Esta
semana o panorama da tua igreja agradava-te. Cheia. Ou quase. Ninguém arredou pé, nada de se porem a andar.
Filomena Molder, três réis de gente, falou sentada, vozinha quase a esfarelar.
E deu-nos um momento alto. Falou de Etty Hillesum, figura que apesar de
admirável podia descambar para o discurso fácil e compassivo. Etty Hillesum uma
holandesa judia e fascinante, morta como tanto judeu em Auschwitz e que deixou o
seu testemunho em cartas e diário. Contudo, a dimensão e a luz a que se analisem
os testemunhos podem comprometer-lhe o brilho. Filomena Molder tratou-a como
merece. Com objectividade aparente, a isenção religiosa que se exige e a
empatia que a garota merece. Porque merece. Ponto.
Mea
culpa, Tolentino, pela primeira vez frequentei uma sessão sem ter informação, notícia,
ou sequer uma espreitadela ao google que deu em me pedir dinheiro de cada vez
que o consulto. É universal, pede-se nos blogues, no google... já reparaste
nisto, tu? Bom, sigamos com a Etty, ou chateias-te e não lês mais. Sorry. Em
tudo há um lado positivo, ainda que ínfimo. Quem sabe se não foi a descoberta
que me fez ouvir Filomena Molder com inteira atenção, como se ela pitonisa em
transe; que não é, a senhora é calma e de vozinha a partir-se. Digo-te, é
mulher que faz o meu estilo. Pareceu-me
simples e despretenciosa (pode não ser; mas que parece, parece), sábia qb, não se
muniu de axiomático esquema (foi falando e pescando nas suas notas de quando em
vez), e confessou que desde pequena perde tudo por ser muito distraída e
aprendeu com Etty que não precisamos procurar, as coisas perdidas hão-de vir ao
nosso encontro. Este desabafo deu-me
algum ânimo. Mas consta que ela não achou os muitos objectos que perdeu...
A
discreta professora Filomena referiu o namoro e amizade entre Etty e Julius Spier
e a importância dele no percurso de Etty, seja na escrita dos diários e cartas,
seja no interesse adulto que criou pela psicologia e pela religião. E não acrescentou.
Ora bem, quem quiser que procure. Para aqui, não é importante. No entanto,
acentuou que a família era disfuncional, nenhum dos pais sabia sê-lo pelo que os
três filhos sofriam de problemas psicológicos. Com a ajuda de Julius, Etty
tratou-se a si mesma através da escrita e da ligação a Deus. Judia actuante na
ajuda ao seu povo, foi datilógrafa no conselho judaico, órgão burocrático que
fazia a ponte entre os alemães e a comunidade judaica. decorrido um ano saiu (afirmava
que no conselho judaico estava em permanente litígio consigo mesma) e foi fazer
voluntariado no campo de Westerbork lugar de trânsito dos judeus que aguardavam
ser deportados para os campos de concentração e ali viviam miseravelmente.
Parece que as suas descrições são muito objectivas e que ela se firmou em
descrever sem julgar. Quis mostrar. Mas mostrar, neste caso, é igual a julgar.
E mesmo melhor. Digo eu que ainda não li. Não será leitura fácil. Como não é
fácil percorrer Auschwitz e Birkenau. E adesivo ao pensamento de Filomena
Molder: a linguagem é uma potência e não uma impotência. Mesmo quando a
dimensão da dor ultrapassa a capacidade de a comunicar, há o esforço para, há o
dar a conhecer. Para que se evite a repetição do mal radical, o inaceitável.
E
portanto, encontrando os diários ou as cartas, vamos todos ler Etty Hillesum a quem chamavam “o
coração que pensa”. Nome mais bonito que o povo lhe pôs!
Em entrevista Maria Filomena Molder refere que não tem televisão, não tem telemóvel, não está em nenhuma rede social e não vai pesquisar no Google o que pode pesquisar num livro.
ResponderEliminarDiz que resistir aos estímulos é uma condição para a saúde da nossa espontaneidade criativa.
E a propósito cita uma Máxima de Goethe:
"Sou obrigado a considerar como a maior desgraça da nossa época, uma época que não deixa amadurecer nada, o consumir o momento seguinte no momento que está a passar, desperdiçar o dia no dia e assim viver sempre ao Deus dará, sem nada ter diante de si para seguir. Até já temos jornais para todas as horas do dia e não seria difícil a uma pessoa esperta intercalar ainda outros pelo meio. Deste modo tudo o que cada um empreende, imagina, até mesmo o que tenciona fazer, tudo isso é arrastado para o domínio público. A ninguém é permitido ter as suas alegrias ou sofrer as suas dores a não ser como passatempo dos outros e assim damos por nós a saltar de casa em casa de cidade em cidade de continente em continente tudo a grande velocidade…”.
Também aqui neste blog se sente esse frenesim editorial; quem se descuidar a tecer um comentário a um post de há dois ou três dias atrás, corre o sério risco de para lá o deixarem desamparado, triste e sem resposta. O tempo não se compadece dos atrasados. :)
No tempo de Goethe já havia assim jornais a toda a hora?! E tudo era arrastado para o domínio público?! E eu a pensar que a net é que tinha trazido o voyeurismo na força toda...
ResponderEliminarE olhe que fiquei ainda a gostar mais de Filomena Molder pela sua recusa às modernices de tudo ligado sempre. Contudo, dir-lhe ia que tenho muito menos livros que ela e o google me está muito mais à mão.
Joaquim, sou de facto distraída. Muito. E, salvo excepções, respondo aos comentários. Considere uma excepção. Mas não significa que os não tenha lido. Dou-lhe alguma razão, devia ter fechado a caixa de comentários, mas a verdade é que não sei como fazê-lo. A ideia de "frenesim editorial" neste blogue fez-me sorrir.
Volte sempre. E bom dia:)
Há pessoas que sabem cativar com a forma como conseguem comunicar de modo claro e sem a pretensão exibicionista!
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Também por aqui se faz o mesmo... prendendo a atenção e exigindo concentração! Bj
Obrigada Gracinha:)
ResponderEliminarE tenha um bom dia
Bea, acabei de me informar ( na Wikipedia) acerca da personalidade que evoca. Nunca antes ouvira o seu nome. A referência aos campos de concentração e à marca que deixam em quem os visita fez-me reviver o que senti em Dachum, perto de Munique - para que a memória não se apague.
ResponderEliminarAchei graça á convicção de que as coisas perdidas acabam por eaparecer - tese de uma hiperdistraída que, na realidade não se concretizando, apazigua os desvarios da desorganização. Sempre um prazer ler a sua escrita!
:) também só nas férias do verão fiquei a conhecer Etty Hillesum. Agora sei um pouco mais, muito pouco.
ResponderEliminarSaí de Auschwitz e Birkenau completamente desmoralizada. Há realidades aterradoras.
Também gosto da teoria de perdidos e achados. E a verdade é que bastas vezes procuro sem encontrar e mais tarde, noutro dia, encontro sem procurar e no mesmo lugar onde antes procurei. Mistérios da vida quotidiana:).
Que bela crónica! É pena que o Tolentino não te leia pois ficaria a saber, de fonte séria e despretenciosa e muito bem, o que se passa nas segundas feiras na Capela do Rato. Eu própria vou recapitular e agradeço!
ResponderEliminarAlda, tu gostas de brincar comigo, só pode.
ResponderEliminarDesconhecia Etty Hillesum. Fica a curiosidade de a ler.
ResponderEliminar:))
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