sexta-feira, 14 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

 Reconheci a voz da Zefa do Prado que vivia porta com porta com  a sílfide do meu assombro. Num ápice, fiz-me à rua.  Suprema agastura  - aflição que reúne agastamento e amargura -, a mãe de Teresa arrastava a filha pelo chão, sem dó do choro soluçado ou dos pedidos, mãezinha, não bata mais, ai, ai, ai. Horrorizada, vi as pancadas caírem sem escolha de lugar,  pés e mãos cegos de raiva, palmadas e pontapés a ferverem, eu desfaço-te, sua ladra, desfaço-te. Condoída, a Zefa intrometia-se a tentar defender a garota, tu cegas a bater, mulher; deixa a gaiata, já chega.  Frágil e velha, nada podia contra a torrente odienta que a enxotava como a aranhiço incómodo, quase a deitando por terra.  Estupefacta assistente  de um filme de terror, ouvi tia Dorinda a guinchar por minha avó que chegava açodada do tanque, mãos pingando. Mas  foi tia Casimira que atravessou a rua, correndo no passinho miúdo dos velhos, uma réstia de cebolas à ilharga e a vara de encaminhar os perus na outra mão. Ríspida e de vara em riste, as costas sempre dobradas quase direitas face a tanto desamor, postou-se  indignada entre a mulher e a filha , larga a criança, sua desnaturada, nem aos animais se bate assim. Tu é que mereces a sova, mas é da guarda e com cassetete.  Baixou-se e, com esforço, levantou o corpito desfalecido e sujo de terra e, com ele nos mesmos braços que tinham acolhido filhos, netos e mais as crianças de quem fora ama em casa de senhores doutores, avisou, podes escrever, desgraçada, voltas a bater-lhe assim e faço queixa. Vais presa. Virou costas e ainda acrescentou, voz a tremer, ou eu não me chame Casimira. Assistida por mais comadres que lhe conheciam a falência de forças, levou a garota para sua casa.  Entretanto, minha avó vaticinava para Dorinda, esta tem pelo na venta; não tarda que arme outra. E Dorinda, mãos postas em seu altar, acalmava o coração, ai que nem estou em mim, comadre; vi jeitos de ela matar a menina à vista de toda a gente. Foi uma aflição que nem queira saber. E logo para a Zefa, afinal, que roubou, que roubou, qual é o caso? - e concluiu - ou foi na loja do Mexilhão ou na escola, que ela não tem ordem de entrar em casa de ninguém, nem na minha ela pôs o pé. E a outra a encolher os ombros, agora! Tirou-lhe dez tostões da carteira para comprar uma tablete. Pobrezinha, moída de pancada e nem a chegou a comprar. Aquela cobra revirou a casa à cata do dinheiro. E sempre aos gritos e a puxá-la por uma orelha. Olhem que até lhe fez sangue e arrancou o brinco. Não é mãe nem é nada, aquele estafermo. E cuspindo enojada, bicho peçonhento, vá de retro.

8 comentários:

  1. Hoje até parece Aquilino e embora talvez não seja o caso, até apetece dizer: «A um homem ruivo e mulher barbuda de longe os saúda.»

    Porque a leio? Não tenho por hábito ler tudo o que me vem parar às mãos. Tento ser criterioso, exigente até, porque o tempo é escasso e então na casa dos sessenta é uma carestia. Portanto, talvez seja por isso que a leio (com este paleio todo ainda vai ter de me agradecer... :)).
    No geral, leio porque toda a representação oferece-me um espelho. Quanto mais souber sobre como vivem e pensam os outros, mais e melhor me conheço.
    Mas também porque me dá aquele sentimento de estarmos a ler algo que fala para nós, porque sentimos igual e nestes casos a escrita torna-se empática, como se o escritor nos falasse e dissesse, “compreendo-te”, ou “não estás sozinho”.
    Mas a si, quando a leio, sendo também isso tudo, vai para além disso, acresce um outro grau, que é aquela sensação de não sabermos se estamos a ler prosa em forma de poesia ou poesia em formato de prosa. Com ou sem rimas, a sua palavra adequa-se com doçura à imagem em texto que quer transmitir.
    Embora acompanhe os seus escritos há relativamente poucos anos, pressinto que atingiu uma maturidade literária.
    Um artista não pinta o seu quadro em poucas horas, mas com todos os anos de experiência que teve antes de pegar no pincel, e acontece o mesmo com quem escreve.
    Dir-me-á que passados dez minutos já procederia a correcções, já alterava aqui ou ali. Pois bem, mas o essencial mantém-se, a obra está feita, os retoques só aprimoram, não é?
    Bom fim-de-semana Bea.

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    1. :)) Sempre lhe vou dizendo, Joaquim, que sabe melhor porque me lê do que eu porque escrevo. E bem sabe que sou grata por me ler e comentar. Talvez escreva apenas por gosto e evasão. Escrever retira-nos do mundo quotidiano, toda a escrita se faz de mundo, mas tem esse passe de magia, passamos a pertencer a uma ordem mundana que sabemos não ser a nossa facto que, curiosamente, de alguma forma nos descansa. Sempre que refiro este assunto, lembro Mircea Eliade e a distinção entre sagrado e profano. É um pouco assim.
      É claro que altero no sentido de - fica pelo menos a tentativa - aprimorar o texto e eliminar contradições com o atrás dito. Àquilo a que o Joaquim chama maturidade eu chamo velhice, tenho plena consciência que daqui para a frente é sempre a descer:). Mas pode que desça devagar. O que não sei se será um bem. Há-de ver-se.
      Bom fim-de-semana

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  2. Retalhos da vida de um Portugal miserável e amedrontado.
    Excelente, Bea.
    Bom fim-de-semana

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    1. A miséria cria o medo e a astúcia, ambos ajudam a sobreviver num mundo hostil.

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  3. A descrição, Bea, está fantástica. Até revivi algumas cenas da rua mais populosa da aldeia da minha infância. Havia mulheres que batiam desalmadamente nas crianças porque não podiam bater em quem lhes batia.
    Aqui foram as mulheres que defenderam a pobre da miúda. E a linguagem é tão viva e sugestiva! Maravilha.
    Venham mais episódios, Bea!
    Um feliz fim de semana.

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  4. Genericamente falando, a vida das mulheres foi sempre mais difícil que a dos homens.

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  5. Também gostei de mais um bom momento de leitura!
    Vá de retro quem assim é 🤔😊

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  6. Boa noite, Gracinha. E boa semana:).

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