Não
te vi morto. Prescindi de espreitar-te a lividez de restos tão desabitados de
ti como casa a que arrancassem portas e janelas. Faltou-me a vontade. A possessiva morte varreu-te. Com ela veio
o desgosto artístico das flores acopladas
em coroa e coração, olha para o que nascemos. E eu, indicador no nariz e boca
de assobio, pssss, mais respeito. E logo elas obedientes, corola baixa, vamos
murchar devagarinho, prometemos. Mas, em mim existes tu alegre e jovem, o filho
mais novo ao colo, vamos apagar as velas os dois. E um ano e outro no nosso aniversário, tu a
erguer o copo e fazer saúdes que rimavam. Tu jovem e cheio de força, ainda com o casaco
azul do emprego. Ou metido na brancura de uma camisola de alças a cavar o
quintal. Eu a observar-te a mecânica dos gestos no mover da enxada que as tuas
mãos faziam dançarina, escorrimentos de suor a fazer caminho pelo rosto. E o que ficou
na memória de nós todos, a descoberta da tua agenda que tanto gozo deu a filhos
e primos. Nessas folhas datadas, apontavas gastos e semeaduras, memórias que adendavas
uma vez ou outra de coloquialismo ingénuo. Escrevias, “hoje semeei as batatas”
e acrescentavas, “venham elas cá para o Manuel”. E a risota curiosa dos garotos
a espiolhar outros àpartes. Mas nunca enjeitaste um filho na barriga. À vista
das lágrimas da minha madrinha, enfrentaste a última de peito feito, sempre a
animá-la, “deixa lá, é para a nossa velhice”, uma frase tão simples e corriqueira, mas foi bálsamo nas minhas feridas. E
o carinho com que olhavas o teu éden. Doente e debilitado, a morte já a chamar-te, mas usando ainda a
sem idade do amor. Enlevo de oitenta e cinco anos para oitenta e nove, “tu és muito
querida e também és bonita”.
Mas
para mim, padrinho, continuamos todos sentados à mesa e tu de pé, copo erguido,
a saudar.
Vou
beber este copinho
E
não me custa mesmo nada
Viva
eu que faço anos
E
viva a minha afilhada.
As pessoas da nossa vida, aquelas que ficam sempre.
ResponderEliminar~CC~
Tão escasso é o nosso sempre. Uma efeméride.
Eliminar... é que jamais esqueceremos e um sorriso no olhar teremos!
ResponderEliminarPara mim... sempre que recordo alguém que partiu e que muito amei... a lágrima substitui o sorriso! Bj
A gente chora de muita maneira, Gracinha; o mundo está cheio de lágrimas que o fertilizam.
ResponderEliminarSobre este tema já comentei ontem. A gente comenta, mas só alguns obtêm resposta... :)
ResponderEliminarPeço desculpa, Joaquim. Ontem foi um dia muito estranho por não ter dormido na noite anterior. Passou-me mesmo. Vou já corrigir.
ResponderEliminarSe me conhecesse sabia que não gosto de deixar os outros sem resposta. Se deixo, não é bom sinal. Responder a quem me comenta não é apenas um gesto de delicadeza, ajuda-me e gosto.
Eu acredito que eles estão algures a olhar para nós.Tem que haver alguma coisa para além da morte, senão a vida não teria nenhum sentido.
ResponderEliminarBeijinhos:))
Creio também nisso. Mas às vezes com pouca força.
EliminarTão bom quando se consegue guardar gratas memórias e muita saudade. Diz-se que assim, eles, os que partem, não morrem.
ResponderEliminarDiz-se. Porque estão mortos. A lembrança não é uma ressurreição:).
EliminarRecordações tocantes!
ResponderEliminarBigada, Alda.
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