domingo, 17 de março de 2019

Tolentino


Tolentino
Desculpa o atraso, mas nem sempre podemos fazer o que desejamos quando o desejamos. E escrever-te, desta vez, ficou para o fim. Foram demasiadas coisas em poucos dias. E, portanto, vamos falar do que aqui me trouxe. Antes, devo informar-te que continuamos em modo de primavera.
Pois a tua igreja mantém-se acima do meio gás e sem a afluência que lhe notei ano passado em que até o coro inflava de gente. Também é verdade que a escolha das obras foi menos feliz. É a minha perspectiva, vale o que vale. Desta vez falou-se sobre Gabriela Llansol e a sua última obra “Os cantores de leitura”. Advirto que já tinha lido um livro da autora e não é escrita que encontre prazeirosa. Contudo, gostei da prelecção, João Barrento foi competente a informar e ajudou a descodificar a autora que se autodefinia, “alguém que  escreve nas margens da literatura”. Pois gostei de saber mais acerca de Gabriela Llansol. Usa escrita poética e de beleza depurada. Apresenta-se em pequenos quadros ou fragmentos aparentemente sem qualquer ligação e que são como clareiras – Barrento chamou-lhes cenas de fulgor - de onde podem nascer caminhos, cabe ao leitor escolher o seu e andar. Inaugurá-lo. Do que li – sem entender grande coisa, diga-se –, apercebi a diferença no papel do leitor que, segundo João Barrento, é antes um “legente”, ou seja, um leitor transformador, nada de ser apenas leitor. Ora, tu conheces-me, Tolentino. Tenho grande prazer em ser apenas leitora, sujeito passivo que vai lendo e só move o imaginário, tudo o mais repousa. Leio para descansar. E Gabriela não nos dá descanso. Ele é a estranheza da obra fora de qualquer representação do mundo; ou os muitos nomes que encontra para nomear o mesmo ser de outra forma - e aqui, desculpa , mas penso que se divertia – repara que ao Baruch Espinosa que conhecemos e de que gostava em excesso, gosta de chamar a rena   benedita e trá-lo para os livros de forma pessoal e como bem lhe apraz sem se ater às suas verdades filosóficas, ou atendo-se a elas mas para as modificar e tratar a gosto; e encontras nomes humanos tão estranhos, como poéticos são os fragmentos. Por outro lado, designar o mundo de “jardim devastado” é um acto de justiça mais que de diversão. Ao acto da escrita chama “o rio da escrita”, rio que os livros fragmentam; talvez por isso as personagens transitem de uns livros a outros.
Não conseguiria nestas linhas sintetizar a indefinível e avessa escrita de Gabriela Llansol. Também por ignorância. Mas olha, atenta nas tuas ovelhas porque até eu estava envergonhada daquele final. É que foram debandando às claras e com ousadia, umas atrás das outras que nem formigas no carreiro. E o Barrento falando para uns gatos pingados. Pareceu-me pouco delicado.
Fica bem. E não trabalhes demais. “Olha os lírios do campo...”


9 comentários:

  1. Bem interessante, e nada que me surpreenda, direi até que vai de encontro ao que esperava. Ouvi falar de Gabriela Llansol com mais acuidade nas Conta Corrente de Vergílio Ferreira, e já o grande escritor (para mim entenda-se) se lhe referia como difícil de definir. Depois fui aprofundar e cheguei às mesmas conclusões. Ler e não ter prazer ou compreender ou ser necessário um guia de ajuda, não vale a pena, especialmente na minha idade e com mais livros na estante à espera de serem lidos, do que seguramente o tempo que me resta de vida.

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    1. sou mais ou menos da sua opinião. Mas gosto de saber que existe gente como ela:). Não me parece que alguém compreenda integralmente esta escritora. Ainda tenho esperança de comprar os livros de Conta corrente de Vergílio Ferreira. Ou pelo menos de lê-los. Tentar a biblioteca pública, talvez.

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  2. Desconhecia e por isso obrigado por dar a conhecer!
    Nesta fase da vida a minha leitura é bem light e com grande pena minha... há livros na biblioteca lá de casa à espera que sejam lidos!!!
    Bj

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    1. Gabriela Llansol não é fácil. E suponho que fique na história da literatura portuguesa pela diferença.

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  3. Tenho ali, na estante, "Um beijo dado mais tarde", que ainda não li.
    Provavelmente começarei pelo pósfácio de João Barrento.
    :)

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  4. É uma escritora diferente. E a Luísa pode gostar. Estou convicta de que vai ficar na historia da literatura.Mas não é uma Xerazade:).
    É uma expert com títulos. Não sei se esse foi o livro que João Barrento citou como sendo aquele em que exorcizou a saudade e o sofrimento pela morte do marido. E no entanto eu o leria antes do posfácio.

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  5. Nunca li nada da Gabriela Llansol.
    Li sim "Olhai os lírios do campo" quando tinha 15 anos.
    Como o trouxe de Portugal, até o vou procurar na estante.

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  6. Também gostei desse livro que me deram para aí aos dezoito:).

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