as tuas mãos por lá a secar-me o desgosto dos olhos sem paisagem, a minha infância atida à permanência inexistente, e agora. Eu incólume e ainda desatendida de irresolúveis. Ou os afegãos a dizerem para a câmara: há muitos doentes a precisarem tratamento, mas não temos como levá-los ao hospital. E, nas suas costas, nuvens de pó e calamidade. Ao rés da pele, as tuas mãos conversam comigo, situam-me, eles não choram a paisagem perdida. Observa, perderam o seu tudo que era nada; o pó que os protegeu é-lhes mortalha, não te compares. Comprimo-te a mão contra a minha face e o morno da pele descansa-me, é gesto de pássaro que chegou ao ninho.

 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Dos Olhos Tristes

 

Há sofrimentos tão inúteis, mundos de dores malquistas  que são injustas vergastadas   a fustigar os de sempre. O senhor Zé foi apanhado por um veículo que fazia a marcha atrás e foi buscá-lo ao passeio.  Não sabe quem o deixou caído. Levantou-se como pôde e foi para casa. O pobre julgou que a dor fosse da queda. Aguentou cinco dias o pulmão perfurado por uma costela. Encontra-se no hospital distrital. À beira da morte e em sofrimento atroz. Que tem de fazer cirurgia. E o cardiologista convicto que o coração não aguenta. Quis visitá-lo mas só à filha é permitido.

É verdade que os mais velhos morrem mais, são mais débeis e estão mais próximos da paragem definitiva.  Que a morte da Violeta me atordoou e me pareceu um sinal.  Que há alguém a alimentar a Lili cega de todo. Na vida, o senhor Zé e as cadelas formavam um triângulo unido que unido segue para a morte.

Fica o caminho. Um claro deserto. E sempre a imagem dos três a adoçá-lo, uma sombra lá ao fundo onde imagino que vão surgir de um momento para o outro. Tão breve foi  o encontro para o tamanho da saudade.  

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Até Sempre

 

Morreu Jorge Sampaio. E, passe o egoísmo, cada vez me falta mais mundo. Não sei se acontece a todos, mas sem desmerecer da camada jovem, reconheço-lhe fraco contributo na minha paisagem. Não me iludo, eles também me ignoram. Preciso, nem sequer me vêem. Somos mundos diversos que, por necessidade, dever  ou casualidade, se tocam e interpenetram umas vezes por outras. O que lhes sugere o nome Jorge Sampaio é uma incógnita, talvez saibam vagamente que foi presidente da nossa república. Ignoram o que perdem. O que perderam. Lamento, mas não assistiram a Jorge Sampaio presidente. Ou eram infantis em demasia para apreciar um homem de classe e saber do orgulho português se apresentava ou recebia os notáveis estrangeiros. Tínhamos confiança nele, estávamos à vontade, não nos envergonhava.  Não sei se foi a educação inglesa (terá ajudado), mas sou incapaz de imaginá-lo sem a correcção e delicadeza que surgiam naturais e os media divulgavam sem que o quisessem fazer.  Um presidente que soube estar. Sinto-me orgulhosa e sortuda por ter vivido durante os seus mandatos na qualidade de chefe máximo da nação. A liderança pelo exemplo não perde eficácia. Obrigada, Presidente.

Fez outras coisas e desde cedo. O jovem Sampaio lutou activamente pela democracia desde os tempos da faculdade. E após a presidência da república não cruzou braços. Entregou-se a defender causas e lutas humanitárias e, fora de Portugal e por qualidade própria, foi eleito para órgãos desse teor. Tenho a certeza que deu boa conta do recado.

Um democrata a sério e uma pessoa de excepção só poderiam resultar no presidente que todos lembramos. Mau grado a evidente dificuldade portuguesa no sector, ele conseguiu, foi o homem da justa medida. Elegância no agir.

Fica em nós a sua gratíssima memória e a frase que fez eterna: 25 de Abril, sempre.

 

Bem haja, Senhor Presidente.

