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domingo, 11 de janeiro de 2026

Ternuras e Tagatés

 

        Uma vez por outra os meus gatos chegam até aqui. Julgo-os felizes. São mimados, têm o alimento a horas e podem dispôr da casa inteira – dormem e enfiam-se onde mais lhes apetece. E espairecem no quintal e arredores (arredores, lugar de morte para quase todos). Esta gata chegou adulta, muito magra e receosa: fugia ao toque, e virava-nos uns olhos amarelos de lince pouco agradáveis. Não a forçámos. Mas também não desistimos de a ameigar.

        A gata de hoje é quase outra da que nos chegou em Agosto. Tem os mesmos olhos marginais e parece estar sempre pronta a fincar o dente ou arranhar – defesas que não usa. Mas sobe-nos para o colo sem temor. No meu caso, acredito que toda a sua meiguice visa que me levante da cadeira onde me sabe sentada e vá dar-lhe a ração. Digo isto porque só me procura uma ou duas horas antes da refeição. Mas exerce a preceito. Pula e fica a mirar-me com olhos pedintes; como não resulta, enrosca-se tendo o cuidado de encostar a cabeça a uma das minhas mãos, enquanto estende as patas por cima da outra. Ficamos portanto de mão dada. E digo para dentro, bonito serviço(!), estou eu aqui de mão dada com uma gata adormecida. Se acaso mexo uma perna, mesmo sendo de leve, pula para o chão na esperança de que seja sinal de me levantar e senta-se implorativa. Digo-lhe, gata, ainda não são horas. E ela pula-me de novo para o colo, senta-se a olhar-me de frente e aproxima tanto o focinho que os bigodes me fazem cócegas. Por norma, e para os outros gatos, repetia inúmeras vezes, dá um beijinho à dona! Mas eles não me ligavam meia. E não é que esta, a quem nunca eu disse tal, parece mesmo querer beijar-me?! Depois enrosca-se de novo e, pressurosa, lambe-me a mão mais próxima enquanto me vai dando dentadinhas pequenas. Nada disto é novo para mim, já o vivi com outros gatos (excepção feita à sua atracção pelo meu rosto). Também sei que correm na nossa frente satisfeitíssimos, se acaso saímos ao quintal. Mas esta gata ultrapassa todos em velocidade, ela corre como se esteja a pretender ganhar uma prova nos jogos olímpicos. Endoidece, a bichana.

        E é isto.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Phatos

 

        É vulgar as mulheres gostarem de gatos. Não sei explicar o porquê, mas é assim. Se dissecar o meu gosto por estes animais - também eu vulgaríssima -, reparo que a afinidade me veio da célula familiar. Em tempo salazarista e de miséria popular, parcialmente criada por avós maternos, veio-me o hábito da gataria. Meus avós tinham vários bichanos (era assim que os chamavam) e a Bibi - mãe e mulher de todos – reinava em abençoada promiscuidade e era a única a dar por nome próprio. A Bibi idolatrava meu avô e, no regresso do trabalho, muito antes de passar o portão, já ela se postava de sentinela - portão é modo de dizer, tudo no exterior da casa de meus avós eram flores, só elas distinguiam festivamente sectores e distâncias. Lembro-a sentada e calma sob o arco da trepadeira, na certeza da proximidade que nós não discerníamos, eu a tentar os longes com a minha miopia ignorada e ela imbuída de intuições sentimentais. Jamais se enganou. No tempo de em mim não haver horas, a gata era-me relógio, e reconheço hoje a semelhança de ambas na quase adoração a meu avô. Contudo, mal o lobrigava, eu desatava a correr até ele; ela, imperturbável, era estátua inamovível. Tenho ampla certeza do amor grande de meu avô; mas também sei do afecto vivo pela Bibi que, entrado o portão, não o largava mais. Meu avô deitava-se cedo e cedo partia. Ninguém conseguiu jamais retirar a Bibi da porta do quarto; a Bibi nocturna era o anjo da guarda de meu avô; adiava a caça aos ratos, outros gatos e nem sequer os procurava no tempo do cio. As noites eram dedicadas a meu avô, coincidiam nos sonos. Tudo o resto se desenrolava durante o dia ou na madrugada escura em que meu avô partia; minha avó contava que a Bibi o acompanhava até ao dito portão inexistente. Não conheci até hoje gato mais dedicado a seu dono que a doce Bibi.

