domingo, 16 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Dentro de mim, a sílfide morria soterrada por impensadas camadas de maldade e a desilusão com o mundo dos adultos engrandecia. Das mãos  via apenas a malvadez furiosa de encontro ao corpo de Teresa, e, no agudo aleijão da fúria, também os pés de fada em  sapatinho rasteiro tinham eclipsado. Até os olhos liquefeitos em amigável poalha dourada, me surgiam agora revirados por espessa nuvem de dureza, a  perfídia a consumi-los. Circunvaguei a porta impúdica por onde entrara. E não vi o sortilégio de um xaile, uma alegria limpa por mínima que fosse. Cabisbaixa e só, a filha do Pelinhos caía em si e sentava arrependimentos em monólogo bêbedo, feito de sons balbuciados e farto em silêncios reticentes. Que a curiosidade benévola seguira atrás de tia Casimira num desatino de empecilho condoído, partiu-lhe algum braço ou perna; se calhar esborrachou-lhe qualquer coisa por dentro, coitadinha; que lhe arrancou um montão de cabelos vi eu… e todas queriam espreitar o corpo deslembrado de Teresa, deixe ver comadre, deixe ver.   Mas, chegada ao umbral de casa, a velhota sentenciou, vocês desculpem, tenho de cuidar da pequena, vão tratar da vida que esta alminha precisa tratamento e sossego, já lhe basta o que basta. E as velhas refizeram as travessas do carrapito, ajustaram o nó do lenço que lhes fugia da cabeça  e assentiram a olhar para as mãos, a desfazer um vinco no avental ou a mirar sabe Deus que horizonte, pois claro, pois claro, ela foi ama sabe o que há-de fazer, e a menina precisa de descanso. Ou: ainda é uma mulher tesa a ti Casimira, fez-lhe frente e a outra amochou. E desandaram deixando avisos, ti Casimira, se precise de alguma coisa que haja em casa já sabe, é só dizer.  

E tão pouco podiam. De restos de lençóis rotos rasgavam-se ligaduras que prendiam com enferrujados alfinetes de ama vindos de muita guerra e que, em geral, moravam em conjuntos de dois ou três no peito das avós. As maleitas  tratavam-se  com pomadas caseiras, mistura de ervas e gorduras; e havia as mezinhas com reza aplicada, para o mau olhado ou quebranto, a lua dos bebés, o pé retorcido, a dor de cabeça, os males de cada parte do corpo, que de tudo sofria o povo. Algumas vezes os males desapareciam sem se saber porquê, mas logo a cura certificava o bom resultado da receita; de outras, rezas e mezinhas acicatavam a doença que aferrava ao doente, o fatalismo popular a conformar-se, tinha de ser, o destino quis assim, Deus o trouxe Deus o levou. Visita de médico a um domicílio era caso insólito e tinha tanto de sentimento como de mau presságio: se por um lado revelava extremado amor familiar, por outro era sintoma infalível de morte rondando, “calculem que até chamou o médico”. O causídico entrava acompanhado por um familiar e à saída deparava com a pequena multidão que entretanto acorrera. Farmácias e médicos eram luxo, uma extravagância de pobre. Gastavam a vida com o estômago a meio gás, almoços e jantares sem rasto de sobras. Refeição terminada, ficava  o importuno grito nos olhos da criançada, o fundo desconsolo dos insaciados mirando o fundo rapado de tacho ou panela. Portanto, a quem poderia tia Casimira pedir o que fosse.

E enquanto a vida prosseguia, à boca da rua, a Zefinha aliviava garantindo de mão no coração, que grande susto. Isto não é uma mãe, é uma desalmada, ia matando a inocente. E repetia a história a quem passava.

14 comentários:

  1. Testemunhei essa violência com vizinhos que usavam os filhos como sacos de pancada.
    Hoje dizem que se arrependem.
    Mas as marcas ficaram lá.
    Para toda a vida.
    Boa semana

    ResponderEliminar
  2. Os tempos eram outros, Pedro, e a violência dos pais e irmãos mais velhos era comum. Não que esteja a desculpá-la, mas fazia parte de um quadro mais ou menos complexo de origem simples: a pobreza ignorante e miserável. Suponho que o pavio curto provinha do carácter de cada um. Assisti a sovas memoráveis entre irmãos que hoje as lembram com bonomia.
    Bom dia.