 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

O que ando a ver

 

Herdei o teu gosto pelo cinema. Veio-me de ti e do tio. Não conheço ninguém como nós três para se dependurar num filme. Mas viste apenas três fitas na vida. Uma de Joselito, outra sobre a vida de um toureiro que presumo espanhol e outra com Sarita Montiel, La violetera. Lembro-me de primas e tias te pedirem para os contares. Era um encanto ouvir-te contar. Gostarias destes tempos. Que prazer,  poderes sentar-te em casa a descansar e ver um filme. Tu que recusaste sempre fazer parte do ajuntamento palavroso de mulheres, raparigas e crianças viradas ao pequeno écran. Hoje podias, desde o sofá, dar rédea solta ao sonho.

Por razões diferentes das tuas, aborreço a tv e uso a rtp play para alguns programas. É assim que assisto a série “Vento Norte”. Vejo os episódios contigo, com a parte de mim que és tu. E, portanto, estamos ali as duas, episódio a episódio. É bom que decorra em Braga, cidade de que nem sei se ouviste falar, mas eu conheço um bocadinho, já lá estive. Por certo foste comigo e também gostas da cidade. Também sei que actriz preferes na série. A bem dizer são duas: Natália Luísa e Margarida Carpinteiro que, por acaso, também fazem o meu gosto. E gostas de Almeno Gonçalves, sei que gostas. Como eu. Calcula que até julgo que uma vez me bateu à porta. Mas também pode ter sido alguém com os olhos e o sorriso dele e eu fiquei a pensar, com quem é que se parece; e lembrei-me que era com Almeno Gonçalves. Outra coisa que te cativa em cada episódio são as roupas. Aprecias os figurinos de época, enlevas com modas tão do teu agrado. Nesta série, tens muito por onde. Só me surpreendi quando O nosso cônsul em Havana me apareceu de Oliveira Salazar. Ora esta. E eu a fazê-lo tão longe.

Hoje assisti um filme que não sei se gostarias, temos apenas um pedaço comum de dois. Chama-se “Lara”. Digo-te, o cinema alemão tem boas surpresas. Verifico que os filmes europeus têm o supremo dom de não me parecerem filmes o que os torna ainda mais saborosos e estimulantes. Deve ser um sentimento de pertença, amor ao berço, sei lá. 

sábado, 22 de maio de 2021

Amargo-Doce

 

A vida -  quem sabe se  nós mesmos - compraz-se em alterar planos, rebentá-los como balões, tornando o que muito se esperou em triste e fedorenta amálgama de lixo. Assim nos acontece. Esperámos-te em dias vagarosos e iguais, mês após mês. Esperámos-te sempre. Por mais de um ano. Talvez em egoísmo feroz. Sem ti, somos corpo incompleto, ausência de braço ou perna. Perpétuos recém mutilados,  sofremos de formigueiro inexistente, que apetece dissolver em coceira de dedos. Mas, desiludido caminho onde nada nos espera, há apenas vazio mitigado por fotos e vídeos que não preenchem, não chegam a botox da saudade.  

Num ápice te anuncias. E logo te preparo a casa e me dou a trabalhos redobrados. Arejo e alindo-te o quarto, deixo-te a cama pronta a usar, um bouquet florido em jeito de boas vindas. E sei que o pai te respira na ausência e é para matá-la que vive, que sempre lhe exististe sobre todas as coisas e mais que ninguém. A ti que ele tanto quis fazer desaparecer e que só nasceste por vincada e muito sofrida determinação materna. Azar dele estares tão irremediavelmente longe. Depois de gorada a suprema esperança de um neto médico,  és nascente única da alegria. A sua cabeça dura mantém incólume a distinção entre machos e fêmeas. É quase a contragosto que lhe existe uma fêmea que beneficia de excepção ligeira, por inaudita semelhança ao tronco materno. E igual para os netos, o único que verdadeiramente lhe existe – é o continuador da estirpe –, pouco o conhece e, mal cresceu, logo deixou  de o visitar. Dos restantes não reza a história, descendência de filhas apaga-se, desvanece. Curiosamente, uma luz verde brilhava no ramo que menos prefere, mas, a medicina e o bom carácter desculpavam a ascendência, pacificavam-no. Desejo esfumado, ficaste apenas tu.

