quinta-feira, 14 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não te vi morto. Prescindi de espreitar-te a lividez de restos tão desabitados de ti como casa a que arrancassem portas e janelas. Faltou-me a vontade.  A possessiva morte varreu-te. Com ela veio o desgosto artístico das flores  acopladas em coroa e coração, olha para o que nascemos. E eu, indicador no nariz e boca de assobio, pssss, mais respeito. E logo elas obedientes, corola baixa, vamos murchar devagarinho, prometemos. Mas, em mim existes tu alegre e jovem, o filho mais novo ao colo, vamos apagar as velas os dois. E  um ano e outro no nosso aniversário, tu a erguer o copo e fazer saúdes que rimavam.  Tu jovem e cheio de força, ainda com o casaco azul do emprego. Ou metido na brancura de uma camisola de alças a cavar o quintal. Eu a observar-te a mecânica dos gestos no mover da enxada que as tuas mãos faziam dançarina, escorrimentos de suor a fazer caminho pelo rosto. E o que ficou na memória de nós todos, a descoberta da tua agenda que tanto gozo deu a filhos e primos. Nessas folhas datadas, apontavas gastos e semeaduras, memórias que adendavas uma vez ou outra de coloquialismo ingénuo. Escrevias, “hoje semeei as batatas” e acrescentavas, “venham elas cá para o Manuel”. E a risota curiosa dos garotos a espiolhar outros àpartes. Mas nunca enjeitaste um filho na barriga. À vista das lágrimas da minha madrinha, enfrentaste a última de peito feito, sempre a animá-la, “deixa lá, é para a nossa velhice”, uma frase tão simples e corriqueira, mas foi bálsamo nas minhas feridas. E o carinho com que olhavas o teu éden. Doente e debilitado, a morte já a chamar-te, mas usando ainda a sem idade do amor. Enlevo de oitenta e cinco anos para oitenta e nove, “tu és muito querida e também és bonita”.
Mas para mim, padrinho, continuamos todos sentados à mesa e tu de pé, copo erguido, a saudar.
Vou beber este copinho
E não me custa mesmo nada
Viva eu que faço anos
E viva a minha afilhada.

12 comentários:

  1. As pessoas da nossa vida, aquelas que ficam sempre.
    ~CC~

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  2. ... é que jamais esqueceremos e um sorriso no olhar teremos!
    Para mim... sempre que recordo alguém que partiu e que muito amei... a lágrima substitui o sorriso! Bj

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  3. A gente chora de muita maneira, Gracinha; o mundo está cheio de lágrimas que o fertilizam.

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  4. Sobre este tema já comentei ontem. A gente comenta, mas só alguns obtêm resposta... :)

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  5. Peço desculpa, Joaquim. Ontem foi um dia muito estranho por não ter dormido na noite anterior. Passou-me mesmo. Vou já corrigir.
    Se me conhecesse sabia que não gosto de deixar os outros sem resposta. Se deixo, não é bom sinal. Responder a quem me comenta não é apenas um gesto de delicadeza, ajuda-me e gosto.

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  6. Eu acredito que eles estão algures a olhar para nós.Tem que haver alguma coisa para além da morte, senão a vida não teria nenhum sentido.

    Beijinhos:))

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    1. Creio também nisso. Mas às vezes com pouca força.

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  7. Tão bom quando se consegue guardar gratas memórias e muita saudade. Diz-se que assim, eles, os que partem, não morrem.

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    1. Diz-se. Porque estão mortos. A lembrança não é uma ressurreição:).

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