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domingo, 4 de maio de 2025

Dia da Mãe

 

        Pergunto-me ao longo dos dias, se o que sinto é saudade; se este cinza de alma nasce da tua falta conjugada com a impossibilidade de substituição. Criei absoluta consciência de que o irremissível da morte nos fez impossíveis uma à outra. Não tenho sonhos bons contigo, nunca tive. Tu que sempre foste pacífica, a quem nunca, nem uma vez, ouvi um grito, e tiveste o último filho em casa, povoas as minhas aflições nocturnas. Não porque estejas, apenas porque não estás e te necessito severamente. Ou porque afinal nem morreste, era falsa a notícia da tua morte, encontras-te em hospital que ignoro e corro léguas por ti (por que razão andarei sempre a pé?). Mas não te encontro. Acredito que nem em sonhos alguma vez nos encontraremos.

        Talvez a eternidade e o espírito religioso, que nos acompanham desde os primórdios, sejam o sonho do homem, uma forma de não se defraudar com o efémero que nos sujeita; ou serão um prémio menor, qual guloseima, entretém de criança que lhe interrompe a choradeira. Porque todos queríamos – e isso é indiscutível - a vida como a conhecemos, com todos os que, até ao fim, fizeram a diferença dentro e fora de nós; a vida com os contratempos e surpresas que nos medem as forças e trazem novas pessoas e oportunidades; a vida com a beleza estranha e patética que lhe atribuímos.

        O eternamente bom, por mais que o pensemos, não seduz. Falta-lhe a efémera e frágil medida humana. Será que te encontro de novo nesse hipotético mundo de satisfação sem falhas?! Mas o que seremos então?! A sermos, seremos outras. Não um outro eu. Mas uma diversa natureza. O que quer que nos caracterize não terá dimensão humana. Estaremos talvez tão desligadas como nunca fomos. E, no entanto, não concebo, seja qual for a forma que (e se) assumirmos, a suposição de que passemos incógnitas uma pela outra. Isso, eu sei sem saber: não acontece.

        De ti herdei a afeição, a sensibilidade, a alegria e o gosto por cantar. Também certo desleixo com a aparência, a aceitação da transcendência e a compaixão. Não tenho a tua voz maviosa, nem o teu discernimento inteligente; faltam-me os teus silêncios compreensivos e talvez nos meus olhos não habite aquele amor intransponível que tinhas por nós quatro. É verdade que no início lutei contra ti e me insurgiam comparações, talvez por saber que saía a perder; ou porque a juventude se quer sem muleta.

        Garanto: nunca entenderei como sobrevivi à tua perda. E menos entendo qual a utilidade disso. Viver contigo e de ti foi o melhor da minha vida. Obrigada.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Hoje e Sempre

 

        Morreste no mês do teu nascimento. Há assim coisas. Acasos que a vida transporta e faz coincidir. E eu que nunca gostei de Fevereiro, guardo-lhe diversos cambiantes: a memória traz-me datas e dias felizes e tão irrepetíveis que a impossibilidade age como agulha e lâmina de doer. E apresentam-se outras horas que, por motivo inverso, só terão fim quando sucumba ou deixe de pensar e ser eu. São macabros dias, a crueldade impávida e mecânica dos acasos infelizes a tiracolo. Arrasadores. Dois conjuntos de carga contrária postos frente a frente como o poeta cantou de certos painéis, “quem pôs assim os homens frente a frente…”. Anualmente cumpridor, o calendário compraz-se em mostrar-me o que foi. E eu, a de memória que escasseia, recordo-os um a um, chegam-me de um fundo borbulhante e que não se me dava esquecer – boas e más horas. Desapertava-me do rigor dos dias que se viram para trás e são sem refrigério. Mas não podemos ser outros; nem mesmo se o julgamos possível. A identidade só por patologia se perde, vive de nós, colada ao que fazemos e pensamos, à forma como agimos a sós e com os outros. Lembro as palavras de um professor criticando Sartre, “l’infer c’est le moi”.