        Desconheço quantas Bibis houve na vida de meus avós, mas existiram decerto, minha mãe tinha paixão por gatos pretos e desde que me lembro, houve pelo menos um em nossa casa. Dizem que gatos pretos dão azar; minha mãe não foi bafejada pela sorte. Em fatal invariância, os nossos gatos, mais cedo ou mais tarde, desertavam para a herdade que estrema ainda hoje com a nossa quintinha pequena. Por vezes regressavam e, tornados selvagens, arranhavam os meus irmãos mais novos que os recebiam e queriam, num contentamento de saudade, pegar-lhes ao colo como antes. Eu regressava à tarde e tinha pela frente, estendidos para mim, uns bracinhos de mercurocromo, vítimas incautas dos nefastos animais a que eu ganhava de imediato má vontade se bem que, no fundo do meu ser relampejasse certa ideia vaidosa: gostavam mais de mim e, se fora eu, não me fariam o mesmo, deixavam-se mimar. Mas a verdade é que me chegou a vez, fizeram de mim uma pele vermelha só de braços e logo me arrasaram a vaidade.

        No prolongamento da tradição familiar, já tive vários gatos. Vivendo na beira de estrada, pouco duram. Ficou-me a gatinha de olho azul, a de maior longevidade; inteligente em seus passeios e cruzamento da estrada. E o gatito branco recém nascido, que encontrei na beira de estrada e aos primeiros dias me mostrou a sua morte – mal andava e já ele queria a estrada.

        Os gatos fazem-me falta. Seja lá pelo que for. Este ano a prenda de um filho foi uma gata do gatil. Pena ser já adulta. Chegou ontem e ainda não me gosta, mas já me segue. Chama-se como todas as outras: Gata (no boletim diz June, mas não ligo a esses pormenores). Não posso deixá-la ir à rua o que me constrange, mas sendo adulta e inda sem ligação afectiva, logo nos fugia. Não é bonita nem um pouco (a meu filho disse que é linda), o pelo é de um preto fulvo com laivos arruivados, tem olho amarelo de lince, aspecto de quem não deseja ser domada, rejeita abraços e colo, mas roça-se nas nossas pernas e acompanha-me pela casa; neste momento olha da minha janela aberta para a noite que se despede. Que verá?! Li um dia que os gatos não vêem igual a nós. Mas ela ali continua, absorta na paisagem que vê diferente.

domingo, 28 de março de 2021

Sete Vidas

 

Cresci rodeada de gatos. Em casa de minha avó, a Mimi era uma meiguice de animal que, em promiscuidade relacional, originou várias ninhadas de que a atarefada senhora conservava dois exemplares adultos. Senhora de coração sem tagatés, e violando os cuidados da pobre Mimi escondida dela para dar à luz, minha avó cortava a direito antes de nos apiedarmos dos pobres bebés. Não sabíamos sequer da sua existência, jamais vi um gatito que fosse. Recordo-lhe a azáfama cheia de invectivas para descobrir a parturiente iludindo a minha insistida curiosidade  com a necessidade de a alimentar, facto que me apiedava e fazia buscá-la por breves minutos antes de  me aborrecer ou encontrar algo que, por mais aliciante, me olvidava a Mimi. Por seu turno, minha mãe amava gatos pretos que sempre houve em nossa casa. Não sei como os arranjava, mas, mal um se tornava selvagem desaparecendo até ao eclipse total na herdade vizinha, regressado a espaços cada vez mais longos, arisco e assanhado e em aguerrida repugnância ao toque humano, logo ela encontrava outro bebé. Julgo hoje que o mistério era apenas o pedido que fazia a minha avó, suposição confirmada pelo negro luzidio da Mimi. Quando fiz ninho, logo os gatos da vizinhança se passeavam pelo quintal e, nos tempos em que tinha trabalho nocturno, lembro os olhos que brilhavam na luz dos faróis e de se ensarilharem nas pernas até ao fecho da porta. Isento de novidade. No curso complementar, frequentara o ensino nocturno e havia um ou dois cães que, em fidelidade inexplicável, nasciam da sombra e me seguiam até à estação ferroviária. Permaneciam na gare até o comboio seguir viagem e só depois, como quem cumpriu missão, a abandonavam. Acredito que haja um cheiro próprio em cada pessoa e que os animais lhe sejam mais ou menos sensíveis. Talvez seja explicação para a constância canina. Contudo, nesse tempo juvenil, aborrecia-me entrar numa estação cheia de movimento e gente jovem, seguida por um ou dois cães de rua que, por mais esforços, não desgrudavam.

