domingo, 17 de março de 2019

Discreta Indiscrição


(a carta)
Foros de Vale Figueira, 4 de Setembro de 1966


Carlos

Nem tu imaginas quanto me alegra que andes já a empacotar pertences e com o regresso no pensamento. Dois anos em África é martírio e perigo que se não deseja aos inimigos, muito deves ter padecido em lugar que não nos pertence. Velo a lamparina que te acendi e tremeluz dia e noite e estou crente que, por ela, um anjo te guarda da morte e protege de perigos que nem sonho.
Sempre quis ser madrinha de guerra, escrever a um soldado que luta lá longe por terras que mesmo depois de as ter estudado e me dizerem que são nossas, continuo a sentir estrangeiras. Que nenhum soldado merece tal sorte ou tem culpas no conflito que todos aflige. Apesar das tuas queixas, acredito ter cumprido. Dei-te o ânimo de que fui capaz, atentei nos poucos lamentos de aerograma, procurei que a minha escrita te fosse calmo refrigério. E fui-te contando os pequenos nadas da minha vida de aldeia.
É verdade que neste tempo te pertenço mais do que a qualquer outra pessoa, andar contigo no pensamento não pesa nem quer passaporte ou salvo conduto. Que escrever-te e pensar em ti é tudo que nos une e posso fazer. Não sou uma madrinha de guerra comum, apesar da aldeia, das preocupações comezinhas, do meu espírito simples que deixa tanto mundo fora da compreensão e me reduz os esquemas mentais. Foi com eles que te entendi nos quilómetros de palavras escritas e por escrever. A tua vida é toda para fora; a minha, toda para dentro. Encontrámo-nos no limite e cada um volta a quem é. Não meças o que não foi dado, não te apouques em comparações, um caminho de aerogramas é por necessidade leve. Mas toda a leveza é arte. E isso conseguiste e é mérito teu.
Vai, guarda-me dentro dos dias de inferno, apenas uma névoa de palavras, rasto breve de poeira que terminou a função. Reduz-me ao que sou, um montão de ideias que se fizeram companhia. Vai e procura, ou encontra sem procurar, quem converta em gestos e actos todo o bem que se escreve. É rotundo o meu não. Quando chegues, não me procures, deixa Pandora dentro da caixa.
Que no caminho de volta navegues em mar de calmaria e chegues são e salvo ao teu destino. Não sei nomear o bem que de ti me veio ou o quanto gostei de te ler. Obrigada.
Isa



6 comentários:

  1. 1966 não é assim tão antiga. Pensava que fosse mais antiga (anos 20/30).
    A linguagem da carta não parece de 1966...verdade verdade ou verdade na mentira?

    Gostei de ler

    Beijinhos e bom domingo:))

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  2. PS: Eu sou ao contrário, guardo tudo, o que se torna um grande problema, porque o espaço vai faltando.

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  3. Tem ares de ser a carta final da madrinha de guerra ao seu correspondente. Tenho um primo mais velho, que passou pela Guiné e nos contava casos em que esta relação madrinha/soldado, por vezes ultrapassava os objetivos a que se propunham; o apoio moral, psicológico ou até mesmo emocional.
    A madrinha de guerra enviava cartas para o seu soldado, mas poderia também enviar pacotes, presentes e fotografias.
    Especulando sobre a carta em apreço, a madrinha coloca um rotundo não, a qualquer tipo de relacionamento após o regresso do soldado, terá o soldado se "portado mal" no ultramar? Pretenderia o soldado algo que a madrinha lhe não poderia ou quereria dar? Tudo hipóteses.
    Fico a pensar como o ser humano é tão sensível ao afeto quando está em carência. Vulgo do querer dar a mão e tomarem-nos o braço.
    O afeto designa um estado da alma, um sentimento e sempre uma mudança ou modificação que ocorre simultaneamente no corpo e na mente. E, muito importante, a madrinha que revela sageza ao longo das linhas, terá desconfiado que a maneira como o soldado vai ser afetado por esta missiva, pode diminuir a sua vontade de agir, e, arrisco eu, terá decidido ... não lhe enviar esta derradeira carta.

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  4. Olá Bea
    tem uma mensagem para si (de uma leitora sua) no meu último post.

    Beijinhos:))

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  5. Cartas que aconchegavam à distância ou não! bj

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