        Não me iludo. É humanamente impossível que gente como tu absorva a longevidade. Sofrias de excesso de substância, eras demasiada em cada momento e breve te esgotarias. Diz-se que partem cedo os que Deus ama. Afirmo que nem poderia ser de outro modo. Até ao fim sou grata à vida pelo tempo claro da tua existência tocando a minha. Contigo, nada me faltava.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Flores de Papel

 

É certo que te lembro, não existe um modo para esquecer-te. Tampouco o desejo. Porque vim de ti de tanta maneira e não apenas pelo embrião que alimentaste involuntária. Pergunto-me se nos teus incautos dezassete anos fui desagradável surpresa e tenho de concluir que, a princípio, me aceitaste incrédula e temerosa. Nunca falámos disso. Já ao meu carinho faltava poiso quando a cédula pessoal e o que de ti conheci me informaram: não fui a concretização de um desejo mútuo. Por que terei nascido senão por um acaso  - de certeza um forçado acaso – da tua fertilidade. Quão agradável seria pensar-me fruto de amor extravasado, borbotão impulsivo e indómito onde corpos e almas se perdem para mais se encontrarem. Mas o certo é que fizeste dezoito anos ainda solteira, já eu um segredo, em voltas misteriosas no útero. Por essa altura, receios à parte, amavas-me em profunda certeza de raiz aprumada. Quem nos diria que, conscientes e malogrados, os meus dezoito se despediam de ti numa festinha de intraduzível pesar em que teimaste e sabíamos ser-te a derradeira. A doença sobrepunha e espezinhava, comandava-te em ferocidade, eras joguete. Os inesquecíveis, acabrunhados dezoito anos.

 Desculpa a pretensiosa ousadia, mas ninguém como eu te soube. Mesmo. Apesar do tanto que não vi, a atenção foi uma constante. E, agora que penso nisso – como é que o não pensei antes -, é certo, não te encontro na vida alguém mais atento. Não é mérito, bem sei que a atenção filial é muito insuficiente. Aconteceu-te ser solitária excessiva e, talvez por essa via, me fui infiltrando por dentro da tua existência. Corrijo, da nossa vida. E permanecemos. Duas. Diversas e inseparáveis. Eu, Inábil e infantil, semi consciente do que escondias e quase exterior à crueza da tua verdade. Ainda assim, amorosamente atenta.

Dou-te flores. Sempre. Hoje e em todos os dias, a insuficiência florida da minha amorosa atenção.

Deixa que te abrace como dantes, a perguntar estupidamente, “mãe, gosta de mim?”, certa da resposta que ensaiava à vista e nunca me chegou textual. Fico, portanto, à espera de ouvir, “não”. E tonalidade mais terna não é passível de existir.

 O que eu gosto de ti, caramba. 

PS: sei, era ontem. Mas ontem, como bem sabes, estive um bocadinho para o imprestável.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Recado

 

Partiste com muito aviso, parangonas gigantescas de néon  em anúncio incrédulo. Não um quadro que se consulta alinhado como o das partidas e chegadas de aviões, olhos de gente ávida e expectante; antes uma urgência de ambulância correndo para a morte.  Fatalidade nossa que fui incapaz de transformar. Desculpa, falta-me o jeito de plantar flores em buracos negros. Jamais te queixaste da sorte nenhuma que te assistiu. Nunca como eu apostrofaste a divindade. Mas partiste. Seguramente, a contragosto, um escuro sem tamanho a apertar-te o coração: os meus filhos. Não receavas a partida, a vida roubara-te sorrisos e cantigas, não souberas de tempos bons e nem sequer uma lufada de ar fresco te percorrera. Desconheceste o breve repouso do guerreiro entre o perfume das rosas.  Mas lutaste bravamente. Por nós. Uma leoa. A morte, por mais que o meu desejo porfie no contrário, foi-te lenitivo. Depois do que assisti, até o nada se faz desejável. E sim, eu praticaria por minhas mãos a eutanásia que decerto não quererias. Porque a religião. Porque a vida. Porque Deus a dá e Deus a tira. Creio com firmeza que nenhum Deus que é Amor pode querer tal tormento continuado. E, havendo esse outro mundo em que porfiaste até ao fim – acho mesmo que não pertencias a este senão por distracção divina -, estarás sentada à excelsa direita.

