Uma vez por outra os meus gatos chegam até aqui. Julgo-os felizes. São mimados, têm o alimento a horas e podem dispôr da casa inteira – dormem e enfiam-se onde mais lhes apetece. E espairecem no quintal e arredores (arredores, lugar de morte para quase todos). Esta gata chegou adulta, muito magra e receosa: fugia ao toque, e virava-nos uns olhos amarelos de lince pouco agradáveis. Não a forçámos. Mas também não desistimos de a ameigar.
A gata de hoje é quase outra da que nos chegou em Agosto. Tem os mesmos olhos marginais e parece estar sempre pronta a fincar o dente ou arranhar – defesas que não usa. Mas sobe-nos para o colo sem temor. No meu caso, acredito que toda a sua meiguice visa que me levante da cadeira onde me sabe sentada e vá dar-lhe a ração. Digo isto porque só me procura uma ou duas horas antes da refeição. Mas exerce a preceito. Pula e fica a mirar-me com olhos pedintes; como não resulta, enrosca-se tendo o cuidado de encostar a cabeça a uma das minhas mãos, enquanto estende as patas por cima da outra. Ficamos portanto de mão dada. E digo para dentro, bonito serviço(!), estou eu aqui de mão dada com uma gata adormecida. Se acaso mexo uma perna, mesmo sendo de leve, pula para o chão na esperança de que seja sinal de me levantar e senta-se implorativa. Digo-lhe, gata, ainda não são horas. E ela pula-me de novo para o colo, senta-se a olhar-me de frente e aproxima tanto o focinho que os bigodes me fazem cócegas. Por norma, e para os outros gatos, repetia inúmeras vezes, dá um beijinho à dona! Mas eles não me ligavam meia. E não é que esta, a quem nunca eu disse tal, parece mesmo querer beijar-me?! Depois enrosca-se de novo e, pressurosa, lambe-me a mão mais próxima enquanto me vai dando dentadinhas pequenas. Nada disto é novo para mim, já o vivi com outros gatos (excepção feita à sua atracção pelo meu rosto). Também sei que correm na nossa frente satisfeitíssimos, se acaso saímos ao quintal. Mas esta gata ultrapassa todos em velocidade, ela corre como se esteja a pretender ganhar uma prova nos jogos olímpicos. Endoidece, a bichana.
E é isto.