Há
quanto tempo não escrevo uma página e me sento tecla a tecla, sem dar pelas
horas. Vicissitudes do corpo retiram-me a vontade da escrita. Ou será
amarfanhado meu, deplorável ser que esmorece a investidas mínimas. Mas pronto,
hoje é sexta e comecei o dia como sempre. Que, normal, só o início. Enfim, fui
encontrar-te na cidade grande.
A
primeira surpresa viajou comigo na carruagem. Ainda mal me sentara e já
apercebia um magote de mulheres, alentejanas de jeito e maneira, entre os
trinta e os cinquenta. Palravam musicais e dolentes e iam-se fotografando, “tira-me lá um retrato”. Impossível
ignorá-las. Extravasavam o notório contentamento das andorinhas de primavera e
quase as senti esvoaçar apesar da fixidez dos lugares. O assunto que tanto as
divertia era um dia exclusivo e feminino. Oito alentejanitas retintas – Évora
ou Beja - de peito feito e a comemorar – talvez – o Dia da Mulher. Para onde se
dirigiam não o sei, mas ouvi a palavra Oriente e Pavilhão do Conhecimento.
Deduzi que fariam uma incursão no Centro comercial, talvez até lá almoçassem, e depois se aprestariam a outras esferas:
pavilhão do conhecimento, oceanário, talvez o teleférico todas riso e gritinhos.
Do que tenho certeza é que seguiram como os reis magos, para Oriente. E também
sei que não voltaram no comboio da tarde. Eram oito mulheres normais, figura e rosto sem um sobressalto de beleza.
E valeu-me mais vê-las assim unidas no projecto de um dia todo seu, que mirar ecológicas
e juvenis modelos da Casa Chanel.
E
depois foi a serena beleza do rio a acordar, quase sem sulco de barco, todo em
espelho de sol. E ver-te. Sentir que envelhecemos mantendo a juventude de um
sentimento tão bonito como longo e que a intimidade e confiança não se explicam,
são de sentir. E demo-nos prendas, trocámos confidências e pesares, contámo-nos
ínfimos segredos que apenas se tornam palavra se estamos as duas. E os livros
que lemos, e as roupas que experimentámos tão contentes como dantes, colegiais
indecisas a solicitar aprovação.
Como
a vida parece fácil quando estamos as duas. Mas a impiedade do relógio. E o rio
agora sulcado de velas e barcos de carreira, o rio que entardece e ensombra, o rio separação.
Mulheres lindas essas!
ResponderEliminar~CC~
muito determinadas a passar um dia em bom, todo seu.
EliminarBom dia, Bea!
ResponderEliminar"Vicissitudes do corpo retiram-me a vontade da escrita." O que está por trás de cada uma destas letrinhas?
Fica bem, please!
Beijo.
Ora Teresa, aleivosias do corpo que envelhece. Não mata, só mói. Obrigada pelo interesse.
ResponderEliminarBoa Noite:)
E o dia ajudou.
ResponderEliminarE...para o ano há mais.
E as suas rápidas melhoras, que os leitores se ressentem.
Obrigada:). Ficou a esperança de repetir, sim, que o dia foi bola em plano inclinado, um ápice.
ResponderEliminarPassou a maleita:). Agora é retomar o curso da vida, ainda a endireitar o que ficou em pousio.
Que as vicissitudes do corpo sejam vencidas, porque senti a sua ausência.
ResponderEliminarTão bons esses reencontros de uma intimidade só. Tenho a sorte de também deles gozar!
É mesmo uma grande sorte. Porque os laços de amizade são coisa de intuição, um acerto à primeira:).
EliminarJá estou bem, sim. Pronta para comentar que nem eu.Obrigada.
Reencontros que nos ajudam a caminhar ... Bj
ResponderEliminarSão pacificadores naturais:).
EliminarÉ verdade , o dia da mulher! Todos os dias deviam ser dias de todos os seres. Mas os dias para qualquer ser não são todos iguais. E ainda bem.
ResponderEliminarHá dias e Dias. Este foi um Dia.
ResponderEliminarDos bandos de mulheres, uma alegria! Que se lembrem e comemorem. E eu não dos de "dias de", nem de limpezas nem de glórias. De encontrar Amiga de letra grande, fiz o mesmo há umas semanas. Quase 60 anos de conhecimento e tantos fios partidos!
ResponderEliminarSei que alguns caminhos trilhamos, em comum, o das árvores dos dias. Infelizmente, não há tempo para tudo e ler tudo, além dos livros.
Obg pelo belo e pessoal comentário.
Oh bettips, obrigada eu:). Sim, tem razão, quantos fios partidos! Mas não o nosso fio mútuo. Houve o tempo da ilusão e o outro mais lento e longo, o da desilusão. Mas a amizade é paralela a tudo isso, singra.
ResponderEliminarObrigada, Francisco.
ResponderEliminarEsses encontros de amigas são um bálsamo. O seu com a sua amiga e o das alentejanas. Cada um no seu género, mas encontros de amigas são encontros de amigas: especiais. Eu adoro os meus encontros com velhas amigas, os nossos almoços de amigas de infância...pena que o tempo não os permita mais vezes.
ResponderEliminarBeijinhos e espero que esteja melhor:))
Peço desculpa, mas só agora vi o seu comentário. Melhorei sim:). Há doenças que não curam, basta-nos que não piorem.
ResponderEliminarInfelizmente não tenho amigas de infância. As minhas amigas vieram com os furores da juventude e prolongaram-se na adultícia. Provavelmente é egoísmo e vaidade minha, mas parece-me estarem muito para lá do que observei no grupo de alentejanas. É como diz a Isabel, "cada um no seu género".