Depois
daquele domingo, as mulheres mascararam a inveja com temores morais e puseram a
filha do Pelinhos a distância, davam-lhe o bom dia e boa tarde sem mais conversa. Ora eu julgava-a quase uma heroína e
ansiava vê-la de perto. Mas pouco saía. Não ia à escola e não aparecia à porta
quando Teresa saía ou regressava. Para lavar roupa, recusava o tanque comum da
casa da Liu e pouco aparecia na rua. Se
perguntava a minha avó, como é que ela é, respondia, é uma mulher, tem dois braços e
duas pernas. E eu descoroçoava.
Mas
o acaso fez-me a vontade. Certa tarde de mandados, vinha eu molemente pela rua
de terra dando pontapés nas pedrinhas, cruzámo-nos. A falar verdade, mal a
lobriguei a sair de casa, retardei o passo, curiosidade a desengalgar e eu a puxar-lhe
a arreata. Impressionou-me o xaile que lhe envolvia a figura. Todas as mulheres
mais velhas usavam um xaile negro e pesado que rematava em cadilhos compridos. Minha
avó, que muito se ufanava do seu, costumava contar que me embrulhara nele logo
ao nascer. Mas a mãe de Teresa era jovem e o xaile que a envolvia tinha outra
natureza. Não era negro nem pesado, desenvolvia-se numa espécie de renda em matizes
de verde profundo e a franja pousava delicadezas sobre o amplo da saia. Talvez o
prodígio nem fosse apenas do xaile e antes ele avivasse por mor do vôo das mãos
que o puxavam ao peito, da forma como a renda se ajeitava no redondo dos ombros,
de certo orgulho no queixo levantado. Parei a olhar a aparição que se
aproximava em sapato rasteiro. Ao cruzar comigo, baixou os olhos e perguntou
por minha avó, mandou cumprimentos. Fiquei eufórica, a mulher conhecia-me.
Apetecia-me dançar, mas devo ter apenas respondido que minha avó estava em casa.
E, enquanto ela se afastava, na minha
mente, a todo o pano, piscava um letreiro
colorido, uma estupefacção, “A Teresa não é nada parecida com a mãe”. Portanto,
a minha admiração desenovelou.
Andava
eu neste enleio de simpatia cheia de rebiques pela mãe da Teresa, e confusa por
observar que a garota alheava das qualidades da progenitora, ajuizando que Deus
não sabe às vezes o que faz e dá boas mães a quem não as aprecia, quando a
realidade me trespassou o encantamento. Tinha passado uma semana, talvez duas, sobre a tempestade de domingo e, salvo o diz que diz e a atenção à casa da
Teresa, a vida na aldeia não mudara.
Era uma tarde morna de pássaros e sombras
compridas. O sol ainda quente cosia os velhos à sombra do monte, a incessante paciência
das mãos a remendar, descascar feijão, migar couves para as galinhas, entrançar
réstias de cebolas e alhos. E um olho na gaiatagem. Mulheres e homens da jorna
ainda não tinham despegado e davam as últimas pelos campos. havia uma quietude
animal e deslaçada no ar, como se a vida suspensa, aguardando os que ganhavam o
pão. Foi nessa altura que se ouviram os gritos, acudam, acudam que ela ainda
a mata.
Ia lendo e percebi que sentia a calma que antecede a tempestade.
ResponderEliminar:))). ~E fictícia Pedro.
ResponderEliminarBom dia.
Presa neste suspense...
ResponderEliminar:)
Talvez só amanhã Luísa. Quem não vive disto, tem de fazer outras coisas:). Como diz o Joaquim, coisas desinteressantes mas necessárias. Nos intervalos, a escrita acontece. É o tempo a fazer-se livre.
EliminarA maior parte do meu tempo dedico-o a executar tarefas tão necessárias como desinteressantes, o que resta dele educo o espírito com livros, filmes e seguindo alguns poucos blogs.
ResponderEliminarNo seu Bea, amiúde encontro histórias - quem não gosta de uma boa história? - em que fico preso quer pela trama, quer pela forma.
Uma boa história assenta na técnica inocente do sucedâneo de eventos “e depois, e depois". É este progresso contínuo de situações que nos agarra a curiosidade; o nosso cérebro adora este emaranhado de ligações.
Nas suas histórias o "e depois" manda requintes literários, com recurso a coisas do género: "Certa tarde de mandados", "Parei a olhar a aparição", "Era uma tarde morna de pássaros".
É aqui que o nosso cérebro faz uma pausa e ordena aos olhos para voltarem a trás e se deleitarem com uma segunda leitura. A trama, a história em si, passou para segundo plano, ante tamanha beleza estilística.
Obrigado Bea, aqui estaremos mesmo que não haja um “e depois, e depois". Talvez por isso.
Porque há um e depois, e depois. Sem ele, nem uma história é história. E cada um o escreve a seu modo. Todos diferentes, todos iguais, não é, Joaquim?
EliminarEstou a gostar muito desta "Sombra Chinesa" e das palavras que a desenham. Sublinho: "a curiosidade a desengalgar e eu a puxar-lhe a arreata" "a franja do xale pousava delicadezas sobre o amplo da saia"
ResponderEliminar" uma tarde morna de pássaros e sombras compridas"... BFS
Obrigada por gostares, prosa. Prezo a tua opinião.
EliminarE mais? Eu sei, ainda agora saiu esta, mas deixar assim a história neste limbo.. Não se faz :P
ResponderEliminarBeijocas
Faz, faz, Cláudia, os meus dias são cheios de outras coisas. Escrever é tempo livre:))
EliminarTão bonito, tudo. É literatura num blog, quer dizer, fresquinha, acabada de escrever.
ResponderEliminar:)
Agradecida.
fresquinha como uma alface, sinu.
ResponderEliminarEu é que agradeço.
Retratos de um povo tão bem (d) escrito!!! Bj Bea
ResponderEliminarSomos nós, Gracinha. Com o que temos cá dentro.
EliminarQue beleza, Bea. Tantos planos a filmar por palavras aquela aldeia. E 'O sol ainda quente cosia os velhos à sombra do monte' e tantas outras palavras que me ficam aos olhos.
ResponderEliminarTenho uma amiga que costuma dizer a quem escreve assim: 'tem a chave'. É o seu caso, Bea.
Obrigada e parabéns.
Mas quero saber donde vêm os gritos e porquê!
Boa tarde, Maria. Como verá logo mais, que as sextas são trabalhosas, não há mistério. Mas alguma coisa não bate:).
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