Portanto, ontem foi um domingo qualquer. Afinal, nunca conheceste este Dia da Mãe. O teu dia era a 8 de Dezembro. Recebias um cartão com um estentório e muito apagado e refeito desenho, do qual o pai se ria longamente e umas palavras que copiávamos do quadro negro sem lhes sabermos significado. Mais tarde, emendei esta situação. Já sem ti. Cada aluno escrevia uma carta à mãe (também ao pai) e assinava com o nome pequeno que ela/ele lhe chamava. Pequenas maravilhas que, espero, os pais tenham guardado. Ia nelas um bocadinho do meu amor por ti. É certo, hoje dou-te flores e não esqueço a data. Vale nada. Pobreza de dádiva.

Do pouco que fiz contigo e para ti, ficou curta alegria:  a primeira prosa e até, como bem sabes, o primeiro poema. Incipientes. E tua pertença. Arriscar um poema. Eu. Que admiro sem arte a poesia. Porém, o contentamento não é tê-los escrito, mas ter-tos enviado. Em curto discernimento e profundo amor, tive a ideia de tos oferecer num dia qualquer (onde terá parado essa carta que guardavas dentro do saco preto, te sobreviveu e não encontrei). Escreveste-me a contar a tua alegria neles (missiva que também perdi). Li-te de olhos húmidos sabendo das tuas pálpebras a inchar e da alegria comovida no teu coração grande e delicado. Continuo a ver-nos a incomensurável distância, pertença de dois mundos exógenos. Mas o profundo Amor. O indestrutível Amor.

 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Inolvidável

 

         Separam-me nove anos do tio que foi desde sempre o meu preferido. O meu e o de todos os sobrinhos que lhe calharam em sorte. Hoje, é, sem rebuço, o avô eleito. Ora esse tio que era a nossa alegria, mal se empregou, comprou uma máquina fotográfica. Emudecíamos de espanto para o aparelho e, se nos calhava pegar-lhe, impávamos de orgulho e respeito ao santo. Portanto, havia dias em que nos “tirava o retrato” e “apanhava” a família nos estados mais insólitos, facto que muito nos impressionava. Tenho memória de me adentrar fixamente em comparações milimétricas de pessoa e foto para concluir que aquele formidável aparelho punha tudo no papel, era preto no branco, nem um  pormenor faltava. Em segundos, guardava tudo da pessoa. Tanta presteza sem escapatória deixava-me até temerosa, ver tudo nem sempre é saúde. Aos dez, onze anos, deveria ter outro pensar. Mas não acontecia. Mais tarde, mercê das aulas de física, compreendi os meandros do aparelho. E a descoberta dos negativos foi o golpe de misericórdia na inteligência magna que lhe imaginara.

         Ora, por data querida a nós dois (a mim e ao tio), um dia destes o meu  mail beneficiou de resposta prestes a que o tio juntava “uma coisinha do baú de recordações”. Julguei que fossem fotos dele a volar na capoeira das galinhas (um fora e um dentro); ou quando armava em apanhador de peixinhos vermelhos e saía da vala que atascava a mais não poder completamente enlameado,  e nós, pernas para que vos quero, subindo até ao tanque de rega, o peixe a escorregar nas mãos em concha,  espasmos de aflição e morte no abrir e fechar da boca e a que só as águas do  tanque punham fim. Esperava um sinal fotográfico dessa infância, dos meus irmãos, dos primos, dos vizinhos. Abri o anexo sobretudo para saber o que continha e poder agradecer. E era coisa muito outra.