Ora, toda a gente sabe que tenho um gato crescido e perna curta, que já foi branco de neve e, agruras do crescimento, perdeu a pureza da cor. Mantém a meiguice terna e, afinal, os olhos guardam um azul de claridade original e muito única. Ama a liberdade do quintal e a companhia sisuda e respeitosa do gato corista de D. Ermelinda ervanária. Aos poucos, foi abandonando o meu colo onde já nem cabe e a que só regressa em crises de ternura vadia e respirações de fundo bem estar. O certo é que criou autêntico fetiche com as minhas roupas, sobretudo cachecóis e blusinhas de malha, e os sentidos dizem-me que celebra verdadeiras orgias tal o vigor com que as monta e prende entre os dentes todo entregue ao que me parece um prazer de dilatado azul e ronronar estranho. Por vias deste comportamento, urge dizer que lhe marquei a castração, facto que em si mesmo me desgosta corpo, espírito e carteira. Mas pronto, tem de ser. E é assim. E tal.

Fiquem bem.

segunda-feira, 22 de março de 2021

O Gato

 

Por vezes, ainda estaco parvo de todo, olhando o animal com estupefacção, que é como quem diz, fincado nas quatro patas, cabeça à banda. Não é que não conheça gatos. O felino  de dona Ermelinda ervanária, por exemplo, entra no quintal com donaire e jeito de modelo pimpão mas em gato,  e passa-me pela frente no desafio de  agitar  a cauda plumosa de corista, vaidoso que só visto.  Estira-se em cima das flores e nem um soslaio me deita, o importante. Como se fora tudo dele.  Um pedante de perna elástica é o que ele é. E depois, eu que sou cativo deste espaço e com tanto trote e bafo o faço meu, que nem uma ervinha rebenta nas cercanias, aguento com os gatos todos da rua e arredores que, vá-se lá saber porquê, embicam para este portão; será do desleixo deles que só ao soltar-me na tardinha se dão ao incómodo de fechá-lo. De modos que, nesta vida que são dois dias, sei de um quintal que qualquer cão e gato, querendo, pode pisar. Pois que venham, até distraem. Mas, em vez de virem por mim e darem dois dedos de conversa, não. Rebolam por todo o lugar e nada de  proximidades. Bem que ela os enxota num zzzzttt repetido que respeitam por um bocado e logo voltam e se esparramam sobre as frésias, cujas não têm outro remédio senão florir  rente ao chão, coitadinhas delas. Bom, também eu as rebento, mas que querem, a liberdade é cega e vai tudo a eito nas desentraitadas e crepusculares corridas a que me entrego. Que agora já nem lhes oiço a voz, chamam-me e eu, moita carrasco, para ali estou nos meus aposentos, vadiando em pensamentos de sono e saudade, que a velhice é assim a modos que melancólica.