Mas a  vida não esquece. E vai sempre castigando. Com afinco. Perseverante. Talvez nem tudo se pague por cá. Contudo, penso com alguma frequência na razoabilidade de palavras que ouvi a Tolentino Mendonça, “o inferno vive-se aqui e não em outra vida”. Tu, que és o menino de seu pai; tu, por quem ele vive, encarnaste os seus defeitos com tanta perfeição que chegado ao meio século, sentamo-nos à mesa e pareces ele sem necessidade de fechar os olhos, fingir de. És a infeliz versão dois que até agora ninguém quis ver por mais avisos que emitisses. É sempre mais fácil não ver, estás tão pouco tempo, o que custa fechar os olhos a uns dias, ou mesmo um mês. E sinto que ele se revê. Não nos podemos ver a nós mesmos, mas vermo-nos projectados num filho pode virar horror. Embora nunca ele o comente deste modo. Não sei se crê nas desculpas que inventa. No meu caso, confesso, exaures-me de forças. Aniquilas-me. Levantas por tuas mãos muros de desânimo. Não foi para isto que te amparei. Terá sido amparo insuficiente, mas, nessa época, havia tanto a fazer . Bem sei, é desculpa para a falta de presença contínua, talvez tenha enfronhado nos estudos para esquecer problemas e lhes fugir e com isso vos tenha prejudicado, as crianças precisam de estabilidade emocional, coisa que só encontrámos uns nos outros e aos bocadinhos.  Sabe, porém, que só hoje o penso, na altura pareceu-me ideal não ter um minuto de descanso, viver a correr e de um lado para outro, no desafio de esticar e testar a corda da doença que tão perto me espreitava. Hoje já o sabes, a juventude é mesmo assim, quer ir sempre mais além.

Desculpa, urge fazer-te justiça, não és cópia idêntica em tudo. És terno e ele não; abraças como um tio que temos, pondo à vista a tua ligação ao lado materno. E preservas o afecto familiar, tens  o desvelo e carinho pela família que lhe falta, amas de raiz mulher e filhos. Pois sabe que não me chega tal disparidade. Temo por ti. Quando uma vereda beira o precipício, a gente não caminha por ela. Parece-me tão solitário e suicida esse caminho para que encontras justificações irrisórias e mesmo estúpidas.

