quarta-feira, 13 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não entendo a curiosidade mórbida. Chegam e destapam-te o rosto. E a mim me parece que te violam o recato do sono. A morte é feita de silêncio. Gente que te vai ver morto e outro, mas não te procurou vivo, que não te auscultou o sofrimento, não te aparou a baba e nem soube dos teus passos pequeninos atravessados de andarilho, dos teus pulsos tão finos como se de bebé, dos teus olhos a perderem o brilho, a tua voz trémula e pedinte, contínuo tentear de palavras sílaba a sílaba, treino da nossa e tua paciência. E vontade de os enxotar como Cristo aos vendilhões do templo. Recordo-te em mil passos e cenas que são tu. Como eras. Como és. Como em mim serás sempre. Vejo-te desde o casaco azul de trevira sobre a cal da camisa engomada, pés entusiasmados no pedal,  faíscando alegria. O entusiasmo do amor jovem, as agruras felizes da proximidade, o enlevo do rosto amado. Os teus sorrisos desse tempo, ó surpresa, ilustravam o éden masculino. O teu éden. Que vivia em casa de meus avós e namoravas em casa pela primeira vez. Ora, no átrio da minha infância, não havia rapazes felizes, havia só rapazes. Distantes. Altos. Trocistas. Mas chegavas tão convictamente satisfeito que tomei a parte pelo todo, cataloguei-te de “rapaz feliz” e desde essa tarde iniciática te chamei padrinho como sugeriste dando costas ao “Manuel” tímido de minha madrinha.  Na tarde benévola em que te esperámos em ânsias e de mão dada, a sorte bafejou-me. Encontrara um padrinho sorridente, que dava colo aos meus quatro anos e com quem apetecia conversar. É certo, havia outro. Que foi outro a vida toda. Ninguém. Tão triste ser ninguém. Mas os ninguéns deste mundo não apercebem que se apresentam faltando. A gente vai por eles e só há um buraco. Tu, não.
 Sentavas-me no quadro da bicicleta e seguravas-me com a mão do guiador enquanto com a outra enlaçavas a minha madrinha e subíamos em tríade até aos eucaliptos. Uma vez disseste, faz de conta que é a nossa filha. Rejubilei. Nos eucaliptos, descias-me e namoravam no lusco-fusco. E eu cantarolando saltitava por ali, catando o que houvesse debaixo do aroma das árvores. Talvez a beijasses. De certeza a abraçavas, porque a levavas assim o caminho inteiro. Não me lembro. Depois, levantavas a perna sobre a bicicleta ágil e desaparecias a virar-te para trás e acenar. E quando, lá bem na frente, te perdias, nós duas voltávamos conversando sobre ti, eu sempre perguntando e perguntando.
Casaste e foi tudo muito depressa por excesso de novidade. E disseste-me, hoje é que é, fico teu padrinho de verdade. Mas eu assoberbava a segurar e mirar a armação dos saiotes de empréstimo, apostados em me escorregar da cintura que não tinha. 
Tomei-te por certo. Não me enganei.
(cont.)

6 comentários:

  1. Recordar para a saudade ficar!
    Gostei de ler... Bj

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  2. Gracinha,há pessoas que alumiam. Umas são estrelas, outras alteiam em labareda ardente, algumas lume de chão, outras borralho morno. E todas cabem e são.

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  3. E depois de muito aqui pedir, finalmente uma crónica sobre um homem, que também somos filhos de Deus sim senhora. :)
    Não precisa rebater, eu sei, eu sei, eu sei...e até concordo, as mulheres precisam mais de palco...no actual estádio da humanidade.
    Quanto à essência, que bom é ser lembrado; melhor que ser notado como sói dizer-se. Até costumo dizer que a única coisa que se leva para a sepultura, para além da dignidade, é o lembrarem-se de nós, quando o que por cá andámos deixou cá lembrança.
    Olhe, e de repente lembrei-me do meu tio, que me ensinou a pescar no rio Côa...
    Ou seja, o que conta é ser importante na vida das pessoas; mais que ser feliz, é tentar de alguma forma fazer os outros felizes, nem que seja com pequenos nadas.
    São essas pessoas que nos irão manter vivos muitos anos após a nossa morte.
    Nós morremos duas vezes, a primeira quando a nossa alma deixa o nosso corpo, e a segunda quando a última pessoa que se lembrar de nós deixar este mundo!

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    1. Verdade, uma crónica sobre um homem. Um homem vulgar, com seus defeitos e virtudes, que nisso somos todos vulgares.
      Embora seja verdade o que diz sobre as mulheres, creio que escrevo sobre elas porque as conheço melhor. Os homens são um bocadinho uma incógnita com que nem sempre sintonizo:).
      E o que nos importa ser lembrados depois de mortos?! Já o desejei, ser lembrada por bem. Com os anos, circunscrevi-me ao presente, dou por mim sem me importar com esse futuro onde não estarei. É um dia de cada vez e a tentar não magoar em demasia. Provavelmente sou muito egoísta, mas os hipotéticos outros através de quem viverei estando mortinha da silva, interessam-me apenas enquanto partilhemos o mundo. Depois da morte, havendo uma eternidade, há-de ser outra coisa e as lembranças deles não servem. Não havendo...
      Contudo, julgo que os modelos são necessários.
      E desculpe o atraso:).
      Já não sei bem o que é que conta nesta vida. Mas de certeza que tentar não ser nocivo a quem nos rodeia é um objectivo que vale. E mais se tentarmos ser também benéficos sem sermos santos, coisa que, acho eu, deve ser enjoativa qb.

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  4. Doce recordação essa!
    Tão bem pintada, contada, cantada. Aguardo sequência.

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  5. Boa noite:)Tem razão, é uma recordação doce e também alegre, apesar da tristeza que é deixarmos de estar e falar com quem gostamos. A separação não tem treino, é sempre difícil.

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