quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Os Santos Mistérios


Foi hoje mesmo. Não ontem ou no mês passado quando  me misturei em visitas de família e amigos. Foi hoje. O tête à tête necessário, coisa de estarmos as duas sem palavras, numa calma de várias horas.  Por vezes a minha alegria começa no caminho descansado e longo que percorro até ela. Nesses dias tenho olhos de poesia e levo versos presos nas pestanas. Hoje, não. Hoje seguia recalcitrante, atada a moíções eternas e nem guardei memória do caminho. Contudo, fui descongestionando, guiar em silêncio é acto que me desliga. Mas vê-la assim guardada pela serra, um imenso lago rútilo até ao horizonte, no dia claro e de luz aberta, deu-me alma nova. Bem sei que o dia não foi feito para mim. Mas vamos fingir, vamos fingir que sim. Preciso pensá-lo. Anima-me essa intenção da natureza. Compensa-me. 
E portanto fiquei o dia todo a compensar-me. E quando me compenso tudo vira extraordinário: o conciliábulo só nosso e que acontece no meio da gente; a maciez da areia a saudar os pés; a frescura que me recebe e se renova em cada vez; a leveza transmitida por água e sol e um cansaço bom que me entorpece; o imenso prazer de ter corpo e haver água viva onde mergulhá-lo (pode ser da impulsão, sim, “qualquer corpo mergulhado num líquido sofre da parte deste...”).
E com licença que vou dormir. Adormecer. Curtir o cansaço marítimo. 
Foi um prazer.


12 comentários:

  1. E agora já pode ter sonhos cor de rosa.

    ResponderEliminar
  2. Bom Dia, Pedro. O meu sonho cor de rosa, arco íris mesmo, é dormir por várias horas de seguida, encarreirar no sono. O bom deste sonho é haver sempre outra noite:).

    ResponderEliminar
  3. Mar Sonoro

    Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
    A tua beleza aumenta quando estamos sós.
    E tão fundo intimamente a tua voz
    Segue o mais secreto bailar do meu sonho
    Que momentos há em que eu suponho
    Seres um milagre criado só para mim.

    (Sophia de Mello Breiner Andresen)

    Enjoy, bea.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Maria. Eu entendo Sophia, comungo do seu gosto pelo mar, embora não nade ou mergulhe como ela. Que o prazer que sentimos me parece muito comum.
      Boa noite

      Eliminar
  4. Breyner, claro!
    Sorry, cada vez tenho mais dificuldade em escrever nestes quadradrinhos...mas não vou desistir de comentar ;)
    E o livro é a colectânea MAR, da Maria Andresen de Sousa Tavares
    Editorial Caminho, Abril de 2001
    Que isto dos direitos de autor deve ser respeitado, penso eu de que...

    🐳
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os lapsos acontecem:). E esse peixinho azul é lindo.

      Eliminar
  5. Respostas
    1. Mesmo. Talvez porque nos dê um tempo só nosso e tão necessário. Quebra.

      Eliminar
  6. Continuação)
    A minha expectativa era grande, modéstia à parte não reconhecia nos meus colegas superioridade literária suficiente para me "roubarem" o primeiro lugar.
    Chegados ao tão aguardado dia a professora começou por entregar os trabalhos com pior nota e assim sucessivamente até ao último que seria o melhor e o vencedor. À medida que ia entregando e o meu não aparecia, ia ficando por um lado aliviado e ao mesmo tempo ansioso. Até que já só tinha dois na mão, os melhores, mas só o primeiro lugar me interessava. E eis que a professora diz que aqueles dois estavam muito bons e que a escolha tinha sido difícil. Nesse momento fiquei nervoso. Mas difícil como? Quem é que naquela turma me faria frente? Parecia-me que todos os meus colegas já tinham recebido o trabalho...
    Quem seria o intruso? Voltei a mirar a turma e dei-me conta que na última fila, no cantinho, encostado à parede se encontrava alguém com as mãos ocas, o Peralta... o encoberto.
    Não parecia possível, mas foi...
    E fiquei com o segundo lugar, com direito a menção honrosa e à anotação indicada no topo.
    Agora, toda a minha atenção estava concentrada em ouvir o vencedor na sua leitura, pois estava muito curioso.
    E começou assim, numa voz abafada... quando a senhora professora nos anunciou que tínhamos de fazer uma composição sobre Fernando Pessoa, fiquei tão aflito que saí da escola e fui direitinho à igreja acender uma vela a Nossa Senhora para me ajudar. Sentei-me um pouco no banco para rezar um Padre Nosso e foi quando me dei conta que ao meu lado estava um senhor magro, de óculos e vestido de preto que segurava nas mãos um chapéu. Perguntou-me porque estava tão abatido e eu disse-lhe que tinha de preparar um trabalho sobre Fernando Pessoa e não sabia o que fazer. Convidou-me a sair da igreja e como defronte ficava o jardim da Estrela sentámo-nos num banco a conversar. Disse-me que também escrevia poemas e perguntou-me se eu queria que me lê-se alguns.
    E o pobre Peralta começa a desfiar os poemas, e um, e dois, e três.
    E era aquele trabalho o melhor da turma; não sei se plagiou os poemas, mas que aquilo me era conhecido lá isso era. A única coisa inédita era o título da sua composição: "O meu encontro com Fernando Pessoa"!
    Hoje, à distância de tantos anos, dou comigo a pensar o que teria sido o meu destino literário se a minha composição tivesse sido publicada...
    PS: como não podia deixar de ser, esta história, na íntegra, é produto da minha imaginação...e acabou mesmo por ser a melhor da turma!

    ResponderEliminar
  7. Foi dois em um, Joaquim. Tem um imaginário delirante, julgo-o um expert. Quantos anos tinha quando imaginou a história? É que já sabia imensíssimo sobre o poeta em causa, dados biográficos, poemas, dados históricos de casas comerciais da cidade do Porto, e mais que não me lembro mas também está na primeira parte. E com tanta sabedoria - que a tem - deixou passar, lê-se. Hummm....

    ResponderEliminar
  8. "Quando me compenso tudo vira extraordinário" Tão verdade! Temos que nos compensar mais vezes. Abraço!

    ResponderEliminar
  9. Ó prosa, é que estou mesmo contigo no sublinhado da frase:).

    ResponderEliminar