Vens. Ergues bem alto o botão de rosa da nossa esperança. Porém, ainda nem bem nos deleitámos com o aroma da flor, já nos enterras o espinho. Tem dó.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não te vi morto. Prescindi de espreitar-te a lividez de restos tão desabitados de ti como casa a que arrancassem portas e janelas. Faltou-me a vontade.  A possessiva morte varreu-te. Com ela veio o desgosto artístico das flores  acopladas em coroa e coração, olha para o que nascemos. E eu, indicador no nariz e boca de assobio, pssss, mais respeito. E logo elas obedientes, corola baixa, vamos murchar devagarinho, prometemos. Mas, em mim existes tu alegre e jovem, o filho mais novo ao colo, vamos apagar as velas os dois. E  um ano e outro no nosso aniversário, tu a erguer o copo e fazer saúdes que rimavam.  Tu jovem e cheio de força, ainda com o casaco azul do emprego. Ou metido na brancura de uma camisola de alças a cavar o quintal. Eu a observar-te a mecânica dos gestos no mover da enxada que as tuas mãos faziam dançarina, escorrimentos de suor a fazer caminho pelo rosto. E o que ficou na memória de nós todos, a descoberta da tua agenda que tanto gozo deu a filhos e primos. Nessas folhas datadas, apontavas gastos e semeaduras, memórias que adendavas uma vez ou outra de coloquialismo ingénuo. Escrevias, “hoje semeei as batatas” e acrescentavas, “venham elas cá para o Manuel”. E a risota curiosa dos garotos a espiolhar outros àpartes. Mas nunca enjeitaste um filho na barriga. À vista das lágrimas da minha madrinha, enfrentaste a última de peito feito, sempre a animá-la, “deixa lá, é para a nossa velhice”, uma frase tão simples e corriqueira, mas foi bálsamo nas minhas feridas. E o carinho com que olhavas o teu éden. Doente e debilitado, a morte já a chamar-te, mas usando ainda a sem idade do amor. Enlevo de oitenta e cinco anos para oitenta e nove, “tu és muito querida e também és bonita”.
Mas para mim, padrinho, continuamos todos sentados à mesa e tu de pé, copo erguido, a saudar.
Vou beber este copinho
E não me custa mesmo nada
Viva eu que faço anos
E viva a minha afilhada.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não entendo a curiosidade mórbida. Chegam e destapam-te o rosto. E a mim me parece que te violam o recato do sono. A morte é feita de silêncio. Gente que te vai ver morto e outro, mas não te procurou vivo, que não te auscultou o sofrimento, não te aparou a baba e nem soube dos teus passos pequeninos atravessados de andarilho, dos teus pulsos tão finos como se de bebé, dos teus olhos a perderem o brilho, a tua voz trémula e pedinte, contínuo tentear de palavras sílaba a sílaba, treino da nossa e tua paciência. E vontade de os enxotar como Cristo aos vendilhões do templo. Recordo-te em mil passos e cenas que são tu. Como eras. Como és. Como em mim serás sempre. Vejo-te desde o casaco azul de trevira sobre a cal da camisa engomada, pés entusiasmados no pedal,  faíscando alegria. O entusiasmo do amor jovem, as agruras felizes da proximidade, o enlevo do rosto amado. Os teus sorrisos desse tempo, ó surpresa, ilustravam o éden masculino. O teu éden. Que vivia em casa de meus avós e namoravas em casa pela primeira vez. Ora, no átrio da minha infância, não havia rapazes felizes, havia só rapazes. Distantes. Altos. Trocistas. Mas chegavas tão convictamente satisfeito que tomei a parte pelo todo, cataloguei-te de “rapaz feliz” e desde essa tarde iniciática te chamei padrinho como sugeriste dando costas ao “Manuel” tímido de minha madrinha.  Na tarde benévola em que te esperámos em ânsias e de mão dada, a sorte bafejou-me. Encontrara um padrinho sorridente, que dava colo aos meus quatro anos e com quem apetecia conversar. É certo, havia outro. Que foi outro a vida toda. Ninguém. Tão triste ser ninguém. Mas os ninguéns deste mundo não apercebem que se apresentam faltando. A gente vai por eles e só há um buraco. Tu, não.
 Sentavas-me no quadro da bicicleta e seguravas-me com a mão do guiador enquanto com a outra enlaçavas a minha madrinha e subíamos em tríade até aos eucaliptos. Uma vez disseste, faz de conta que é a nossa filha. Rejubilei. Nos eucaliptos, descias-me e namoravam no lusco-fusco. E eu cantarolando saltitava por ali, catando o que houvesse debaixo do aroma das árvores. Talvez a beijasses. De certeza a abraçavas, porque a levavas assim o caminho inteiro. Não me lembro. Depois, levantavas a perna sobre a bicicleta ágil e desaparecias a virar-te para trás e acenar. E quando, lá bem na frente, te perdias, nós duas voltávamos conversando sobre ti, eu sempre perguntando e perguntando.
Casaste e foi tudo muito depressa por excesso de novidade. E disseste-me, hoje é que é, fico teu padrinho de verdade. Mas eu assoberbava a segurar e mirar a armação dos saiotes de empréstimo, apostados em me escorregar da cintura que não tinha. 
Tomei-te por certo. Não me enganei.
(cont.)