Hoje queria plantar uma árvore,
aninhá-la na ternura das mãos, a terra
das raízes fugindo por entre os dedos e eu a segurá-la em concha, desvelo de
mãe a amparar o recém nascido. Uma árvore qualquer. Crescendo frondosa enquanto
eu minguava. Sombra a que me sentaria meditabunda e arfante, nas soalheiras
do verão. Que olharia da janela quando despida, nuzinha, tiritasse os rigores
da invernia. Que alegrasse as primaveras do meu outono e, no declínio do verão,
mostrasse ao mundo um rumor de chão colorido. À minha árvore eu fazia cama bem
funda, as raízes espreguiçando langor à vista de ementa refinada. Fazia-lhe a
cama com lençóis a gosto, carregados em carro de mão. Depois, plantava com
cuidado o seu corpinho verde, não fosse deslocar um braço, torcer um pé,
constipar-se com a aragem. E ficava a vê-la, direita como fuso, talvez amparada a bengala de árvore bebé, arreada de lençóis e aconchegos. E vigiava a
mangueira, não fosse ela engasgar-se e vomitar tudo. Que, bem sei, árvores semelham bebés, bolsam. Preferia que ela crescesse como um desenho animado, uma
explosão de vida a engrandecer e criar folhas, flores e frutos; tudo em segundos. Mas
a vida não é animação, é só vida. E,
quem sabe, gostava ainda mais de a descobrir menina. Depois, amorosamente,
embastecia como adolescente precoce e provocava atrofios e descaradas invejas. Mais
tarde, num movimento de anos e centímetros, quando tudo nela fosse grande, maduro
e pronto, daria frutos suculentos, doces, nascidos para lavar e dentar. Então, eu
sentava-me sob a sombra verde e copada do enrameado. Trazia no regaço alguns
frutos ainda com gotículas de água escorrente e, sem magoar, ia dando dentadinhas pequeninas,
mordendo levemente a sua pele lisa e apetecida, e a vontade do sumo escorregava
do interior; e era bom por ser doce e ter um travo ligeiro que não se sabe se é
seiva ou sol líquido, ou apenas o sabor do cheiro que têm os frutos que apetecem.
Porém, não plantei a minha árvore de
frutos de mel. Gastei-me, de tesoura em punho, a poemar trepadeiras. Ora, numa
redacção acaba tudo em bem: o que eu gosto de árvores não tem limite ou figura.
E eu que nunca plantei uma árvore... :(
ResponderEliminarAjudei a plantar várias e a arrancar outras tantas. Sozinha, plantei zero:). Mas não perdi a esperança. Um dia ainda planto um jacarandá.
ResponderEliminarPlantar uma árvore é um pouco como "ter um filho" ... vê_la crescer e dar flor é magia para o olhar e "trincar" seus frutos é o apogeu desse gesto que pode fazer a diferença!
ResponderEliminar...
Fui professora 35 anos, em 2010 reformei_me para cuidar dos meus pais e entretanto troquei a cidade pela aldeia!
Ajudei a plantar 12 árvores de fruto das quais 2 secaram, para grande pena minha!
Se meus terrenos fossem grandes também planetária um jacarandá... assim fico pelas mais vulgares!!!
Bj
mas a Gracinha já tem dez árvores de fruto:)
ResponderEliminarNada é como ter um filho:).
Também se plantam árvores por imaginação e eu vi a tua árvore , a maneira como cresceu , como cuidavas dela e como ela te agradeceu!
ResponderEliminarPara mim uma árvore qualquer árvore, é um ser fantástico a quem agradeço a existência.
Estamos em sintonia, Alda:).
ResponderEliminarMas as árvores imaginárias não dão sombra, nem flores, nem o mais. Precisamos de árvores a sério. Mais árvores vivas para nos fazerem companhia.
Bea, está perdoado por não ter plantado A Árvore - eu também não que me perco das datas dos dias de ... mas dedico muito do meu tempo às minhas coisinhas verdes.
ResponderEliminarEstá perdoada, mais que perdoada porque este texto - ah! Este texto! - poesia pura! Na forma, no requinte das palavras escolhidas e no conteúdo com uma mensagem de paz interior, de amor às pequenas coisas , verdadeiramente comovente.
:) Obrigada. As árvores têm um lugar especial no meu coração. Cresci com algumas muitas.
EliminarAcho que o eterno mar que temos em frente, os cantares de amigo, as crónicas do reino, o Luís de Camões que quase se perdia, os inúmeros escritores e poetas que por cá nasceram e nos descrevem "aqui", deram-nos uma capacidade de escrever e ler que me parece incomum. Muitos andam por aqui, escrevendo para o ar. Como nos encontrámos no "dias com" elas, saberás como as amo indispensáveis. Mas o tempo, ah ... o tempo fugit.
ResponderEliminarÉ bettips, escrever para o ar é a melhor definição do que fazemos:). Escrever para ninguém e toda a gente. Não foi assim com Camões e tantos outros. Digo eu que felizmente para eles. Mas não sei o que neles se mudou por serem grandes.
ResponderEliminarO tempo, bettips, leva-nos antes das árvores. Só em desenho animado a minha árvore é verdade.