Tolentino
Desculpa
o atraso, mas nem sempre podemos fazer o que desejamos quando o desejamos. E
escrever-te, desta vez, ficou para o fim. Foram demasiadas coisas em poucos
dias. E, portanto, vamos falar do que aqui me trouxe. Antes, devo informar-te
que continuamos em modo de primavera.
Pois
a tua igreja mantém-se acima do meio gás e sem a afluência que lhe notei ano
passado em que até o coro inflava de gente. Também é verdade que a escolha das
obras foi menos feliz. É a minha perspectiva, vale o que vale. Desta vez
falou-se sobre Gabriela Llansol e a sua última obra “Os cantores de leitura”.
Advirto que já tinha lido um livro da autora e não é escrita que encontre
prazeirosa. Contudo, gostei da prelecção, João Barrento foi competente a
informar e ajudou a descodificar a autora que se autodefinia, “alguém que escreve nas margens da literatura”. Pois
gostei de saber mais acerca de Gabriela Llansol. Usa escrita poética e de
beleza depurada. Apresenta-se em pequenos quadros ou fragmentos aparentemente
sem qualquer ligação e que são como clareiras – Barrento chamou-lhes cenas de
fulgor - de onde podem nascer caminhos, cabe ao leitor escolher o seu e andar.
Inaugurá-lo. Do que li – sem entender grande coisa, diga-se –, apercebi a
diferença no papel do leitor que, segundo João Barrento, é antes um “legente”,
ou seja, um leitor transformador, nada de ser apenas leitor. Ora, tu
conheces-me, Tolentino. Tenho grande prazer em ser apenas leitora, sujeito
passivo que vai lendo e só move o imaginário, tudo o mais repousa. Leio para
descansar. E Gabriela não nos dá descanso. Ele é a estranheza da obra fora de
qualquer representação do mundo; ou os muitos nomes que encontra para nomear o
mesmo ser de outra forma - e aqui, desculpa , mas penso que se divertia –
repara que ao Baruch Espinosa que conhecemos e de que gostava em excesso, gosta
de chamar a rena benedita e trá-lo para os livros de forma
pessoal e como bem lhe apraz sem se ater às suas verdades filosóficas, ou
atendo-se a elas mas para as modificar e tratar a gosto; e encontras nomes humanos
tão estranhos, como poéticos são os fragmentos. Por outro lado, designar o
mundo de “jardim devastado” é um acto de justiça mais que de diversão. Ao
acto da escrita chama “o rio da escrita”, rio que os livros fragmentam;
talvez por isso as personagens transitem de uns livros a outros.
Não
conseguiria nestas linhas sintetizar a indefinível e avessa escrita de Gabriela
Llansol. Também por ignorância. Mas olha, atenta nas tuas ovelhas porque até eu estava
envergonhada daquele final. É que foram debandando às claras e com ousadia,
umas atrás das outras que nem formigas no carreiro. E o Barrento falando para
uns gatos pingados. Pareceu-me pouco delicado.
Fica
bem. E não trabalhes demais. “Olha os lírios do campo...”
Bem interessante, e nada que me surpreenda, direi até que vai de encontro ao que esperava. Ouvi falar de Gabriela Llansol com mais acuidade nas Conta Corrente de Vergílio Ferreira, e já o grande escritor (para mim entenda-se) se lhe referia como difícil de definir. Depois fui aprofundar e cheguei às mesmas conclusões. Ler e não ter prazer ou compreender ou ser necessário um guia de ajuda, não vale a pena, especialmente na minha idade e com mais livros na estante à espera de serem lidos, do que seguramente o tempo que me resta de vida.
ResponderEliminarsou mais ou menos da sua opinião. Mas gosto de saber que existe gente como ela:). Não me parece que alguém compreenda integralmente esta escritora. Ainda tenho esperança de comprar os livros de Conta corrente de Vergílio Ferreira. Ou pelo menos de lê-los. Tentar a biblioteca pública, talvez.
EliminarDesconhecia e por isso obrigado por dar a conhecer!
ResponderEliminarNesta fase da vida a minha leitura é bem light e com grande pena minha... há livros na biblioteca lá de casa à espera que sejam lidos!!!
Bj
Gabriela Llansol não é fácil. E suponho que fique na história da literatura portuguesa pela diferença.
EliminarVou pesquisar! Bj
EliminarTenho ali, na estante, "Um beijo dado mais tarde", que ainda não li.
ResponderEliminarProvavelmente começarei pelo pósfácio de João Barrento.
:)
É uma escritora diferente. E a Luísa pode gostar. Estou convicta de que vai ficar na historia da literatura.Mas não é uma Xerazade:).
ResponderEliminarÉ uma expert com títulos. Não sei se esse foi o livro que João Barrento citou como sendo aquele em que exorcizou a saudade e o sofrimento pela morte do marido. E no entanto eu o leria antes do posfácio.
Nunca li nada da Gabriela Llansol.
ResponderEliminarLi sim "Olhai os lírios do campo" quando tinha 15 anos.
Como o trouxe de Portugal, até o vou procurar na estante.
Também gostei desse livro que me deram para aí aos dezoito:).
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