Terminei
Dicionário da linguagem das flores, o último livro de Lobo Antunes. Tem a marca inconfundível do autor e
dos labirintos a que nos habituou e é um
dos motivos a chamar-me à sua escrita. Mas há outros, que quem gosta, gosta sempre e não apenas por uma
razão. Agrada-me o universo em que se move para criar histórias, o vagar com
que vai desenrolando esse mundo de pobreza mediana, ou, se quisermos um termo
mais actual, a classe média baixa que vai crescendo e engorda a maior parte da
sociedade portuguesa, patamar que o escritor
parece conhecer quase tão bem como eu, ainda que não lhe pertença. Quem sabe,
esse mundo comum ronda a cabeça de toda a gente, mesmo dos donos de grandes
quintas e solares, dos senhores de outros e destes tempos, das damas com mãos
de flor a amparar pregas de seda por
detrás dos vidros. Gente incomum e de pérolas ao pescoço que possuía criadas de
fora e de dentro, fardadas e de crista, bandeja sempre alerta. Seres que esvaneceram.
Era o tempo do trabalho rural do nascer ao pôr do sol, os trabalhadores pondo o
esforço do corpo à venda na praça, chapéu na mão. Ofereciam-se por dia, semana,
época. E quanta dificuldade sem paga. Viviam isentos de benesses, caixa, reforma, férias. Nada, além do pagamento contratado. Era o tempo dos declarados senhores. Mandavam à praça
o capataz enquanto eles vogavam no banco traseiro de carros luzentes que
motoristas encartados e trajados a rigor, conduziam em cuidado silencioso de
máquina. Robots humanos. E depois esse mundo de ontem
mistura com o de hoje, mas o que me fascina são as expressões utilizadas, as
frases ditas, os pensamentos que se ouvem nas obras de Lobo Antunes e,
independentes da classe social, são todos pão da boca do povo. E
creio ser a sua grande homenagem aos portugueses de meia tigela, aos desvalidos
da sorte, a todos que a vida castiga ou se castigam a si mesmos, o pensarem e
sentirem de igual modo, usando as mesmas palavras; nelas, todos os homens se
igualam. É talvez por esta razão que não há livros que me surjam mais humanos.
Este dicionário especial tem um lastro mais vincado de ternura. E até a ironia que o percorre é
meio terna, como se haja no autor um sorriso de compreensão e amizade. Afirma
o escriba que a sua escrita é sofrida e lhe dói. Será verdade, mas vou sempre
acreditar que também se diverte e há um lado de espontânea ternura que desata e vai entornando pelas páginas.
Creio
que esta história, ou melhor, o fulcro ou motivo da história, é Júlio Fogaça e
a rejeição de que foi alvo nas altas esferas do partido comunista português quando
já pertencia ao comité central. Motivos: o facto de ser homossexual e também a abertura
política que defendia. Júlio Fogaça é pretexto e homenagem de Lobo Antunes que o toma para recriar o
seu mundo próprio. Mas não sei se poderá
existir melhor interpretação do drama. Talvez pela ternura que desprende,
parece-me que este livro foi escrito com palavras e expressões preciosas,
daquelas que, por serem de primeira água, dificultam a escolha. Mas, já quase
no fim, pág 362, lembrei-me de sublinhar um bocadinho. Garanto, não é o melhor.
No entanto, aconchega. “(…) que deliciosa tragédia a afeição, que felicidade de
pássaros que voltam estar ao colo de uma mulher crescida que nos protege dos
tremores de terra e das vespas, nos chama
-Menino
E a
gente, cá por dentro, um alvoroço de beija flores felizes, a podermos dormir,
devagarinho, num colo que cheira a refogado e a ternura, que é a mais doce
combinação do mundo (…)”