Em
desbunda energizada, lançou-se a gritar o que eu achava serem nomes feios e
rancorosos– e foram muitos nomes – que deslizavam na minha estranheza auditiva e
faziam oscilar as pontas do lenço de Dorinda, a cabeça em desaprovação
silenciosa e dois dentes de coelho, amarelos
de escândalo, mordendo o lábio inferior. Contudo, fixei o estribilho, és uma
tronga, sua tronga, quem me manda meter-me com trongas destas, isto é tudo um
tronguêdo. A dar descanso à garganta, enfiou a camisa nas calças e passou a mão no cabelo. A pausa inspirou-o e
veio a reviravolta. Aproximou-se da porta fechada, deixa-me entrar, prometo que
não te toco, fazemos as pazes e fica tudo bem, amorzinho; vá, deixa-me lá
entrar, olha a menina; pelo amor que lhe tens, abre a porta.
Da
casa não vinha um som. Teresa parara o choro e da mãe não havia sinal. Pelas
portas, os homens, alguns ainda de pincel e gilete, metade da cara raspada, e outros flanando, desanuviaram. Por seu lado, as mulheres engrenaram
no hábito, deitando embora um olhinho ao filme que agora corria manso e quase desinteressante.
E houve as inevitáveis apreciações, ela é valente, chegou pra ele; uma desgraça
aquela mulher, não há homem que lhe assente; tão desmiolada benza-a Deus; coitadinha
da criança, para ela é que é pior, pois se nem é filha dele, que amor lhe pode
ter o cartapácio; olhem bem para aquela figura, só lhe falta andar de joelhos a
cumprir promessa em volta dela, ai Deus me acuda, que ele há homens que não os têm
no sítio. E mais.
Eu
embezerrava de inédito. A céu aberto, conhecia as brigas dos homens na taberna
e de que fugia a sete pés e a virar o rosto para o outro lado; as quezílias dos
garotos na escola e que não suportava porque as caras me assustavam de
tanta fúria, eram lutas que terminavam com sangue, dentes partidos, mancheias
de cabelos arrancados e uma data de reguadas da professora. E as poucas brigas
de mulheres remexiam-me o estômago. Chegava a casa a tremer da cabeça aos pés
e minha avó dava-me chá de ervas, bebe, mas quem é que te manda olhar para
elas, sua parva; deixa-as brigar, que se esgatanhem se não têm mais o que fazer.
No escuro da rua, já tinha entrevisto mulheres espavoridas que o mau vinho dos homens ameaçava de morte, ai que ele diz que me mata com a machada; e mais isto e mais aquilo. Mas nunca observara que os maridos as perseguissem. Uma vez por outra, ouvira os gritos e o choro nocturnos da Guilhermina do Raposo que era sovada inda bem não. Mas o desastre corria sempre dentro de portas. Desta vez, não. Ainda era manhã. Acontecera à vista de todos. A mãe de Teresa, apesar da diferença de forças, dera luta e, ao invés das demais mulheres, parecia saber defender-se. Não lhe sabia nome e nem a reconhecia se a visse, mas começava a pô-la um degrau acima. O caixeiro viajante parecia-me um vira casacas. Primeiro assistira-lhe a injúrias e ameaças que mal entendia; depois, a rogos, palavras ajoelhadas, rastejantes, que me davam grande tristeza e adubavam certo bem querer. Por fim, voltara às ameaças que lhe roubavam as minhas simpatias, desfaço-te sua cabra, faço-te o focinho em carne picada - E zás, o étamine do postigo feito em fanicos -, é p'ra veres, é p'ra saberes o que te faço se te ponho a mão, desgraçada, cabra de um corno, maldita a hora que te pus a vista em cima.
O
abismo em que caíra Tia Dorinda retinha-a especada a meio da rua, meneando a
cabeça. Quando apercebeu que éramos as
únicas no coalho de sol e me notou o traje - descalça e de combinação - como que acordou e, ai valha-me Deus, se a tua
avó te vê assim, vamos lá vestir-te uma roupinha. Não me mexi e puxei-lhe o braço apontando a
casa. Observara o acesso, alguma
coisa voou atirada postigo fora, e logo soou o choque do metal a embater no automóvel
antes da queda. Então o homem apanhou do
chão a qualquer coisa e abriu o carro. Pô-lo em marcha e desapareceu na curva, mais o seu repertório de pragas e pedidos. Tia Dorinda suspirou aliviada e
cutucou-me, vamos.
A sua escrita é mesmo um prazer.
ResponderEliminarMesmo esses episódios de absoluto horror e violência se tornam de repente sedutores.
Chapelada!
Uma criança não vê o mesmo que um adulto e suponho que se deixe levar pelas primeiras impressões. E depois vá sobrepondo umas sobre as outras.
EliminarObrigada pelo seu estar de chapéu na mão:).
Os homens são uns eternos incompreendidos, ou são uns brutos, uns selvagens, ou não os têm no sítio, uns bananas. Penso que nesta última categoria de mansos, se encontram também aqueles que, para evitarem a violência que a sua robustez física propiciaria mas que o respeito pelo ser humano recusa, se resignam a uma espécie de amedrontamento que tudo consente e que esconde a sua dor amarga e calada de revolta.