         Dizia eu no princípio que até conheço gatos, é o que não falta por aqui. Mas este vive por cá, pertence - como eu - ao espaço. Fui obrigado a esta conclusão: ou veio por ele, ou trouxeram-no; e é que era bem pequeno por sinal, ela vinha mostrar-mo e erguia-o nas mãos frente ao nariz do meu espanto. Mas cresceu. É um matreiro  comprido, seta de pêlo branco trepando árvores e arbustos de onde, mudo e quedo, se atarda a olhar-me. De outras vezes, ronda-me a periferia, uma grossura no arrufo da cauda, como se eu o diabo. Eu, cão ignorado por gatos invasores. Mas, feito polícia de mim, insiste e não desarma. Pura provocação. Se me divirto numa investida surpresa, mesmo até à ponta da corrente que me repuxa no cachaço, senta-se num frente a frente desdenhoso. A salvo.  E é que faz amizade com os outros gatos, então com o de cauda espalhafatosa, nem é bom falar. Intocados, sentam-se lado a lado em namoro de antanho, sérios e compenetrados, olhos exclusivos e em afirmação de impenetrável segredo. De outras vezes, estiram-se como descansados guardiães, um de cada lado do portão. Se ocupados em afazeres de rua, os donos lhe fazem companhia, o gato  difere, despoja-se do ar sério, torna-se folgazão e divertido. Em dias solares, deleita-se aos pés dela, entretida com um livro. Mas, do que dou fé é das longas esperas que faz ao de cauda amarela. Talvez por ser jovem, o bichito não arrisca ir procurá-lo e deita-se debaixo dos cedros, no lugar onde o peralvilho lhe surge como quem nasce do nada. Decerto vivem o sentimento que, sempre solitário na corrente, não me chegou. Morro sem babar por uma cadela. Apanhado pela velhice, nem isso me importa já. Contudo, revejo-me na harmonia dos dois gatos, é coisa sem alarido, sóbria, um traço de verdade. Contemplo-os do frio dos ossos, dentro da casota, olhos semicerrados. Ou apenas estirado ao sol da primavera, a encher-me do calor que, no ocaso,  me vai faltando.  

domingo, 3 de janeiro de 2021

Gatices

 

Para mim não há dias e noites, há horas de refeição. É a essas que mio como se me pisem os calos que não tenho. Portanto, fica assente, existem-me uns períodos de sossego que passam num rufo, só sei que adormeço na almofada e começo a espreguiçar-me ao som dos passos na escada. A mim parecem dois factos encadeados, mas posso estar enganado que, como já disse, o meu relógio é o estômago.

Depois dos passos, ela abre a porta da copa e acende a luz. Mas já eu estou alerta. E é consoante, ou me pega ao colo enquanto sobe as persianas ou me faz um carinho e passa à frente. E sei que vou tomar o pequeno almoço. Ando por ali ensarilhado nas suas pernas até que me alimente. Devoro tudo num instante e, em silêncio, vou cirandando pelos pés do banco alto em que se senta. Aprendi a respeitar esta meia hora de ainda silêncio e desanimo um nadinha se, arrumada a cozinha, não me deixa subir e acompanhá-la. É que adoro afiar as unhas nos edredons e dormir sonecas aconchegantes. Quando desce enchumaçada, nem um, anda gato, lhe oiço. A disfarçar o desalento, finjo que durmo e, logo que o trinco da porta se cala, amodorro no silêncio e embalo no sono. Nada me importa o que ela é quando não está por perto, a bem dizer as pessoas só me existem pelo olfacto, pelo tacto e pelo olhar. Fora da presença, acho eu, deixam de haver. Quando ela se materializa de novo, se me diz, anda gato, lá vou saltitando ou em corridinhas. Adoro que vá ao sótão das caixas e caixotes. Esgueiro-me por entre aquela balbúrdia empilhada e até me esqueço de descer. Por vezes passo horas a miar à porta fechada e quando ela chega usa uns olhos quase tristes que logo troca mal me vê.

A rua encanta-me. Há árvores para subir e um intrigante animal que se queda a olhar-me perplexo. Rodeio-o. Não me afasto, mas também não o deixo alcançar-me. Estranhamo-nos um ao outro  e o barómetro que tenho na cauda  avisa-me do perigo. Gosto de subir ao arbusto que cresce perto do bicho e ficar lá de cima apreciar-lhe a confusão do olhar perdido na minha desfaçatez trepadora. Tenho para mim que ele nunca será animal para descobrir o poder das minhas garras - a mania que a gente tem de pensar os outros à nossa imagem -, sinto que o desconcerto tanto ou mais que os pássaros a que ladra num desatino esparvoado. Não me parece grande esperteza, até já o vi ladrar a uma mosca.

