(a carta)
Foros
de Vale Figueira, 4 de Setembro de 1966
Carlos
Nem
tu imaginas quanto me alegra que andes já a empacotar pertences e com o regresso
no pensamento. Dois anos em África é martírio e perigo que se não deseja aos
inimigos, muito deves ter padecido em lugar que não nos pertence. Velo a
lamparina que te acendi e tremeluz dia e noite e estou crente que, por ela, um
anjo te guarda da morte e protege de perigos que nem sonho.
Sempre
quis ser madrinha de guerra, escrever a um soldado que luta lá longe por terras
que mesmo depois de as ter estudado e me dizerem que são nossas, continuo a
sentir estrangeiras. Que nenhum soldado merece tal sorte ou tem culpas no
conflito que todos aflige. Apesar das tuas queixas, acredito ter cumprido. Dei-te
o ânimo de que fui capaz, atentei nos poucos lamentos de aerograma, procurei
que a minha escrita te fosse calmo refrigério. E fui-te contando os pequenos
nadas da minha vida de aldeia.
É
verdade que neste tempo te pertenço mais do que a qualquer outra pessoa, andar
contigo no pensamento não pesa nem quer passaporte ou salvo conduto. Que
escrever-te e pensar em ti é tudo que nos une e posso fazer. Não sou uma madrinha
de guerra comum, apesar da aldeia, das preocupações comezinhas, do meu espírito
simples que deixa tanto mundo fora da compreensão e me reduz os esquemas
mentais. Foi com eles que te entendi nos quilómetros de palavras escritas e por
escrever. A tua vida é toda para fora; a minha, toda para dentro.
Encontrámo-nos no limite e cada um volta a quem é. Não meças o que não foi
dado, não te apouques em comparações, um caminho de aerogramas é por
necessidade leve. Mas toda a leveza é arte. E isso conseguiste e é mérito teu.
Vai,
guarda-me dentro dos dias de inferno, apenas uma névoa de palavras, rasto breve
de poeira que terminou a função. Reduz-me ao que sou, um montão de ideias que
se fizeram companhia. Vai e procura, ou encontra sem procurar, quem converta em
gestos e actos todo o bem que se escreve. É rotundo o meu não. Quando chegues,
não me procures, deixa Pandora dentro da caixa.
Que
no caminho de volta navegues em mar de calmaria e chegues são e salvo ao teu
destino. Não sei nomear o bem que de ti me veio ou o quanto gostei de te ler.
Obrigada.
Isa
1966 não é assim tão antiga. Pensava que fosse mais antiga (anos 20/30).
ResponderEliminarA linguagem da carta não parece de 1966...verdade verdade ou verdade na mentira?
Gostei de ler
Beijinhos e bom domingo:))
PS: Eu sou ao contrário, guardo tudo, o que se torna um grande problema, porque o espaço vai faltando.
ResponderEliminarQue lindo!
ResponderEliminarBjins
CatiahoAlc.
Tem ares de ser a carta final da madrinha de guerra ao seu correspondente. Tenho um primo mais velho, que passou pela Guiné e nos contava casos em que esta relação madrinha/soldado, por vezes ultrapassava os objetivos a que se propunham; o apoio moral, psicológico ou até mesmo emocional.
ResponderEliminarA madrinha de guerra enviava cartas para o seu soldado, mas poderia também enviar pacotes, presentes e fotografias.
Especulando sobre a carta em apreço, a madrinha coloca um rotundo não, a qualquer tipo de relacionamento após o regresso do soldado, terá o soldado se "portado mal" no ultramar? Pretenderia o soldado algo que a madrinha lhe não poderia ou quereria dar? Tudo hipóteses.
Fico a pensar como o ser humano é tão sensível ao afeto quando está em carência. Vulgo do querer dar a mão e tomarem-nos o braço.
O afeto designa um estado da alma, um sentimento e sempre uma mudança ou modificação que ocorre simultaneamente no corpo e na mente. E, muito importante, a madrinha que revela sageza ao longo das linhas, terá desconfiado que a maneira como o soldado vai ser afetado por esta missiva, pode diminuir a sua vontade de agir, e, arrisco eu, terá decidido ... não lhe enviar esta derradeira carta.
Olá Bea
ResponderEliminartem uma mensagem para si (de uma leitora sua) no meu último post.
Beijinhos:))
Cartas que aconchegavam à distância ou não! bj
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