ResponderEliminarAs mulheres, mesmo sendo vítimas, são também preconceituosas. E o que menos muda, ou muda mais lentamente, é a mentalidade. Este caixeiro viajante não é um energúmeno, não penso traçá-lo assim. São dois sangue-quente que se cruzaram. Os seres humanos sentem-se uns eternos incompreendidos (não é exclusivo dos homens). Em geral, esperam demais dos outros. Mas cada próprio que espera é também esse outro que não compreende. Portanto, talvez fosse salutar pôr de lado as expectativas de compreensão absoluta, e ficarmo-nos pelo possível. A salvação começa em nós mesmos. E também a perdição.
EliminarBom dia, Joaquim.
Mais um belo texto. Que espectáculo, mesmo com alguns pormenores menos felizes, digamos. :)
ResponderEliminarBeijocas
A vida também os tem, não é Cláudia.
ResponderEliminarBom Dia:).
Sempre a palavra certa no momento no momento certo, Bea.
ResponderEliminarOs cenários parecem ter várias dimensões e nada lhe escapa, até os 'dois dentes de coelho' da Dorinda. E os homens com a barba meio feita e os rapazitos de caras assustadoras...
Tudo muito bom!
E aqueles conjuntinhos maravilhosos de palavras:
'Eu embezerrava de inédito'
'as únicas no coalho de sol', etc.
A violência narrada é grande mas o afeto de algumas das mulheres não é menor. Felizmente.
Parabéns, Bea, por mais um retrato tão vivo e tão realista. Espero que seja um capítulo de outros que virão.
Obrigada e bom fim de tarde.
Pois é, não me parece que seja história assim tão curta, Maria.
ResponderEliminarFaltam-me as palavras tanta vez que se me conhecesse sem ser daqui havia de rir da expressão que usou; ou nem a usaria. Mas reconheço que na escrita as procuro e encontro melhor que na linguagem oral. Escrever é um exercício de egocentrismo, pertence tudo a uma só pessoa.
Eu acho, sem qualquer falsa modéstia, que sou q.b. em muita coisa, mas não sou muito boa em nada. Pondo na balança a escrita e a oral, eu acho que sou melhor na escrita, porque, quando falo, ouço muito o que digo e perco-me, assim como perco as palavras!!!
EliminarA escrita pode ser egocentrismo, mas quando se partilha o que se escreve também é generosidade, embora também faça bem ao ego!
Reli o meu comentário. Acho que me estava a armar: sou q.b. nalgumas coisas apenas. Digo para mim própria: querias, hein !!!
EliminarA partilha da escrita é muitas vezes de uma generosidade especial, uma espécie de tomai e comei, estou aqui, sou eu. De outras é uma espécie de destino, torna-se profissão assoberbante, há quem viva sobretudo para escrever e, claro, gosta de ser lido, ou sente-se inútil. Seja qual for a causa, sendo escrita de qualidade, vale a pena a leitura.
Eliminarq.b. é ser apenas suficiente, toda a gente é suficiente em muita coisa, Maria. Portanto... Também julgo que temos um ou outro ponto em que vamos além de qb. A Maria há-de ter algumas coisas em que é boa, nada de modéstias sobrantes. Com sorte, ainda tem algo de excepcional. Quem melhor a conhece, dirá. Mas, mesmo que não se encontre de excepção em qualquer âmbito, acredite que, para quem goste de si, é excepcional e única, essa a grande riqueza dos homens.
A nossa fluência verbal não foi muito treinada, a escola treinava a ouvir, a casa a acatar e as conversas, se as tínhamos, existiam no seio dos amigos e alguns de nós viviam muito isolados. Depois, escreve-se em diferido o que permite a emenda vezes sem conta. Mas a oralidade exige-nos o pronto pagamento. Suponho que seja por esse motivo que tanto gosto de ouvir conversar na rádio ou mesmo na tv. Dançar e conversar são duas actividades que gosto de assistir. Não fico naquela de aprender, só curto.
Boa tarde:)
Não conhecia a palavra "cartapácio".
ResponderEliminarOs espectáculos do tempo das nossas avós, com direito a personagens reais, ao vivo e a cores.
Foi também o meu tempo, Magui. No geral, é realidade conhecida.
ResponderEliminarNa verdade as pessoas não diziam cartapácio mas catrapázio; só que fui ver e o dicionário não aceitou a palavra (prefiro catrapázio, será por não existir).
Já estou a cair em tentação para dizer de que romance me lembro quando leio a Sombra Chinesa.
ResponderEliminarNão sei se a Bea quer arriscar saber.
( mais por estar a ser contado na primeira pessoa por uma criança - o enredo depois se verá)
Não mato a cabeça para saber, Sinu, sou preguiçosa nata. Mas gostava de sabersem ter trabalho. Pode crer que, mesmo sabendo, não vai sair igual:). Acho eu que nunca li um romance escrito (supostamente) por uma criança. Mas gosto de histórias contadas na primeira pessoa, daquelas que são situadas, falam de uma rua, numa cidade e num tempo preciso. E parecem mesmo verdade.
ResponderEliminarBoa noite.
Dom Casmurro
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