Bom, a hora do almoço é atribulada, os cheiros acordam-me o estômago e surge a cantiga dos miados ininterruptos. Mas só tenho alimento quando termina a confecção. Podem pensar que os miados são um aborrecimento, e são. Mas, e a tortura que é o cheiro das refeições dos homens? Ah, pois. Eu é que sei o que sofro à mão dos odores que me escancaram o apetite.

Mais à tarde, se ela se senta, estico-me para o colo e são horas de deleite, estirado como um cação, respiração funda e prazerosa.

sábado, 7 de novembro de 2020

Eu, Gato

 

Sou um gato. Um GATO. Não sei de onde vim, mas sou gato, convenço-me que sou, ainda que ela me chame palermices como carochinha, raposinha, bolinha, minha menina pequenina, que são nomes bons para uma menina gata e é claro que isso me baralha. Mas a voz dela é que me enleva, me dá sono e me acorda. Fico no colo  a fazer que durmo (às vezes é sono a sério) e ela vai passando a mão  e fala baixinho, o meu menino, a raposinha bonita. E estou no céu dos gatos. Tenho fixação nela, durmo na sua cadeira e adoro a almofada onde se encosta; e quando ninguém sabe de mim só respondo à sua voz. Eu que mio desalmado por comida, se ela me chama, “gato, gatoooo”, chio como ratito pequeno. Que querem, muda-se-me a voz, os gatos também são mimosos se forem mimados. Quando aqui cheguei era meio pelado, via-se a rosa da pele e pulgas passeando entre os pelitos brancos. Hoje não há parasita que me chegue e estou bem encabelado, a pele rosada é lembrança. Sou um gatinho maltês branquito, rabo tigrado e focinho e orelhas amarelo/acastanhadas; e, note-se, tenho os olhos azuis. Não vou ser muito comprido, já ouvi que sou pouco elegante e tenho barriga, mas não resisto à comida, seja qual seja; desconfio que me chama bolinha por isso mesmo. Se toca a comer, tenha ou não apetite, nem a voz dela faz efeito, cuido de me esganar. Já subo a escada atrás dela e corro o sótão de uma ponta à outra, sou curioso e exploro qualquer recôndito; mas se ela diz, gato anda, vamos descer, apareço e vou na sua frente a pular os degraus que só há uns quinze dias consigo subir e descer sozinho, antes era carregado no colo.

Tenho memória de um lugar onde miava aflito e de uma mão a içar-me e embrulhar-me no casaco, e de eu ser um ninguenzinho de olhos assustados e orelhas muito sujas. E depois trouxe-me para esta casa e gosto tanto de aqui morar. Tenho árvores para subir, terra para escavar, sol e vento. Adoro ir à rua com ela e ficar por ali a brincar e o cão não me assusta. Brinco com tudo, passo horas às voltas com uma folha, um bocado de lã, uma fita de cabelo, e tenho fetiche com novelos. Acho que ela é a minha mãe, se durmo na copa ou noutro lugar e lhe oiço a voz, acordo. Mas já lhe corri o avental de cabo a rabo, lambi-o com vagar e esmero e não achei o que queria. Depois, experimentei chupar-lhe os dedos, mas também não deu. Mas ela tem uma coisa que se chamam braços onde gosto de me esterifar e dormir, e com as minhas patas puxo-lhe as mãos seja par morder e lamber seja para me aninhar como gosto. Ela ri e diz, bebé, és um bebé, tu - e depois -, pareces um coelho assim esticado.

Do que ela não gosta mesmo nada –  castiga à séria – é que puxe a comida da mesa e me sente no colo dela durante a refeição. Já levei muita sapatada. Mas estou a começar a aprender a ficar entre as costas da cadeira e as dela até que termine. Não vai ser fácil.

