sexta-feira, 1 de março de 2019

Causa e Consequência


Sob o efeito da cafeína mexo-me demais. Devia talvez dançar, sacudir os ossos suavemente e com balanço. Mas não é dança o que pratico. De tanta prática, quando enfim aqui chego, se é já noite, saem-me palavras cansadas e sem o espevitado matinal.
 Logo cedo, mal me escorrega uma meia de leite escurinha, ainda nem bem cheguei a meio e já me apetece escrever cartas irreparáveis e impantes de poesia lamecha, todas queixinhas de ausências e faltas que agigantam como buracos em meias mal a gente lhes mete a mão. Mas são, neste unívoco caso, note-se a diferença, acompanhadas da ternura mais saliente que imaginar se possa. Marinam em doçura amorosa. Decerto é mola que se me solta cá dentro sem apêlo nem mas. Destravo. E é assim destravada que me julgo de beijos e abraços a selar esses quiprocuós epistolares que não dou à cena, mas me existem na mesma. Que isto é como diz o outro, nem todo o real é factível. 
Posto isto, gasto um montão de horas a encher-me de pó, costas dadas às luvas de latex, fortes retardadoras de velocidade e que mando pentear macacos, quero lá saber de mãos de fada e o camandro. Portanto. Nesta demasia de ballerina caseira, amarelo e anoiteço, passam-me venalidades de escrita mesureira, esgota-se-me todo o melado. Términus da cafeína. Ponto final parágrafo.      

20 comentários:

  1. E está tudo dito!
    Sempre um gosto esta leitura que aguça a nossa mente!
    Bom Carnaval ... 🤴

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    1. Bea... a receita daquela tarte está junto à foto!
      O olhar da abóbora foi apenas uma simples partilha !!! Bj

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    2. Obrigada, Gracinha. Foi o que me pareceu:), era só para ter certeza.

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  2. Bea, a sua escrita é deliciosa. Dou por mim espreitando, um tudo nada ansiosa, as novidades neste espaço. A sério. E, sim, pode considerar elogiosa esta afirmação que reservo para raríssimas ocasiões.

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    1. Ok, vou considerar um elogio. Agora que reli, estou em supor que ao fim de umas quinze avantajadas horas, houvesse uns resquícios de cafeína:). Pode agradecer-lhe que, ao natural, sou bastante mais insalubre.

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  3. A sua escrita é SEMPRE tão brilhante, que causa inveja.

    O comentário que deixou no "ematejoca azul" dava tão bem numa próxima postagem neste mês que dedico absolutamente à MULHER. Posso?

    Continuação de um fim-de-semana 🌷🌻 maravilhoso.

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    1. Pois é claro que pode usar. O que escrevo, depois de plasmado num lugar, deixa de ser meu. Está em casa sua e é seu; fará o que quiser:).
      E obrigada por pedir e avisar. Que eu era menina para chegar ao seu canto, ler e pensar que já tinha lido igual em qualquer lado. O que penso, quando o penso, é verdade; mas não é coisa a que fique ligada. Depois de escrito, passou.

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  4. Bendita cafeína que a impulsiona a escrever histórias de mulheres e preferencialmente destinadas a mulheres (dito pela própria), mas deixe-me dizer-lhe uma coisa; também há homens sofridos, veja-se por exemplo os sem abrigo (também há mulheres eu sei), que são objecto de tanta indiferença, e que devem esconder histórias que nem me passam pela cabeça, e você escreve tão bem, e assim fazia de conta que nivelava a balança dos géneros que tão descaradamente pende para o "belo sexo".

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  5. Pois é, pendo sem que eu o queira ou deseje para o feminino. Pode ser por muito motivo. Os sem abrigo motivam-me mais para ajudas factuais do que para a escrita. Penso imenso neles nas noites gélidas e não entendo como aguentam o frio, a fome e o mais.
    Julgo que escrevo sobre o que conheço melhor e mais me interessa. Escrevo pelas mulheres, tantas que conheço, que não o fazem porque não sabem e nem o tempo lhes sobra para tal; por aquelas que se submetem sem voz porque a vida as moldou assim e porque a pobreza lhes impede a consciência de si. Escrevo a dar-lhes a mão e a levantá-las como posso, sabendo que posso nada. Escrevo por quem não sonha porque há gente sem sorte e sem tempo de crescer. Escrevo por aquela velhota que encontro e deve ter parkinson e a quem o marido ralha e resmunga porque não está quieta com a perna, porque a voz lhe treme, porque deixa cair a loiça. Escreverei sempre pelas mulheres que os feminismos esquecem ou não resolvem. Há estados e mudanças que só a cultura resolve.

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  6. Interessante que se passe em sítios e ideias comuns! Eu também,
    assim, das mulheres e das coisas por silêncios,livros e olhos que se perdem por aqui e ali.

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  7. A tua escrita vale pelo encadeamento das palavras e pelas imagens que suscita. Sempre de uma beleza singular.

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  8. Bondade tua, Alda. Mas é bom saber que te agradam os meus vestígios de cafeína.

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  9. Tenho também a mania de voltar as costas às luvas de latex. Sofrem as mãos, pois então. :)

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  10. A rapidez tem um preço:). Como tudo que existe.

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  11. Amiga Bea, que prazer é ler a tua prosa. Com cafeína, sem cafeína, é sempre encantadora.
    Já agora, de cafeína fujo a sete pés já das luvas, nunca, jamais.
    Fica bem, bom fim-de-semana.

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  12. Pois é Teresa, a cafeína arrebita-me. E também me faz mal. Mas uma vez por semana mato a saudade. Quanto a luvas...com elas sou mais lenta e menos precisa. A cada um os seus sentidos proibidos:)

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  13. Gostei da escrita!

    Não passo sem cafeína! E enquanto não bebo o meu café da manhã ando rabugenta.
    Detesto usar luvas. Faço tudo em casa, menos passar a roupa e nunca uso luvas. Ando sempre com o creme das mãos atrás...mas nem sempre o ponho...

    Enfim, são as contrariedades de uma dona de casa.

    Beijinhos:))

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  14. A minha bebida preferida é o café, mas piora-me, à séria, de algumas mazelas; em consequência, bebo-o apenas uma vez na semana. Às sextas, como diz o povo, perdoo o mal que faz pelo bem que me sabe.
    Portanto, Isabel, considere-se uma sortuda, pode beber uma bebida de que gosta.
    Eu e as luvas negamo-nos. Em casa de meu pai sim, uso luvas, mas porque o garrafão da lixívia anda sempre metido ao barulho.
    Obrigada pelos seus comentários

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