domingo, 31 de março de 2019

Gatil Vitalício


A minha princesa de quatro patas tem olho azul e uma ternura mansa a correr nas veias. Chama-se gata e não tem arte para brigas com os congéneres, antes foge deles num arrufo de cauda, buscando abrigo seguro; nessa inépcia de esgadanhar e morder, ganhou marcas de guerra sem medalha. É caçadora mediana e diverte-se a desrabar lagartixas. Isenta do vício da posse, lança a pata brincalhona ao réptil e revira intrigada o pequeno s que se contorce no chão enquanto o animal some fugaz. Raro procura colo e falta-lhe o seguidismo de me acompanhar as pernas constantes. Também não inveja o teclado do portátil. Em suma, o mundo dos homens pouco lhe interessa. Mas é feita de silêncio presencial e caseira como nenhum outro gato; acresce que passeia no exterior usando cautelas que os anteriores desprezaram. Foi assim que se prolongou no tempo. Quase velha, a felicidade suprema acontece-lhe se giro pelo quintal. Sobe e desce no tronco de árvores e arbustos, cabriola na minha frente, corre súbita para estacar de seguida. Uma doideira de contentamento que deixa o Fox de olho arregalado às quatro patas. Fox é o guardião, ladra avisos aos gatos quesilentos e a mim, deixa-a comer do seu prato e esparvece de estranheza se ela surge com filhotes.
A maternidade é a supremacia da gata. Este ano, por falta da pílula e mercê de instinto inadiável, emprenhou. Com os típicos sintomas femininos: vómitos, magreza, falta de apetite, sono em demasia e um quê de doença. Até os bigodes lhe descaíam. Mas breve se retomou e, quando dei por ela, comia desalmada, barriga a crescer. Às portas do parto, isolou-se no quintal. Mas, sendo duas para tanta vida, somos as mesmas nos momentos difíceis. Encontrei-lhe uma cama a jeito, pu-la em casa no lugar que prefere e depois de forrada depus a gatita, toda atenção e respeito pela hora. Os três filhos nasceram por entre o seu silêncio que semearam de miados finos como hóstias. No segundo dia, reparei que punha um deles para as costas. Por duas ou três vezes corrigi a posição. Quando o busquei da última vez, estava morto. Terá a mãe pressentido a morte ou o instinto lhe ditou que não sobrevivia; ou, como diz o povo, enjeitou-o.
Contudo, às duas gatitas sobrantes dedicou desvelo exemplar no asseio e na disponibilidade, mãe a todo o pano. Quando a primeira se foi a novo poiso, procurou e voltou a procurar pelos lugares comuns. E logo a esqueceu. A segunda está de partida e tudo se repete. O instinto é força de momento que não deixa marca ou lembrança, existe na hora certa e passa. A minha gata é só gata, não é pessoa. Nem lá perto.

4 comentários:

  1. Ainda bem que assim é, natural e sem dramas. Gosto dessa gata, eu que não gosto de gatos.
    Boa semana.

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  2. Nina, gostar da minha gata é fácil. É uma gata de ler, não larga pêlo, nem há o areão por limpar. E pode imaginar-lhe os olhos de conta azul a transparecer enigmas:). Já teve andar de donaire, agora evidencia ligeiro cansaço de membros que a torna mais vagarosa e que me enternece:)

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  3. Queria eu ter a magia da sua escrita mas por certo a tenho no ato de ler!!! Bj

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  4. É mesmo Gracinha, a magia está mas é no leitor. Nos leitores como a Gracinha:).

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