Fiquem bem.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Surpresa

 

Pronto, é verdade, levanto-me a pensar na Lili e na Violeta. Mais exacto: levanto-me em presteza e cuidados a fim cruzar com a Lili e a Violeta. Ora, ora, há quem se levante para ir olhar o telemóvel (que barbaridade), espreitar as notícias, fazer um xixizinho, tomar pequeno almoço vagaroso e com letras à mistura (eu, eu, eu), correr para o emprego, correr para aqui e para ali que as horas somem quando mais precisamos delas. Ora bem, hoje, dia cinco de Outubro de 2020, não encontrei o senhor Zé com as duas manas a cheriscar por todo o lado. Foi a primeira vez. Um desânimo. Às 2ªs matamos saudades uns dos outros. Oxalá a falta seja por bem. Se amanhã os não encontre, armo em Sherlock e investigo.

Portanto, ia eu caminhando toda desvitalizada, pés  apalermados a desenharem passos de costume, a mente numa insistência bacoca a mapear, cheia de pormenores constrangedores, os metros em falta. Ia eu pensando que afinal, bom, era melhor ter permanecido mais um pouco na cama em dia feriado, e que a República me merecia comemoração preguiçosa. Dentro desta nuvem de Madalena arrependida e capaz de começar a chamar nomes a mim mesma, desejava um relógio de voltar atrás no tempo, queria – se pudesse - anular o vivido e introduzir a manhã virginal. Ansiava por um inverosímil marcador que me plantasse, por exemplo, nas seis da manhã (hey!).

Ensimesmada, ouvi o som sem o identificar, reduzido à captação sensorial. E ia dando passos, prosseguia por hábito, sem que  a atenção se dignasse fixar-se aqui ou ali. Desatentos, não catalogamos o que ouvimos. Mas era um som próximo, insistente. Abrandei (mais) e, coincidente com a identificação auditiva, a imagem: na frente dos meus pés, um gatito branco muito, muito bebé. Parecia caído do céu e, perdido da família, miava desalmado.  Peguei e trouxe-o antes que algum automóvel o atropelasse julgando-o ratazana (parece um bocadinho). Pelo caminho, e para lhe acalmar o susto dizia-lhe, vieste festejar a República, não foi. Pois é uma data boa para travarmos conhecimento, muito prazer, Beatriz.

É tão pequenino que ainda não se distingue com clareza o sexo. Preferia uma gata. Mas tenho a convicção de ser gato. É “esgravulha”, tem unhas muito afiadas (acho que é selvagem, o pêlo espeta todo) e, sendo tão pequenino que nem consegue subir e descer os degraus, corre que se desunha. Vai sobreviver, come como se não haja amanhã e não é esquisito, miolos de pão, ração, leite, tudo marcha. Se o meu gato for uma gata, engana-me e eu gosto. Mas não me enganando, gosto na mesma. 

Portanto, a República (não quem o abandonou) trouxe-me um gatinho. Pôs-mo literalmente aos pés. Viva a República!

 

 

