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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Dicionário da Linguagem das Flores

 

Terminei Dicionário da linguagem das flores, o último livro de Lobo Antunes. Tem a marca inconfundível do autor e dos  labirintos a que nos habituou e é um dos motivos a chamar-me à sua escrita. Mas há outros, que  quem gosta, gosta sempre e não apenas por uma razão. Agrada-me o universo em que se move para criar histórias, o vagar com que vai desenrolando esse mundo de pobreza mediana, ou, se quisermos um termo mais actual, a classe média baixa que vai crescendo e engorda a maior parte da sociedade portuguesa, patamar  que o escritor parece conhecer quase tão bem como eu, ainda que não lhe pertença. Quem sabe, esse mundo comum ronda a cabeça de toda a gente, mesmo dos donos de grandes quintas e solares, dos senhores de outros e destes tempos, das damas com mãos de flor a amparar  pregas de seda por detrás dos vidros. Gente incomum e de pérolas ao pescoço que possuía criadas de fora e de dentro, fardadas e de crista,  bandeja sempre alerta. Seres que esvaneceram. Era o tempo do trabalho rural do nascer ao pôr do sol, os trabalhadores pondo o esforço do corpo à venda na praça, chapéu na mão. Ofereciam-se por dia, semana, época. E quanta dificuldade sem paga. Viviam isentos de benesses, caixa, reforma, férias. Nada, além do pagamento contratado. Era o tempo dos declarados senhores. Mandavam à praça o capataz enquanto eles vogavam no banco traseiro de carros luzentes que motoristas encartados e trajados a rigor, conduziam em cuidado silencioso de máquina. Robots humanos. E depois esse mundo de ontem mistura com o de hoje, mas o que me fascina são as expressões utilizadas, as frases ditas, os pensamentos que se ouvem nas obras de Lobo Antunes e, independentes da classe social, são todos pão da boca do povo. E creio ser a sua grande homenagem aos portugueses de meia tigela, aos desvalidos da sorte, a todos que a vida castiga ou se castigam a si mesmos, o pensarem e sentirem de igual modo, usando as mesmas palavras; nelas, todos os homens se igualam. É talvez por esta razão que não há livros que me surjam mais humanos.

Este dicionário especial tem um lastro mais vincado de ternura. E até a ironia que o percorre é meio terna, como se haja no autor um sorriso de compreensão e amizade. Afirma o escriba que a sua escrita é sofrida e lhe dói. Será verdade, mas vou sempre acreditar que também se diverte e há um lado de espontânea ternura que desata e vai entornando pelas páginas.

Creio que esta história, ou melhor, o fulcro ou motivo da história, é Júlio Fogaça e a rejeição de que foi alvo nas altas esferas do partido comunista português quando já pertencia ao comité central. Motivos: o facto de ser homossexual e também a abertura política que defendia. Júlio Fogaça é pretexto e homenagem de Lobo Antunes que o toma para recriar o seu mundo próprio. Mas não  sei se poderá existir melhor interpretação do drama. Talvez pela ternura que desprende, parece-me que este livro foi escrito com palavras e expressões preciosas, daquelas que, por serem de primeira água, dificultam a escolha. Mas, já quase no fim, pág 362, lembrei-me de sublinhar um bocadinho. Garanto, não é o melhor. No entanto, aconchega. “(…) que deliciosa tragédia a afeição, que felicidade de pássaros que voltam estar ao colo de uma mulher crescida que nos protege dos tremores de terra e das vespas, nos chama

-Menino

E a gente, cá por dentro, um alvoroço de beija flores felizes, a podermos dormir, devagarinho, num colo que cheira a refogado e a ternura, que é a mais doce combinação do mundo (…)”

 

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Coração do Coração


De tarde, Maria Alzira Seixo e os tradutores a afirmarem, cada um a seu modo, a dificuldade, o desafio de traduzir autor tão complexo e intraduzível. E um deles num português curiosíssimo: Lobo Antunes diz-me, “na impossibilidade de tradução, sê criativo”.
A finalizar, o autor. A sua estranheza perante a própria velhice e o efeito que a imagem tem nele. O reconhecimento de que viveu a escrever. As lembranças e a memória que não sossega, não dá tréguas, mas também é refrigério. A memória de elefante que, digo eu, lhe dura a vida toda e oxalá se mantenha. A memória da mercearia do careca onde o Nuno, e por certo ele mesmo, comprava os cigarros que fumava enquanto escrevia; o irmão João e o último encontro que narrou emocionado tal qual a crónica que escreveu; o avô visconde que o levou a Pádua a fazer a primeira comunhão (outra crónica); o mesmo avô que era militar e tinha uma veia humorística de onde virá o seu próprio humor tão fino como cáustico, e de que contou peripécias engraçadas; O seu agradecimento ao contacto a que chamou toque, dos homens da sua vida e dos que, não o sendo, o marcaram - o abraço de despedida do João, o do avô, o de Paulo Portas (crónica). O seu encanto pelo dizer-se da ternura masculina, a amizade entre homens. O imenso amor a Portugal e a saudade que traz quando regressa "apetece beijar o ar, os cheiros, a luz, a cor do céu que é única..."
E depois, a imposição da Ordem da Liberdade pela mão do Presidente Marcelo. E Lobo Antunes meio atarantado, sem palavra. Sob o benévolo olhar de três presidentes da república. Mas sobretudo, valha-nos isso, sob o nosso olhar. Comovido. Grato até ao infinito de cada um. Tudo dito em palmas sem fim.
Fiz não sei quantas bolhas nos pés, esqueci o almoço em casa, o cinema falhou-me e não me deixou vê-lo. Mas Lobo Antunes foi o máximo. Creio bem que tudo aconteceu assim por ter de ser: era o seu dia.
E aposto que no curso das horas desligou o aparelho algumas vezes. Ou, como meu pai, nem precisou fazê-lo. Ficou-me a última frase, “O afecto é a forma suprema de elegância”.

