Foi
hoje mesmo. Não ontem ou no mês passado quando
me misturei em visitas de família e amigos. Foi hoje. O tête à tête
necessário, coisa de estarmos as duas sem palavras, numa calma de várias
horas. Por vezes a minha alegria começa
no caminho descansado e longo que percorro até ela. Nesses dias tenho olhos de
poesia e levo versos presos nas pestanas. Hoje, não. Hoje seguia recalcitrante,
atada a moíções eternas e nem guardei memória do caminho. Contudo, fui
descongestionando, guiar em silêncio é acto que me desliga. Mas vê-la assim
guardada pela serra, um imenso lago rútilo até ao horizonte, no dia claro e de
luz aberta, deu-me alma nova. Bem sei que o dia não foi feito para mim. Mas
vamos fingir, vamos fingir que sim. Preciso pensá-lo. Anima-me essa intenção da
natureza. Compensa-me.
E
portanto fiquei o dia todo a compensar-me. E quando me compenso tudo vira extraordinário:
o conciliábulo só nosso e que acontece no meio da gente; a maciez da areia a
saudar os pés; a frescura que me recebe e se renova em cada vez; a leveza transmitida
por água e sol e um cansaço bom que me entorpece; o imenso prazer de ter corpo
e haver água viva onde mergulhá-lo (pode ser da impulsão, sim, “qualquer corpo
mergulhado num líquido sofre da parte deste...”).
E
com licença que vou dormir. Adormecer. Curtir o cansaço marítimo.
Foi um prazer.
E agora já pode ter sonhos cor de rosa.
ResponderEliminarBom Dia, Pedro. O meu sonho cor de rosa, arco íris mesmo, é dormir por várias horas de seguida, encarreirar no sono. O bom deste sonho é haver sempre outra noite:).
ResponderEliminarMar Sonoro
ResponderEliminarMar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
(Sophia de Mello Breiner Andresen)
Enjoy, bea.
⚘
Obrigada, Maria. Eu entendo Sophia, comungo do seu gosto pelo mar, embora não nade ou mergulhe como ela. Que o prazer que sentimos me parece muito comum.
EliminarBoa noite
Breyner, claro!
ResponderEliminarSorry, cada vez tenho mais dificuldade em escrever nestes quadradrinhos...mas não vou desistir de comentar ;)
E o livro é a colectânea MAR, da Maria Andresen de Sousa Tavares
Editorial Caminho, Abril de 2001
Que isto dos direitos de autor deve ser respeitado, penso eu de que...
🐳
Maria
Os lapsos acontecem:). E esse peixinho azul é lindo.
EliminarA natureza pacifica-nos.
ResponderEliminarMesmo. Talvez porque nos dê um tempo só nosso e tão necessário. Quebra.
EliminarContinuação)
ResponderEliminarA minha expectativa era grande, modéstia à parte não reconhecia nos meus colegas superioridade literária suficiente para me "roubarem" o primeiro lugar.
Chegados ao tão aguardado dia a professora começou por entregar os trabalhos com pior nota e assim sucessivamente até ao último que seria o melhor e o vencedor. À medida que ia entregando e o meu não aparecia, ia ficando por um lado aliviado e ao mesmo tempo ansioso. Até que já só tinha dois na mão, os melhores, mas só o primeiro lugar me interessava. E eis que a professora diz que aqueles dois estavam muito bons e que a escolha tinha sido difícil. Nesse momento fiquei nervoso. Mas difícil como? Quem é que naquela turma me faria frente? Parecia-me que todos os meus colegas já tinham recebido o trabalho...
Quem seria o intruso? Voltei a mirar a turma e dei-me conta que na última fila, no cantinho, encostado à parede se encontrava alguém com as mãos ocas, o Peralta... o encoberto.
Não parecia possível, mas foi...
E fiquei com o segundo lugar, com direito a menção honrosa e à anotação indicada no topo.
Agora, toda a minha atenção estava concentrada em ouvir o vencedor na sua leitura, pois estava muito curioso.
E começou assim, numa voz abafada... quando a senhora professora nos anunciou que tínhamos de fazer uma composição sobre Fernando Pessoa, fiquei tão aflito que saí da escola e fui direitinho à igreja acender uma vela a Nossa Senhora para me ajudar. Sentei-me um pouco no banco para rezar um Padre Nosso e foi quando me dei conta que ao meu lado estava um senhor magro, de óculos e vestido de preto que segurava nas mãos um chapéu. Perguntou-me porque estava tão abatido e eu disse-lhe que tinha de preparar um trabalho sobre Fernando Pessoa e não sabia o que fazer. Convidou-me a sair da igreja e como defronte ficava o jardim da Estrela sentámo-nos num banco a conversar. Disse-me que também escrevia poemas e perguntou-me se eu queria que me lê-se alguns.
E o pobre Peralta começa a desfiar os poemas, e um, e dois, e três.
E era aquele trabalho o melhor da turma; não sei se plagiou os poemas, mas que aquilo me era conhecido lá isso era. A única coisa inédita era o título da sua composição: "O meu encontro com Fernando Pessoa"!
Hoje, à distância de tantos anos, dou comigo a pensar o que teria sido o meu destino literário se a minha composição tivesse sido publicada...
PS: como não podia deixar de ser, esta história, na íntegra, é produto da minha imaginação...e acabou mesmo por ser a melhor da turma!
Foi dois em um, Joaquim. Tem um imaginário delirante, julgo-o um expert. Quantos anos tinha quando imaginou a história? É que já sabia imensíssimo sobre o poeta em causa, dados biográficos, poemas, dados históricos de casas comerciais da cidade do Porto, e mais que não me lembro mas também está na primeira parte. E com tanta sabedoria - que a tem - deixou passar, lê-se. Hummm....
ResponderEliminar"Quando me compenso tudo vira extraordinário" Tão verdade! Temos que nos compensar mais vezes. Abraço!
ResponderEliminarÓ prosa, é que estou mesmo contigo no sublinhado da frase:).
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