domingo, 31 de março de 2019

Gatil Vitalício


A minha princesa de quatro patas tem olho azul e uma ternura mansa a correr nas veias. Chama-se gata e não tem arte para brigas com os congéneres, antes foge deles num arrufo de cauda, buscando abrigo seguro; nessa inépcia de esgadanhar e morder, ganhou marcas de guerra sem medalha. É caçadora mediana e diverte-se a desrabar lagartixas. Isenta do vício da posse, lança a pata brincalhona ao réptil e revira intrigada o pequeno s que se contorce no chão enquanto o animal some fugaz. Raro procura colo e falta-lhe o seguidismo de me acompanhar as pernas constantes. Também não inveja o teclado do portátil. Em suma, o mundo dos homens pouco lhe interessa. Mas é feita de silêncio presencial e caseira como nenhum outro gato; acresce que passeia no exterior usando cautelas que os anteriores desprezaram. Foi assim que se prolongou no tempo. Quase velha, a felicidade suprema acontece-lhe se giro pelo quintal. Sobe e desce no tronco de árvores e arbustos, cabriola na minha frente, corre súbita para estacar de seguida. Uma doideira de contentamento que deixa o Fox de olho arregalado às quatro patas. Fox é o guardião, ladra avisos aos gatos quesilentos e a mim, deixa-a comer do seu prato e esparvece de estranheza se ela surge com filhotes.
A maternidade é a supremacia da gata. Este ano, por falta da pílula e mercê de instinto inadiável, emprenhou. Com os típicos sintomas femininos: vómitos, magreza, falta de apetite, sono em demasia e um quê de doença. Até os bigodes lhe descaíam. Mas breve se retomou e, quando dei por ela, comia desalmada, barriga a crescer. Às portas do parto, isolou-se no quintal. Mas, sendo duas para tanta vida, somos as mesmas nos momentos difíceis. Encontrei-lhe uma cama a jeito, pu-la em casa no lugar que prefere e depois de forrada depus a gatita, toda atenção e respeito pela hora. Os três filhos nasceram por entre o seu silêncio que semearam de miados finos como hóstias. No segundo dia, reparei que punha um deles para as costas. Por duas ou três vezes corrigi a posição. Quando o busquei da última vez, estava morto. Terá a mãe pressentido a morte ou o instinto lhe ditou que não sobrevivia; ou, como diz o povo, enjeitou-o.
Contudo, às duas gatitas sobrantes dedicou desvelo exemplar no asseio e na disponibilidade, mãe a todo o pano. Quando a primeira se foi a novo poiso, procurou e voltou a procurar pelos lugares comuns. E logo a esqueceu. A segunda está de partida e tudo se repete. O instinto é força de momento que não deixa marca ou lembrança, existe na hora certa e passa. A minha gata é só gata, não é pessoa. Nem lá perto.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Gatil Vitalício


É certo e sabido que gosto de gatos. Em casa de meus avós havia vários, mas só a Bibi colou à memória. Era a mansidão em forma de gata preta e tinha um amor perdido por meu avô, seguindo-o por tudo que era canto. Os gatos dos meus avós, como mais tarde os de minha mãe, eram seres livres e passeavam-se por onde lhes dava na veneta desde que não passassem da cozinha. Ou seja, eram animais de rua. Nesse tempo, as crianças não andavam com os gatos ao colo, apenas se habituavam à sua companhia. A Bibi, aninhada aos pés de meu avô, fazia-me o favor de comer os elementos da sopa que me nauseavam e eu lhe atirava por debaixo da mesa sem a minha avó aperceber, lambendo prestamente os vestígios. No fim, prato quase vazio, ela em resmungo agreste, não gosta de tomate, não gosta de tomate, aqui come tudo, a mãe é que não aperta com ela. E o sorriso cúmplice de meu avô, olhos no prato.
Tenho várias histórias com gatos, algumas com marcas de alma. Os gatos de minha mãe, pretos por condição e gosto, de tão à vontade que andavam, breve se tornavam selvagens. Com frequência emigravam para os confins do mundo não civilizado, todo sobreiros e cobras, regressando apenas por fome de comidinha caseira e desfastio de saudade. Faziam aparições esporádicas até perderem memória de nós e desaparecerem de vez. Chegavam arredios e a olhar-me num assanhamento vingativo que não consentia mão. A insistência incrédula da minha ternura de saudade curava-se a mercurocromo e tempo feito de lágrimas desapontadas. Os gatos deram-me a primeira lição sobre a reciprocidade afectiva: a chama não é eterna nem é de lei que apague em simultâneo. No entanto, apesar dos anos terem confirmado a verdade gátil, ainda hoje os arranhões e olhares rancorosos dos meus bichos de estimação purulentam na memória.
Portanto, quando criei a minha própria casa, frequentada apenas por lagartixas renitentes e aranhiços provincianos, julguei-me a salvo da selvajaria das garras e adoptei um gato adulto que não me largava a porta. Foi o recomeço dos gatos na minha vida. Que me inibo de contar. Ao caso, interessa apenas o felino que ora me acompanha: uma doce gata de olho azul que foi abandonada bebé – talvez por ser fêmea – quase na soleira da porta. Indubitável presente divino que, felizmente, aceitei.
(cont)