         É uma foto a preto e branco onde lustram minha mãe e meu avô. De pé, florida, minha mãe usa a bata que mais gostei de lhe ver e sempre me pareceu alegre vestido. Quanto a lembro! Semeada de flores grandes em tons de castanho, amarelo e branco, atava na cinta com um botão. Por baixo, espreita-lhe uma blusa de florinhas brancas que minha mãe vestia com agrado por ter mangas a três quartos. Parte do cabelo está puxado atrás, fronte e orelhas descobertas, o sobrante cai nas costas.  O pormenor do cabelo e  a pele jovem dizem que andaria na casa dos trinta e meu irmão ainda não nascera. Tanta tristeza que faltava e que bom não sabermos o futuro. Tímida que era, fugia da objectiva e imagino a doce insistência de meu tio. Ainda assim, não olha o fotógrafo. Mas há aquele meio sorriso terno que lhe conheço e o constrangimento dos olhos a encontrar arrimo num pé de mesa ou assim. Sentado e grave, meu avô fixa, o fotógrafo.  Ao lado e ligeiramente atrás, minha mãe, enlaça-o pondo-lhe ternamente o braço direito em volta do pescoço enquanto a outra  mão aberta pousa no casaco e parece fazer caminho para afagar o ombro esquerdo de meu avô.  O seu jeito terno e protector lembra os anjos da guarda do catecismo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

De Ti, dos Livros e Outras Coisas

 

Nunca vou entender essa outra ordem em que habitas. Se fora um mundo, não resistirias à saudade e virias espreitar-nos. Seguro e indubitável.

Serias hoje uma velhinha. Tão bonito que o fosses, o rosto em alva moldura, apagando as velas do teu bolo (nem uma vez te fiz um bolo de anos). Talvez trôpega e sem fôlego, quem sabe não seríamos nós quatro a ajudar-te; e mais os netos que não sabes mas existem. E todos a cantarmos parabéns como nunca te cantámos (por que motivo não tos cantei, eu que passava o tempo em cantorias). Necessitavas óculos para ler, e não ias dar conta dos romances que te choviam no colo. Gostarias dos que leio, será que líamos os mesmos e tagarelávamos sobre eles? Formámo-nos quase em simultâneo nos Corín Tellado das tias. E depois eu andei em frente, mercê das carrinhas da Gulbenkian, a treinar educação sem mestre. Horas esquecidas a ler. Mas, para que os lesse eu, tinhas tu de te desdobrar em canseira e ouvir ralhar (ouvíamos as duas). E não ler. Em poucos anos te gastaste inteira e me protegeste de quem me proibia livros. De ti, herdei o gosto; e muito suaste o meu tempo de leitura. Há bens impagáveis, dádivas que encantam e maravilham. Pensando bem, sou a mesma sempre, talvez me conhecesses ainda. Em casa, o meu rasto faz-se de livros.

Calcula tu bem, tenho ainda saudade ao corte da franja. Eu de olhos fechados, “está quietinha” e tu, tesoura ferrugenta na mão direita,  o pente molhado a assentar o cabelo, na esquerda. E depois o corte difícil e mastigado, trrr, trrr, trrr, o metal deslizando de uma ponta à outra da testa e o desabafo, “que cabelo este, até foge da tesoura”. No final, “não abras os olhos”, e sopravas. Depois ia ao espelho e desgostava, “ó mãe está aqui um bocado mais curto, pareço uma maluquinha”. E tu sem me olhares, a lavar e limpar a tesoura, justificando, “dizes sempre o mesmo, mas é do arrepio”.

 Aos dezassete, existiu-me uma curta pausa em que persisti e a franja cresceu. Tu a afastares o cabelo do rosto, “nem se vê a cara, põe ao menos uma bandelete”. E olha, talvez nem tenhas reparado, (ainda viste? Vês?), mas logo, logo, voltei à franja. E, quem sabe se por causa tua, amo bandeletes, fitas, atilhos e elásticos, tudo que me liberte o rosto. E corto a franja ao espelho. Como tens razão, o arrepio estraga-me a linha do horizonte😊.