    ResponderEliminar
  3. Olá, Bea!
    Quanto à vivacidade e qualidade do texto,melhor era impossível. Parece que se está a assistir a tudo.
    Sim, havia tantas ocasiões em que 'a desilusão com o mundo dos adultos engrandecia'. Felizmente, a ti Casimira estava por perto, com o seu lenço que, imagino, ajeitava com as velhas mãos de pele rija e esforçada.
    Pessoas como ela também iam dando passos para que o direito à não violência fosse praticado.
    A figura da Zefinha também é castiça e julgo que havia cópia em muitas aldeias. Também na minha as havia e ainda há, ainda que agora encontrem outros modos como o facebook!!!
    Bea, um dia bom.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Imagino que a Zefinha seria uma coscuvilheira de pouca maldade, mas um bocadinho doída da filha do Pelinhos não lhe dar troco. Ainda lhe hei-de apôr mais umas características. Era a vizinha mais chegada. E mais há-de acontecer. Provavelmente.
      Bom dia, Maria.

      Eliminar
  4. Nunca tinha ouvido chamar causídico a um médico e não obstante esculpe a palavra de um modo tão nítido, que até nos dá o desejo de as apalpar uma a uma, ao de leve, a confirmar a perfeição.
    Poderá parecer um exagero poético da minha parte, mas não consegui controlar o impulso, como no anúncio publicitário de antigamente, "e se um desconhecido lhe oferecer flores...".

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca tinha ouvido, mas já tinha lido, Joaquim:). Digo-lhe que também nunca ouvi. Fala das minhas palavras como se sejam recém nascidos a quem se verifica a perfeição, cinco dedos por mão e pé, olhos, boca, ouvidos, nariz, duas pernas, dois braços. E um suspiro de alívio.
      Era uma publicidade bem esgallhada, não era?

      Eliminar
  5. Outros tempos? Só nas pomadas caseiras e nas rezas do quebranto, porque hoje há imensa violência com cicatrizes que duram toda a vida. Mais um magnífico texto. Parabéns.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  6. A violência hoje é diferente, pode crer, Graça. E abate-se mais sobre as mulheres que sobre as crianças embora elas assistam a muito do que não querem ver e tais marcas tendam a permanecer.
    Todos temos cicatrizes e há que aprender a viver com elas, o mundo humano não é perfeito. Para além disso, é sempre de combater o preconceito em que radicam as pancadas e toda a violência gratuita e atentatória da dignidade que assiste a cada um. A educação pelo exemplo parece-me o melhor caminho. Sou um bocadinho contra a moralização constante.

    ResponderEliminar
  7. Tão dolorosos estes dois últimos episódios.
    As respostas da Bea aos comentários são tão ponderados, tão cheios de sabedoria, sensatez e justiça.
    Por exemplo: "Suponho que o pavio curto provinha do carácter de cada um."
    Gosto mesmo muito, de tudo o que daí, de si, vem.


    ResponderEliminar
  8. Não sei, sinu, a escrita é enganadora, os actos são outra coisa. Mas sou um bocado avessa a sermões e palavras moralizantes; não gosto daquelas histórias com fundo moral, que encerram a lição óbvia do bom comportamento e por vezes até terminam desenvolvendo esse aspecto. Talvez nas crianças façam efeito, têm o carácter em formação, mas não as contei a meus filhos e, até ver, não me parece que lhes faltem.

    ResponderEliminar
  9. Bem, este foi igualmente forte. Não é fácil.
    Mas mais uma vez, está belíssimo, com toda a sua complexidade.

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Cláudia. A ideia era que fosse mais ou menos verosímil.

      Eliminar
  10. A minha avó materna conhecia todas essas mezinhas e rezas.
    Lembro-me tão bem de a ver fazer isso.
    A que mais recordo é a que ela chamava, curar do "esbandalhado".

    ResponderEliminar
  11. Nunca ouvi falar do "esbandalhado" como doença, Magui. Mas o termo é de si mesmo muito engraçado.
    Tenho algures duas orações antigas que meu avô sabia. Guardei-as, mas esqueci onde. Talvez ainda apareçam.

    ResponderEliminar