A
vida - quem sabe se nós mesmos - compraz-se em alterar planos, rebentá-los
como balões, tornando o que muito se esperou em triste e fedorenta amálgama de
lixo. Assim nos acontece. Esperámos-te em dias vagarosos e iguais, mês após mês.
Esperámos-te sempre. Por mais de um ano. Talvez em egoísmo feroz. Sem ti, somos
corpo incompleto, ausência de braço ou perna. Perpétuos recém mutilados, sofremos de formigueiro inexistente, que
apetece dissolver em coceira de dedos. Mas, desiludido caminho onde nada nos
espera, há apenas vazio mitigado por fotos e vídeos que não preenchem, não
chegam a botox da saudade.
Num
ápice te anuncias. E logo te preparo a casa e me dou a trabalhos
redobrados. Arejo e alindo-te o quarto, deixo-te a cama pronta a usar, um
bouquet florido em jeito de boas vindas. E sei que o pai te respira na ausência
e é para matá-la que vive, que sempre lhe exististe sobre todas as coisas e
mais que ninguém. A ti que ele tanto quis fazer desaparecer e que só nasceste
por vincada e muito sofrida determinação materna. Azar dele estares tão irremediavelmente
longe. Depois de gorada a suprema esperança de um neto médico, és nascente única da alegria. A sua cabeça
dura mantém incólume a distinção entre machos e fêmeas. É quase a contragosto
que lhe existe uma fêmea que beneficia de excepção ligeira, por inaudita
semelhança ao tronco materno. E igual para os netos, o único que
verdadeiramente lhe existe – é o continuador da estirpe –, pouco o conhece e,
mal cresceu, logo deixou de o visitar.
Dos restantes não reza a história, descendência de filhas apaga-se, desvanece.
Curiosamente, uma luz verde brilhava no ramo que menos prefere, mas, a medicina
e o bom carácter desculpavam a ascendência, pacificavam-no. Desejo esfumado,
ficaste apenas tu.
Mas
a vida não esquece. E vai sempre
castigando. Com afinco. Perseverante. Talvez nem tudo se pague por cá. Contudo,
penso com alguma frequência na razoabilidade de palavras que ouvi a Tolentino
Mendonça, “o inferno vive-se aqui e não em outra vida”. Tu, que és o menino de
seu pai; tu, por quem ele vive, encarnaste os seus defeitos com tanta perfeição
que chegado ao meio século, sentamo-nos à mesa e pareces ele sem necessidade de
fechar os olhos, fingir de. És a infeliz versão dois que até agora ninguém quis
ver por mais avisos que emitisses. É sempre mais fácil não ver, estás tão pouco
tempo, o que custa fechar os olhos a uns dias, ou mesmo um mês. E sinto que ele
se revê. Não nos podemos ver a nós mesmos, mas vermo-nos projectados num filho
pode virar horror. Embora nunca ele o comente deste modo. Não sei se crê nas
desculpas que inventa. No meu caso, confesso, exaures-me de forças. Aniquilas-me.
Levantas por tuas mãos muros de desânimo. Não foi para isto que te amparei.
Terá sido amparo insuficiente, mas, nessa época, havia tanto a fazer . Bem sei, é desculpa
para a falta de presença contínua, talvez tenha enfronhado nos estudos para
esquecer problemas e lhes fugir e com isso vos tenha prejudicado, as crianças
precisam de estabilidade emocional, coisa que só encontrámos uns nos outros e
aos bocadinhos. Sabe, porém, que só hoje
o penso, na altura pareceu-me ideal não ter um minuto de descanso, viver a
correr e de um lado para outro, no desafio de esticar e testar a corda da
doença que tão perto me espreitava. Hoje já o sabes, a juventude é mesmo assim,
quer ir sempre mais além.
Desculpa,
urge fazer-te justiça, não és cópia idêntica em tudo. És terno e ele não; abraças
como um tio que temos, pondo à vista a tua ligação ao lado materno. E preservas
o afecto familiar, tens o desvelo e
carinho pela família que lhe falta, amas de raiz mulher e filhos. Pois sabe que
não me chega tal disparidade. Temo por ti. Quando uma vereda beira o
precipício, a gente não caminha por ela. Parece-me tão solitário e suicida esse
caminho para que encontras justificações irrisórias e mesmo estúpidas.
Vens. Ergues bem alto o botão de rosa da nossa esperança. Porém, ainda nem bem nos deleitámos
com o aroma da flor, já nos enterras o espinho. Tem dó.