É
certo e sabido que gosto de gatos. Em casa de meus avós havia vários, mas só a
Bibi colou à memória. Era a mansidão em forma de gata preta e tinha um amor
perdido por meu avô, seguindo-o por tudo que era canto. Os gatos dos meus avós,
como mais tarde os de minha mãe, eram seres livres e passeavam-se por onde lhes
dava na veneta desde que não passassem da cozinha. Ou seja, eram animais de
rua. Nesse tempo, as crianças não andavam com os gatos ao colo, apenas se
habituavam à sua companhia. A Bibi, aninhada aos pés de meu avô, fazia-me o
favor de comer os elementos da sopa que me nauseavam e eu lhe atirava por debaixo
da mesa sem a minha avó aperceber, lambendo prestamente os vestígios. No fim, prato
quase vazio, ela em resmungo agreste, não gosta de tomate, não gosta de tomate,
aqui come tudo, a mãe é que não aperta com ela. E o sorriso cúmplice de meu
avô, olhos no prato.
Tenho
várias histórias com gatos, algumas com marcas de alma. Os gatos de minha mãe,
pretos por condição e gosto, de tão à vontade que andavam, breve se tornavam selvagens.
Com frequência emigravam para os confins do mundo não civilizado, todo
sobreiros e cobras, regressando apenas por fome de comidinha caseira e
desfastio de saudade. Faziam aparições esporádicas até perderem memória de nós
e desaparecerem de vez. Chegavam arredios e a olhar-me num assanhamento
vingativo que não consentia mão. A insistência incrédula da minha ternura de
saudade curava-se a mercurocromo e tempo feito de lágrimas desapontadas. Os
gatos deram-me a primeira lição sobre a reciprocidade afectiva: a chama não é
eterna nem é de lei que apague em simultâneo. No entanto, apesar dos anos terem
confirmado a verdade gátil, ainda hoje os arranhões e olhares rancorosos dos
meus bichos de estimação purulentam na memória.
Portanto,
quando criei a minha própria casa, frequentada apenas por lagartixas renitentes
e aranhiços provincianos, julguei-me a salvo da selvajaria das garras e adoptei
um gato adulto que não me largava a porta. Foi o recomeço dos gatos na minha
vida. Que me inibo de contar. Ao caso, interessa apenas o felino que ora me
acompanha: uma doce gata de olho azul que foi abandonada bebé – talvez por ser
fêmea – quase na soleira da porta. Indubitável presente divino que, felizmente,
aceitei.
(cont)
Curiosamente é um animal que tenho aprendido a gostar desde que vivo na aldeia e quase toda a casa... os têm!!!
ResponderEliminarBj
É verdade, Gracinha, nas aldeias ainda os gatos fazem parte do agregado, pertencem:)
ResponderEliminarOlá, Bea!
ResponderEliminarPrefiro cães a gatos. Neste momento não tenho nenhum, mas já tive 3 (um de cada vez) que partiram tragicamente e me deixaram de rastos. Desisti de animais de estimação. Pena minha!
A minha filha é louca por gatos. Com ela aprendi a conviver com eles.
"a chama não é eterna nem é de lei que apague em simultâneo", hum, gostei de ler. Melhor, gostei de ler TUDO. Venha mais.
Beijo, bom fim-de-semana.
Fica bem!
Olá Teresa:)
ResponderEliminarpois é, tenho de contar a minha gata borralheira. Mas não hoje. Ver talvez um filme leve e ficar a olhá-lo como boi para palácio.
A dizer a verdade, não gosto de gatos. Carrego numa perna cicatrizes de um confronto que, em criança (tinha 4 ou 5 anos) tive com um gato. Da minha avó recebi a ordem de o escorraçar e eu fi-lo inconsciente do cio que o tornava selvagem. Atacou-me com unhas e dentes e a minha perna pequenina recebeu cuidados hospitalares.
ResponderEliminarRecentemente um gato bebé entrou de novo na minha vida e eu, habituada à doçura dos cães, estranhei o seu comportamento arredio, nada dado a afetos.
Será que pressentiu o meu infantil ressentimento?
Definitivamente, não gosto de gatos.
Bom domingo.
Gostei imenso do texto!
ResponderEliminarGosto de gatos e só não tenho um por preguiça e porque me dizem que esgadanham tudo, de cortinados a sofás...Prezo muito os meus sofazinhos de couro que me custaram a ganhar, e tudo o que um gato me poderia estragar. Por isso, não tenho uma história com gatos!
Mas tenho pena...gosto de gatos!
Beijinhos e bom domingo:))