O Coração do Coração


Começo a habituar-me à ideia, os velhos dormem pouco e chegam cedo a todo o lado. Era sábado. No auditório da Gulbenkian, um mar de cabelos brancos e grisalhos, semeado de onde a onde por caravelas escuras ou loiras, quiçá tingidas, viu chegar a horas o sujeito da homenagem: pesado, lento, andar  dificultoso a socorrer-se de ombro familiar, aparelho auditivo no ouvido. Não havia como negar carinho  a quem nos deleitou durante quarenta longos anos com o seu trabalho. A sessão abriu com o testemunho de Henri Lévy, escritor e ferveroso admirador da prosa de Lobo Antunes. E foi abertura digna de ambos os autores. Um Henri Lévy muito francês, alto, flexível, aprumado e penteado a preceito, boa voz e inteligência discursiva de fazer inveja aos melhores; dissecou de forma original e profundamente conhecedora a obra de Lobo Antunes. Um primor. E foi tanto assim que Nuno Lobo Antunes iniciou a sua homenagem dizendo, vou citar as palavras de minha mulher ao intervalo, “filho, depois do Henri, o melhor é dar-te uma embolia e ires de urgência para Santa Maria”. Mas Nuno Lobo Antunes deu um testemunho emocionado e muito vivo acerca da sombra que o primogénito lançou sobre o quinto filho que ele é. Começou por reconhecer que o irmão lhe roubou todas as imagens e histórias da família e o deixou sem circunstância familiar que possa lembrar por escrito. E terminou dizendo, “meu bebé, amo-te muito”. Pelo meio ficaram pactos de adolescente que mandava comprar cigarros, promessas, pequenos nadas de vida familiar tão diversa do comum de quem ouvia. E o testemunho de Daniel Sampaio, embrenhado em recordações, esquecido daquele olho clínico e meio tétrico que lhe surge quando fala como psiquiatra. Eram as memórias do colega de trabalho e amigo já com obra publicada, incentivando a escrita do jovem António. Convicto do seu valor, levou às editoras o manuscrito de Memória de elefante. Um êxito apesar da pancada dos críticos portugueses. Que só Agustina e uma personagem que já esqueci louvaram a obra. Recusada por duas editoras. A terceira, uma editora pequena, aceitou publicar. E,naquele verão, toda a gente leu “Memória de elefante”, eu incluída.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Coração do Coração


Um dos meus gostos menos secretos é a leitura de António Lobo Antunes. Aturo-lhe tudo: as vaidades palermas, os propositados  ditos a armar ao desconchavo, o mau ambiente com Saramago, certo jeito de autismo que lhe existe e faz parte, as quintinhas de Benfica, a saúde dos ares de Nelas, a família que ele não diz mas é muito cheia de tiques, aquela mãe esplêndida e sucessiva que ensinou seis filhos a ler aos quatro anos, a voz sensual de pai distante, os cancros que não o derrotaram, o arreigado amor pelos irmãos. E etc. E não é isto difícil, boa parte do que o caracteriza agrada-me, sobretudo por ser apenas leitora  (afigura-se-me criatura de trato difícil). Mas o que amo de paixão é a sua loucura por escrito. E, fã severa, aprecio sobretudo os romances. Afirma que as crónicas são outra coisa. São mesmo. Imagino sempre que as escreve para se distrair, embora vá dizendo que são as moedinhas que dá às filhas. Ele  mesmo, no que tem de físico e situado, plasma-se nas crónicas. Crónicas são um trivial. Os romances são outra coisa. Tratam a dor do mundo, revelam aquela grande compreensão sobre o íntimo de cada personagem que nos permite a nós privar com assassinos, drogados, violadores, mulheres estranhas, sequestradores e o mais que se lembra, sem que nos provoquem asco, sentindo até empatia e compaixão nascidas dessa compreensão expressa, desse sentir que, julgo eu, afirma sempre o mesmo: que todos somos, em alguns aspectos, dignos de afecto; há uma pessoa no fundo de cada monstro, ninguém nasce deformado nos interiores e ainda que nascesse, seria um monstro humano.  

Diz o escritor que a sua mão escreve sozinha. Digo eu que a mente, quando lhe desengalga, vai por ali fora. E à tal mão que afirma mecânica só lhe resta escrever.

         Pardon, já escrevi trezentas palavras e ainda não entrei no assunto. É que intentava palrar sobre a homenagem feita aos 40 anos das duas primeiras obras, “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”. Que foi linda e de qualidade.  E houve nela o Lobo Antunes das crónicas: um avô a contar histórias de família e suas. Como António bem disse acerca da sua estranheza para com o espelho, “sou um miúdo cujo envelope se gastou”.

E o mais que haja, só amanhã.