terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai


Festa dos pais. Dia de S. José. Aquele senhor carpinteiro dono da minha admiração. Não temos dele uma só palavra afirmativa. Tão apagado e tudo nele foi acção. É preciso ser pai de uma criança concebida por milagre e que só pode ser um Deus, seja; faz falta ir visitar a prima Isabel, vamos já tratar disso; Temos de nos recensear para que se cumpra o destino do Menino, aparelhemos o gado; há que fugir de Herodes, arrumemos a sovela no estojo que em todo o lugar  precisam de carpinteiros. E até, quando Jesus se prolonga no templo a falar com os doutores e responde à aflição dos pais, “estava em casa de meu Pai”,  não consta que José se tenha irritado. Mas, entretanto, José extingue-se. Não há José nas bodas de Canan, no milagre dos pães e dos peixes, na paixão. Para o evangelho que conheço, morreu. Que difícil ser José entre Maria e Jesus.
         Lembrar hoje os laços que nos ligam aos pais desde o princípio. Porque brincaram connosco em crianças, nos contaram histórias antes de dormir ou em qualquer outra boa altura, nos trouxeram às cavalitas e ao colo, nos ensinaram a andar de triciclo e depois de bicicleta. Os pais que eram tão altos e de que só abraçávamos os joelhos. Os pais com pés enormes onde, rindo, andávamos à boleia. Sem eles não concebíamos a vida. Eram os nossos pais. Eternos. Omnipotentes. Seguros. Fortes.  Os pais ensaboavam a cara e punham-nos um bigode de espuma, depois davam-nos um lápis e fazíamos a barba a imitar gestos. O nosso pai cheirava a ele e o riso enchia a casa. E que prazer se nos ia buscar à escola e nos dava a mão.
Quem sabe há no coração da gente um lugar onde não se cresce e os pais continuam enormes.

12 comentários:

  1. Um excelente texto em homenagem ao pai no dia de São José.
    Aqui, festejamos o dia do pai em Junho.

    Agora, faço eu a pergunta que leio TODOS os anos nos comentários, quando festejo o DIA INTERNACIONAL da MULHER:

    O dia do pai é só no dia 19 de Março? Ou todos os dias?

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  2. Para mim é no dia 19 de Março. Porquê? Porque sim. E porque se tornava chato. Um dia basta para celebrar. Mais dias não nos interessam.
    Se me diz que os pais são pais todos os dias, repondo que os filhos também:).

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    1. Não é só para si, bea, o dia do pai é festejado no dia 19 de Março em todo o Portugal. A mim é-me completamente indiferente, quando é festejado o dia do pai.

      Eu apenas me refiro às críticas que as minhas leitoras | os meus leitores, quando comemoro o DIA Internacional da MULHER, porque dizem que todos os dias são das MULHERES.

      Afinal, essa do Dia de... chega a ser um exagero 😂

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    2. Concordo que há demasiados dias disto e daquilo. Mas os dias do pai e da mãe são dias afectivos e existem desde que me recordo de ser gente. Os meus pais sempre gostaram que me lembrasse. Mas os meus filhos não ligam meia, são dias que não lhes existem.
      O dia da Mulher é outra coisa. Nasceu para nós com a liberdade dos cravos. um dia da mulher é sobejamente palerma, mas funciona como um alerta para as tantas injustiças e faltas de respeito cometidas contra e sobre elas, a maioria por pessoas próximas e que supostamente querem ou deveriam querer o seu bem. O dia da mulher simboliza uma luta mais do que qualquer outra coisa.

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  3. Esta sua sentinela — eu — deixa-lhe aqui um versinho que acabei de cozinhar. Ainda vem a fumegar, por isso não deixe arrefecer :)

    Seis comentários deixou
    na Discreta Indiscrição,
    apeados, tristes e órfãos.
    P'ra quem tanto porfiou
    não vejo outro propósito,
    Só pode ser distração!

    Quanto ao texto Bea, obrigado pela justa homenagem a um homem justo.
    O lugar que ocupa no Novo Testamento é discreto, vive totalmente em função de Cristo e não por si mesmo. É um homem silencioso e pouco aparece na Bíblia.
    Presume-se que a sua morte seja anterior ao início da vida pública de Jesus.
    Os evangelhos não quiseram multiplicar as suas palavras, senão mostrar seus atos: homem de silêncio, de fidelidade, obediência e fé a Deus, e amor a Maria e a Jesus, contudo o seu papel é de suma importância no plano de Deus para a humanidade.
    Deus confiou-lhe Jesus e Maria, os tesouros mais preciosos, e por isso a sua missão foi aquela de servir a economia da salvação.
    A doutrina da virgindade perpétua de Maria, defendida por Santo Agostinho entre outros, leva a questionar o papel de José.
    Efectivamente, Ana, a mãe de Maria, ofertou Maria, no Templo, como uma "virgem ao Senhor". Entenda-se pois o papel de José, um viúvo, como o de um guardião (a proteção legal para as mulheres dependia de um guardião: pai, irmão ou, na falta destes, um marido), fugindo assim à concepção actual de casamento e da relação homem/mulher.
    Por fim, o que o destino uniu em vida, a doutrina separou na morte; acredita-se que a Assunção de Maria se deu como presente divino a ela apenas, por ser a "Mãe de Deus".

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    1. É mais ou menos isso que diz acerca de José, figura que admiro por essas mesmas razões.
      Obrigada pelos versinhos:).

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  4. Meu pai venerava S. José
    Bea... Obrigada pela partilha e bj

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    1. Seu pai era de certeza um homem bom. Não há muito homem a venerar José. Eu diria que até a venerar. A veneração está em desuso:)

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  5. Belíssima homenagem aos pais e à importância que eles têm para os filhos!

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  6. Obrigada, Alda. Estes são os pais e filhos felizes. Também há pais que estão e faltam e não sabem que faltam. E é grande pena que assim seja.

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  7. Ainda a propósito da sua resposta ao comentário anterior, fez-me lembrar dos pais que não estão, aqueles que largaram um lar e rumaram a outro, construindo nova família, mas que não deixam de ser pais por isso e que a Bea tão bem ilustrou no seu post "Era uma vez..." de 24/2/2019. Por qualquer razão que foge à minha razão ou talvez não, foi uma das suas poucas crónicas que não mereceu qualquer comentário por parte dos seus fiéis leitores e leitoras. Pela minha parte me penitencio, logo eu que lhe peço mais exposição do masculino, mas realmente escapou-se-me.
    E sobre essa circunstância há sempre três olhares, três sentimentos raramente coincidentes; o do filho carente, o do pai ausente e o da mãe... sempre presente!

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  8. Hummm...Joaquim, já me esquecera que deixei uma história a meio:). Tenho de ver se lhe encontro a sequência.
    Quanto aos comentários nos meu canto: pode crer que não ligo a comentarem-me muito pouco ou nada e não mexe com a vontade de escrever. Sou uma comentadora quase compulsiva, mas tenho muito por onde. Por isso...está toda a gente à vontade:)
    Sobre o seu último parágrafo, não é líquido que assim seja. E há um quarto olhar que é o do mundo. Porque em todas as separações assiste a cada um a sua razão. Ou será assim que vejo o caso. Sabe o que mais gosto em Lobo Antunes? Da aceitação e do respeito que há na sua escrita. Ladrões, assassinos, toxicodependentes, todos têm o seu mundo de medos e forças, de desejos e lembranças, de ternuras infantis que reclamam. É como se ele reconheça sempre em cada um a pessoa que é e porque é.


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